Pensar fora da caixa. Que caixa?

Jacqueline Caixeta

Quando será que as escolas de formação de professores vão parar de ser hipócritas e vão começar a, realmente e de fato, unir discurso e prática? 

Todos os discursos que ouvimos sobre formação de professores é que eles precisam de uma formação transdisciplinar, que os permita que pensem as disciplinas além de suas matrizes e grades, que percebam que o conhecimento é algo construído de maneira interdisciplinar, que os assuntos, temas, se entrelaçam e podem conversar entre si de maneira dialética, promovendo a criticidade e criatividade. No entanto, o que continuamos a presenciar é uma prática que ainda insiste em dividir, separar saberes que, muitas vezes, só terão significados se forem relacionados.

Muito se fala em um aluno que pense fora da caixa, que “pensar fora da caixinha” será seu diferencial no tal  mercado de trabalho, contudo, eu pergunto: como pensar fora da caixa se ainda continuam ofertando tudo dentro da caixa? Os cursos de formação de professores ainda insistem e persistem em aulas extremamente alienadas de senso crítico, pobres na arte de encantar, seduzir, instigar, cutucar o aluno a pular logo fora dessa tal caixinha.

O desenho que se tem dos cursos de licenciatura continua o mesmo de tempos atrás. Recebo para estagiar em escolas estudantes de universidades que trazem tanta insegurança, medo, pouco preparo e uma cartilha de como deve ser seu estágio. Ora bolas, como assim? Como mandar estudantes para dentro de salas de aula para estagiarem, carregados de tantos preconceitos e amarrados em tantas burocracias de uma prática distante da realidade?

A reflexão que pretendo provocar pode incomodar as reitorias de cursos graduações de professores, e tomara que incomode mesmo, e muito. Lotar um auditório para falar sobre a educação e o tanto que ela precisa melhorar quando o tema é formação de professores, trazendo discursos vazios e antigos, com frases prontas e bonitas não vai, nem de longe, mudar a realidade dos cursos de formação de professores.

É muita sacanagem de um professor universitário dizer ao seu aluno para pensar fora da caixinha e, ao mesmo tempo, ofertar a ele práticas que o prendem dentro de caixinhas, práticas que não o estimulam a pensar, criar, desafiar seus saberes, mantê-lo preso em grades e matrizes que não dialogam com o mundo.

A transdisciplinaridade é um conceito da educação que compreende o conhecimento de uma forma plural. É uma corrente de pensamento mais aberta e que busca dar uma resposta ao método tradicional de divisão de disciplinas. As disciplinas são uma divisão artificial feita pelo homem para facilitar as práticas de ensino ou mesmo para reproduzir uma escola que não se cria, que não investe no pensamento crítico e liberdade para criar. O tema é antigo e usado quando querem dizer que estão sendo legais com a educação, que é bacana ser plural. No entanto, ele é usado em discursos apenas.

Basta pegar essa moçada que sai dos cursos de licenciatura e jogar dentro de uma sala de aula. Você vai se surpreender com tanta falta de criatividade, com tanta falta de pensamento crítico. Eles saem da faculdade sabendo muito tecnicamente sobre o conteúdo a ser ministrado, mas se são desafiados a lidar com um projeto em que se é convidado a pensar “seu conteúdo” com o do seu colega, trava. Muitas vezes alguns professores questionam a necessidade de fazer trabalhos interdisciplinares, não conseguem perceber seu conteúdo relacionado ao outro. A  capacidade de pensar de maneira plural, multidisciplinar, assusta pela simples razão de que nunca exerceram tal competência enquanto alunos em seus cursos de formação. Sentem-se mais seguros lidando com todo o saber adquirido na universidade que diz respeito apenas à sua linha de formação. 

Na educação não dá pra ser assim. Em sala de aula, inclusive na educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental, nada pode ser fechado em si, nenhum conteúdo deve ser ministrado dentro apenas de seus conhecimentos, há de se ofertar à criança a possibilidade de conversar com o mundo através do conhecimento, e isso só será possível se ela perceber que nenhum conteúdo está fechado em si. Como um professor vai saber fazer isso com maestria se não aprendeu a fazer nos bancos da universidade? Como querer que um professor de história saiba trabalhar em um projeto com um professor de arte e de biologia, se ele não aprendeu a fazer a leitura da sua prática pedagógica de maneira transdisciplinar?

Ah, universidades e faculdades que se propõem a formar professores, vocês precisam ser mais competentes, mais ousados, mais criativos e menos hipócritas. Não fiquem no discurso vazio de uma educação libertadora com uma prática arcaica e pobre, a educação é coisa muito séria para fazermos de conta que tá tudo bem nos cursos que formam professores.

Não permitam que seus alunos vistam a beca de formatura, tirem as fotos daquele momento solene e saiam de seus portões tão incompetentes. Ofereçam mais, bem mais do que palavras bonitas, ofereçam práticas condizentes com suas teorias. Façam com que suas palavras se aproximem de suas ações e coloquem no mercado de trabalho professores que vão, realmente, fazer a diferença aqui do lado de fora. Que vão pensar fora da caixa porque, simplesmente, viveram isso e não apenas ouviram falar e viveram uma prática que os aprisionou dentro da caixa durante toda a graduação.

Com afeto,

Jacqueline Caixeta

1 comentário em “Pensar fora da caixa. Que caixa?”

  1. Satisfatória leitura, quantas verdades ditas de maneira cirúrgica. Sou estudante de pedagogia, faço suas palavras as minhas. Gostaria de provocar um pouco mais…
    Dentro destas caixas narradas encontram-se um universo de gavetas, no qual cada um se esconde em seu conforto pedagógico, e os currículos determinam a organização das mesmas construindo galáxias “perfeitas” e embrulhadas com um lindo papel de presente.

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