Professor e aluno: os dois lados da mesma moeda

Evelyn de Almeida Orlando

Fim de semestre! Pelo menos para os professores da rede particular. E com ele renascem algumas questões típicas de cada final de semestre. Uma delas, sobre a qual escolhi tratar aqui desta vez, é a imagem do professor na ótica do aluno nesse período de encerramento das aulas e, por conseguinte, a imagem que este aluno tem de si mesmo no processo de sua formação.

Esta semana, ao encerrar uma disciplina da graduação, fui abordada por uma aluna que veio me dizer estar muito triste com um colega meu que tinha lhe “dado” uma nota baixa, o que obviamente ela achou injusto e, portanto, a fez mudar completamente sua visão sobre o referido professor. Até então, ela disse que sempre o havia admirado e o achava “bonzinho”, mas, depois dessa nota, ela percebeu que ele era “mau”. Constatei então, com aquela história, algo que todos nós professores já sabemos, mas deixamos de lado muitas vezes por não considerarmos tão importante. É quase um silogismo bem simples: A representação da qualidade do professor para o aluno quase sempre está diretamente relacionada à nota que o mesmo consegue obter em sua disciplina. Uma única prova é suficiente para alçar um professor ao patamar de excelência ou reduzi-lo ao mais baixo nível da escala classificatória da qualidade docente.

É claro que esse episódio remete a questões legítimas sobre o uso das avaliações a partir de instrumentos que pouco contribuem com o processo de desenvolvimento do aluno, o que faz com que este momento seja muitas vezes encarado tanto pelos professores quanto pelos alunos com um sentido meramente formal, de afirmação de autoridade e de saberes legítimos. Neste registro, operacionalmente, as avaliações apresentam enunciados pouco compreensíveis, de duplo sentido, com sentido de “pegadinha” para o aluno ou mesmo, um sentido punitivo. Mas posso assegurar ao leitor que essa dimensão negativa do processo avaliativo não correspondia ao caso mencionado.

O fato é que voltei para casa pensando um pouco mais detidamente nesta questão, buscando uma orientação propositiva para o que me parece ser um problema que consome esses dois protagonistas da educação formal. Retomei um texto utilizado com os alunos do Mestrado, na disciplina Processos Pedagógicos no Ensino Superior, sobre a organização didática da aula como um projeto colaborativo, que me propus de forma desafiadora a trazer para o âmbito da graduação. Em geral, pensamos na nossa lógica professoral que tais alunos ainda não possuem maturidade para esse tipo de dinâmica. De fato, talvez não possuam. Nossos alunos entram cada vez mais jovens na Universidade e, em geral, não trazem em sua bagagem escolar essa formação para um desenvolvimento mais autônomo, participativo e responsável pelo seu processo de formação. Proporcionar a eles a oportunidade de se exercitar nessa direção, pode ser um modo de desenvolver essa maturidade.  O texto ao qual me referi, Organização didática da aula: um projeto  colaborativo de ação imediata, da professora Ilma Passos Alencastro Veiga, foi publicado em 2008 no livro Aula: Gênese, dimensões, princípios e práticas. Neste trabalho, a autora chama a atenção para a necessidade de se pensar a aula como uma construção histórica, “um sistema complexo de significados, de relações e de intercâmbios que ocorrem num cenário social que define as demandas da aprendizagem”. É, portanto, espaço de ressignificação e objeto de constante análise, que passa pela reflexão sobre as nossas ações pedagógicas e práticas educativas que vão desde a organização da aula ao processo avaliativo, e que põe em xeque os nossos próprios saberes tão intimamente associados aos nossos modos de fazer.

A ideia de aula colaborativa é um tema que já vem sendo discutido por diferentes pesquisadores e educadores no sentido de repensar esse espaço de formação que é a sala de aula em um sentido operacional mais voltado para as demandas atuais. Não estamos falando de algo novo, do ponto de vista teórico. Mas, se pensarmos em nossas escolas e universidades, considerando aqui seus diferentes cursos, na prática pouco avançamos nessa direção. Tomando como pressuposto que um dos objetivos que perpassa boa parte dos discursos educacionais aponta para a necessidade de se formar indivíduos que sejam autônomos e responsáveis, a colaboração se torna uma ferramenta pedagógica, no mínimo, interessante e potencialmente eficaz. Nesse sentido, considero importante distinguirmos aqui os conceitos de cooperação e colaboração. No texto Investigação colaborativa: potencialidades e problemas (2002), os autores Ana Maria Boavida e  João Pedro da Ponte refletem sobre essas palavras a partir de suas definições etimológicas. Tal caminho já sinaliza para um enfoque conceitual e um caminho metodológico para o uso das mesmas. Similares no prefixo co, que indica uma ação conjunta, a palavra “cooperação” é derivada do verbo latino operare, que significa operar, executar, realizar, agir; já, a palavra “colaboração”, por sua vez, deriva do verbo latino laborare, o qual está diretamente relacionado a uma ação conjunta que visa um determinado fim, ou seja, um trabalho realizado conjuntamente pelos sujeitos envolvidos no processo. Longe de pensar, com isso, em uma prescrição ou uma receita pedagógica, a ideia me parece desafiadora exatamente pela singularidade que apresenta de precisar ser pensada e adaptada para cada caso específico, considerando os modos pelos quais essa colaboração pode vir a acontecer, tomando como base as potencialidades dos diferentes atores envolvidos nesse processo.

Saindo um pouco da esfera acadêmica e pensando em termos de educação básica, o projeto didático de colaboração na organização da aula tem como base a mobilização dos alunos para um ponto comum, qual seja a sua formação. Embora não consiga perceber esse processo em uma lógica que não seja hierárquica como alguns colegas defendem, pensar a organização da sala de aula, e a didática ali empreendida, como um projeto de gestão compartilhada e corresponsável, parece um caminho possível para romper com essa representação polarizada instituída entre professores e alunos. Rapidamente, o cinema ecoa em minha mente com as potencialidades ilustrativas dessa questão, mas um filme me parece bem representativo: Mentes Perigosas, lançado em 1995 com Michelle Pfeiffer e George Dzundza. Filme antigo, que aborda outra realidade educacional, mas que permite pensar nessa relação polarizada quase como um traço da cultura escolar, além de trazer essa ideia de colaboração em sala como projeto didático.

A discussão me parece oportuna nesse fim de semestre por permitir recolocar esses dois sujeitos não em polos opostos, mas em uma parceria que deve visar à eficácia do processo formativo dos sujeitos envolvidos. Se a educação formal é a moeda de troca que permite maior mobilidade social, os dois lados dessa moeda – professores e alunos – precisam se perceber e atuar como colaboradores que trabalham para o fim comum de valoração desse processo.

Fica o desafio para o próximo ano!


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