O fio da estrela

Ivane Laurete Perotti

Das cruezas planejadas, esfaimados debruam a chuva. Maciça. Chuva da primavera. Espera. Natureza alinhada ao cosmos. Das consequências. Resistências. Idas e voltas. Reviravolta. Agreste. Nordeste. Rota da união. Legítima. Política. Debruam-se. Encantados. Contorcionistas da vida. Estado de salvação.

Debruns. Ruas tomadas de cor e viço. Gritos. Carmesins. Uma criança faz a festa:

_ Mamãe? Estrelas nascem sozinhas?

_ Como assim?

_ Eu quero saber se …

Mães e ansiedades não combinam. Mas se explicam. Esquecendo-se do contexto imediato, a mãe desceu informações sobre a natureza esférica e luminosa das estrelas.  Traçou no ar grandes círculos. Confirmou a natureza dos astros e sua luz própria. Reforçou o papel do tempo. Da pressão. Das pressões, pois não percebeu a agudeza da criança. Adultos perdem o foco com maior facilidade. As implicaturas escorrem por entre salivas. Desnecessárias. Delongadas.

_ Nascem. Não sozinhas. Vivem em constelações. Talvez… talvez…

Sentiu o abraço da sorte. Nascem sozinhas? Será?

_ Mãe? Estrelas têm significado?

_ Sim, têm…

Outra performance pedagógica. Disse do sentido da força e da verdade aceito por maior parte da humanidade. Citou a relação com as chagas de Cristo. Explicou o simbolismo entrelaçado à diversidade cultural. Lembrou-se da Estrela de Davi. Dos pentagramas. Heptagramas e espiritualidade. As sete pontas. As cinco pontas. Perdeu-se, quase, entre o místico e o mágico. Voltou para as estrelas do céu. Do firmamento. Do espaço gasoso.

_ Mãe? Estrelas cortam?

_ Mas…do que está falando?

_ Eu quero saber se estrelas cortam!

_ É…

Temeu elaborar referências impróprias ao que considerava tenra idade para a metafísica das relações simbólicas. Dêiticas. Icônicas. Sígnicas. Tangenciou uma resposta saída do improviso. Aproximou-a da noite que se seguia abaixo e sobre a chuva da primavera. Molhou as metáforas em certa poética líquida. Adocicada pelos acontecimentos que cortavam uma das pontas do fascismo enrustido. Fatídico. Fatal. Disse das estrelas-guias que, diante do breu noturno, orientam pelos caminhos desconhecidos. Perigosos. Traçou comparações com lâmpadas. Lanternas. Até disse da fé em sinais superiores. Divinos. Algo como uma intuição que se dá internamente. Sentiu a preocupação materna bater mais forte na janela da ansiedade. Descortinada, a janela mostrava sem mostrar. Vidraças embaçadas pelas circunstâncias didáticas. O que significavam tantas perguntas?

_ Mãe? Estrelas têm nome?

_ Meu filho…você está me enchendo de perguntas!

_ Sim. Responde: têm?

_ Ah…

Tinham nomes. Algumas eram gigantes. Outras eram estrelas-anãs.

_ Não se fala essa palavra, mãe!

_ Qual?

_ Anã… você precisa dizer…

_ Para as estrelas pode. Eu acho…aaah! Me deixa responder, filho!

Estrelas têm cor: brancas, marrons.

_ Vermelhas!

_ É! Também…eu acho.

_ Você não tem certeza, mãe?

_ Tenho, mais ou menos. É que…existem os gases e existem os desenhos. Os símbolos. Entende?

_ Não! Mas, mãe?

_ O quê?

_ Eu quero saber o nome das estrelas…

_ Tá! Eu só me lembro da… da… Sírius. Ursa Maior. Filho, são tantas!!!

_ E elas têm fio?

_ Fio?

_ Barbante pra segurar no céu, mãe! Não tá me ouvindo?

_ Tô, tô sim…é que…

_ Você tá contente, né, mãe?

_ Sim! Muito!

_ Por causa da estrela?

_ Por causa do homem, filho. Por causa dos homens.

_ Por que criança não vota?

_ Ah! …por que…por que vocês ainda estão em formação. Tendeu?

_ Não!

_ Vocês precisam aprender a pensar por vocês mesmos.

_ Mãe… e as estrelas?

_ Não entendi!

_ Elas não guiam as crianças?

_ Claro! Claro que guiam! Mas…

_ Tá! Você não sabe responder.

_ Filho? Qual o motivo de tantas perguntas?

_ Eu quero ser presidente!

_ Uau! Com tanta curiosidade pelas estrelas, eu achei que você … quisesse… astrônomo?

_ Um presidente astrônomo. Pode?

_ …

_ Se existe astronauta ministro, eu posso!

_ Não disse que não! Só estou…

_ Impressionada?

_ Acho que sim! Você é muito novo. Irá crescer e…

_ Mudar de ideia? Ah, mãe! Você não disse que preciso aprender a pensar por mim?

_ Isso!

_ O que eu preciso pensar vou perguntar para a história.

_ … sério?

_ Sim! Muito sério.

_ Então, tá! Você está crescendo.

_ Como uma estrela. De cinco pontas. Vermelha. As estrelas crescem, né mãe?

_… crescem!


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