Você acha que eles merecem participar da Educação Física?

Thais Ferreira Dutra 
Pedro Gabriel Viana

“Se a alma rebelde se quer domesticar
Menina preta perde infância, vira doméstica
Amontoados ao relento, sem poder se esticar
Um baobá vira um bonsai, é só assim pra explicar.”

Drik Barbosa e Emicida refletem sobre o trabalho infantil em Sementes, canção que fez parte da campanha do Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, instituído pela Fundação Cultural Palmares e celebrado no dia 12 de junho. A música propõe um olhar voltado para as infâncias negras e periféricas no Brasil e nos pôs a refletir sobre quem tem o direito de viver uma infância plena em nosso país. 

É fato que, de diversas formas, as crianças têm seus planos de vidas atravessados por um projeto de sociedade desigual, que compromete seus sonhos e viola seus direitos. Hoje, nossa proposta de reflexão caminha no sentido de compreender de que forma a escola colabora para a mercantilização dos corpos de crianças historicamente marginalizadas. Seguiremos esse fio a partir do relato de experiência de um professor de Educação Física dos anos iniciais da rede pública de Belo Horizonte.

Fernando (fictício), ao chegar em sala após a aula da professora regente, se depara com cinco estudantes que não haviam realizado alguns para casas de matemática. Esta professora, indignada, lança o seguinte apelo ao professor: “criança que não faz para casa, que não comporta, que não respeita, merece participar da Educação Física?”.

Esta questão explicita, dentre diversas camadas, como esse componente curricular é desvalorizado na educação, uma vez que o que impera são os saberes da Língua Portuguesa e da Matemática. Mas aqui, vamos nos ater a refletir acerca das razões pelas quais a escola, ao se deparar com as questões de transgressão dos estudantes, opta por negá-los o direito às linguagens atreladas a corporeidade. 

Uma das diversas funções sociais da instituição escolar é instigar relações do sujeito consigo, com o outro e com o mundo. Relações, sejam tensas ou potentes, a serem aprendidas pela vivência no e com o corpo. Retirar o direito ao acesso às práticas corporais, seja nas aulas de Educação Física ou nos recreios, e colocar esses momentos à serviço da obediência, é colaborar com um pensamento colonial que nega ao sujeito outras possibilidades de vivenciar o mundo.

Dentro do contexto da sociedade colonizada pelo viés branco-europeu-cis-hétero, a escola cumpre o papel de transformar os sujeitos marginalizados em “cidadãos”. Nesse sentido, os corpos de crianças marginalizadas tornam-se territórios a serem colonizados. A escola por vezes cumpre o papel de domesticar o corpo infantil, negando-o às possibilidades de vivê-lo de forma integral e emancipadora, uma vez que esse deve estar à serviço, à priori, da produção. Nesse sentido, momentos de maior fruição e expressão corporal são encarados, no currículo, como privilégio dos estudantes “bens comportados”.

Afinal, quem tem o direito ao próprio corpo? Quem são as crianças que têm o direito ao lazer negado como consequência de seus atos de transgressão? Quais suas cores? Seu gênero? Qual território ocupam? Meninos e meninas negros e negras continuam a ter suas possibilidades de confrontar o mundo reduzidas às práticas coloniais que continuam a violentar sua corporeidade. Se não obedeceu, ou não conseguiu permanecer sentado copiando a tarefa por horas, é esperado que o sujeito permaneça mais tempo sentado, de castigo e de cabeça baixa. 

Dentro da reflexão acerca dos valores afro-civilizatórios, abordados anteriormente na coluna do Pensar, refletimos sobre a importância de valorizarmos o corpo como parte indissociável do processo de aprendizagem. Para os povos negros, o corpo tem um lugar central e sagrado de afirmação da vida. Construir um espaço escolar onde a punição sempre esbarra na negação ao bem viver deste corpo é também um processo de desumanização. 

Concomitantemente, a branquitude, em escolas privadas menos tradicionais, vem se apropriando destes valores afro-civilizatórios, para manter suas crianças brancas com acesso às vivências plenas com as práticas corporais. Quando as crianças negras terão esse mesmo direito, que historicamente lhes pertence, garantido? Precisamos de territórios férteis que permitam que esses corpos cresçam, transgridam e se expressem como baobás, como bem disse Drik Barbosa. 

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