Fonte: Pedro Cabral

Ser professor, hoje!

Está cada dia mais difícil ser professor(a) no Brasil. Essa é a constatação que se depreende das notícias que envolvem as professores(as) e, sobretudo, de inúmeros depoimentos de docentes que vemos, ouvimos e lemos aqui e acolá. Ao que parece, à distância geracional entre alunos(as) e professores(as), que sempre existiu e tensionou as relações no cotidiano escolar, vieram se somar outros fatores que dificultam a vida dos professores(as), dentre os quais se pode citar as cada vez mais rápidas transformações do/no mundo atual tornando obsoletos valores e relações até há pouco tidas como fundamentais. Também destacam-se as autorizações à violência como modo de “resolver” conflitos e diferenças no cotidiano escolar, e, sobretudo, a vergonhosa desigualdade que marca a sociedade brasileira e que se faz presente no interior das escolas das mais diversas e perversas formas à medida em que a escola incorporou um contingente expressivo de sujeitos que, antes, a ela não tinha acesso.

Soma-se a isso, as nossas dívidas históricas com a categoria, já que as más condições de trabalho, a ausência de carreiras atrativas e os baixos salários continuam sendo uma de nossas marcas quando se fala de docência no país.

Todos esses fatores estão a tornar a vida das professores(as) cada vez mais difícil e cansativa, levando os(as) docentes à exaustão e, não poucas vezes, ao adoecimento. No entanto, como se não bastasse esses elementos que envolvem o conjunto de nossa experiência societária e sobre os quais a própria escola e os professores(as) têm pouco domínio, nos últimos anos os professores(as) tornaram-se alvo de investimento de grupos reacionários, cada vez mais raivosos em relação aos poucos passos que demos no combate à pobreza e ao reconhecimento e promoção de todas as diversidades que nos constituem.

As tentativas de amordaçar os professores(as) e esvaziar a escola de seus conteúdos formativos é um projeto que unifica vários grupos reacionários no país. Se é certo que os investimentos destes grupos não visam apenas as escolas, mas as artes, a cultura e a política de um modo geral, eles mantêm a escola e suas agentes principais, os professores(as), sob a mais severa das vigilâncias.

Esse investimento pode, no entanto, se lido no seu contraponto: se estão tão preocupados com a ação da escola e dos professores(as) é porque eles, de fato, parecem fazer a diferença na vida de milhões de crianças e adolescentes. Não fosse por isso, não teriam tanta atenção com educação escolar. É disso, também, que temos que tratar no dia das professoras! É de suas ações de resistência e de enfrentamento às dificuldades que temos que nos lembrar nesse Dia das Professoras e Professores brasileiros!

Como já se disse aqui, é preciso que valorizemos o trabalho diuturno que é realizada por quase dois milhões de oprofessores(as) que, de norte a sul do país, se dirigem todos os dias às escolas para acolher às infâncias e adolescências brasileiras. É desse trabalho que se faz a educação; é desse investimento que se faz a escola pública, a mais republicana de nossas instituições.

Contra os investimentos de grupos reacionários que agridem a democracia, o espaço público e as instituições republicanas, as professoras têm demonstrado uma grande tenacidade para a luta. Nesses tempos sombrios, abrir as escolas e deixar entrar todas as contradições e potencialidades que marcam nossa sociedade é, por si só, um ato salutar, necessário e alvissareiro. É por isso também que precisamos saudar, neste 15 de outubro, todas as professoras e professores que, responsáveis pelo seu ofício, ousam enfrentar as adversidades e buscam se realizar pessoal e profissionalmente na docência. Felizmente não são casos exemplares ou singulares, mas sim formas coletivas e muito disseminadas de exercício da docência de norte ao sul do país.

Oxalá possamos, nos próximos anos, liberar os professores(as) do patrulhamento reacionário, das ameaças de silenciamento e de exposição criminosa e deixá-los apenas e tão somente exercerem aquele ofício pelo qual são, societariamente, responsáveis: a colhida das infâncias e das adolescências do mundo no espaço público da escola!

 

Foto: Pedro Cabral

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  1. O texto me remete à Lei 22623, de 27/07/2017. Infelizmente, se a/o professora/professor é agredida/o, quem tem que sair do espaço escolar é a/o docente.

    Penso que é uma injustiça com docentes e discentes. Por que todos vão pagar pela violência cometida por uma/um aluna/aluno? Por que não é a/o própria/o agressora/agressor que tem que mudar de escola ou ser afastada/o?

    https://www.almg.gov.br/consulte/legislacao/completa/completa.html?ano=2017&num=22623&tipo=LEI

    Entendo também que a prioridade da escola é ensinar conteúdos. Através desses conteúdos, há formação para o exercício da cidadania. Mas o que está acontecendo é que as famílias e a sociedade de forma geral estão colocando tudo para a escola resolver: alimentação, cuidados pessoais (higiene bucal, por exemplo), uso de drogas, etc.

    Ou seja, se a sociedade não dá conta de resolver os problemas, se as famílias não têm mais tempo para educar suas/seus filhas/os, se as famílias não fazem um planejamento familiar para saber se têm ou não tempo para educar suas crianças, então que a escola assuma a responsabilidade.

    O que as pessoas não entendem é que a formação de profissionais que trabalham somente os conteúdos já é dificílima. Professoras e professores são profissionais intelectuais que precisam de tempo para estudar e para preparar as aulas. Mas isso não é reconhecido, até porque educadoras e educadores nunca são ouvidos quando falam sobre o que mais entendem: educação. Digo aqui a educação como ciência, como saber específico. O senso comum não serve para dizer como as escolas devem funcionar. Pesquisadores/as já apontam a importância da valorização docente, da remuneração e da formação continuada. Entretanto, o que se vê é: um salário totalmente em desacordo com o investimento que deveria ser feito na categoria; professoras e professores que trabalham em dois ou em três turnos; docentes que já há muito não entram em uma sala de aula para estudar.

    Infelizmente, a educação no Brasil só tem duas saídas: ser privada ou ser de péssima qualidade. Isso pensando que as escolas privadas, pelo menos, colocam mais limites para estudantes.

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