Papéis familiares, estereótipos de gênero e as relações com os filhos

Regina Rigoletto Cordeiro

A estrutura histórica e cultural influencia o pensar e agir como pai e mãe, assim, os papéis e as configurações familiares passam por diversas mudanças.  No que tange às questões de gênero, os papéis exercidos no contexto familiar sempre foram diferentes para os homens e para as mulheres. Como apresentam Trindade e Bruns (1999), a responsabilidade da mulher por muito tempo foi a de cuidar dos filhos e ser responsável pelo bem-estar doméstico, enquanto os homens eram tidos como provedores, que exerciam autoridade sobre os outros familiares.

Os papéis atribuídos carregam consigo cobranças que se apresentam na vida de cada indivíduo. A necessidade de cumpri-los para não ser reconhecido como um fracasso, como homem, mulher, pai ou mãe. Historicamente, o capitalismo, segundo Araújo (2005, p. 49), “enfraqueceu o patriarcado e, com o poder paterno declinando, as mulheres foram ocupando espaços publicamente, para atender às necessidades do mercado de trabalho e de sua família, dado que o homem já não dava conta do seu papel de provedor”. Diante disto, as tarefas de casa precisaram ser redistribuídas.

Essa nova configuração e o novo exercício masculino na família, apresentam-se como transformações importantes nas relações parentais, que podem ser refletidas em um melhor relacionamento intrafamiliar. Mas, embora algumas transformações sociais tenham acontecido, com algumas conquistas femininas, percebe-se ainda a conservação e reprodução dessas noções.

O papel disciplinador do pai e a maternidade como um vínculo natural com o filho ainda são ideias naturalizadas socialmente, havendo a “noção da afetividade sobre a relação pai-filho, sempre mais distante do que existente entre mãe e filho” (TRINDADE; BRUNS, 1999, p.10). Destacam-se as diferentes relações estabelecidas com o trabalho a partir das perspectivas de gênero e papéis sociais. A inserção da mulher nos trabalhos fora de casa, não significou a abdicação dos cuidados com os filhos e com o lar, em contrapartida, o trabalho público exercido pelo homem é, muitas vezes, colocado como uma justificativa para a não participação efetiva na criação ou no convívio com os filhos.

Ao longo da gestação, a importância do pai não é muito considerada, enquanto à mulher é atribuída uma participação ampla, sendo-lhe cobrado que suas reações em relação à gravidez ou à criança sejam sempre positivas. Assim, a mãe é colocada como central e a principal responsável biológica e afetivamente pelo filho. “A valorização do útero em nossa sociedade sobrecarrega a mulher” (TRINDADE; BRUNS, 1999, p. 14).

Neste sentido, faz-se importante pensar qual o significado atribuído socialmente à paternidade e à maternidade. A ideia é de que, diante de fatores biológicos, a mãe necessariamente tem de forma inata um vínculo com a criança, enquanto o pai já inicia tal relação “em desvantagem”, tendo que construí-la, sem considerar que o vínculo é, em todas as instâncias, um processo.

Nesta construção, “há uma lacuna no que diz respeito aos aspectos afetivos que envolvem a paternidade. A ênfase dada ao papel da mãe é muito maior do que a dada ao pai, o que não diminui a importância do pai na gestação e na educação dos filhos” (TRINDADE; BRUNS, 1999, p.14), ou não deveria. Assim, evidencia-se por Lins et al. (2015, p. 45), que o exercício da paternidade está passando por uma transição, entre reconhecer a importância da participação efetiva no desenvolvimento da criança e a manutenção dos papéis tradicionais, tendo os pais apenas como ajudantes da mãe.

A partir das discussões, faz-se importante reconhecer a construção dos papéis sociais e questioná-los, acelerando esta transição e modificando as relações intrafamiliares, a fim de favorecer o desenvolvimento dos aspectos afetivos e socioemocionais das crianças com os responsáveis, principalmente, aqui discutido com o pai, diminuindo a sobrecarga feminina e materna dos cuidados.

 

Para saber mais
ARAUJO, Maria de Fátima. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicol. clin.,  Rio de Janeiro ,  v. 17, n. 2, p. 41-52,    2005. Acesse aqui.

LINS, Zoraide Margaret Bezerra; SALOMÃO, Nádia Maria Ribeiro; LINS, Samuel Lincoln Bezerra; FÉRES-CARNEIRO, Terezinha; EBERHARDT, Ana Cristina. O papel dos pais e as influências externas na educação dos filhos. SPAGESP – Sociedade de Psicoterapias Analíticas Grupais do Estado de São Paulo Revista da SPAGESP, v.16, n.1, p. 43-59, 2015.

TRINDADE, Ellika; BRUNS, Maria Alves de Toledo. Introdução: A paternidade no decorrer da história: família, sexualidade, adolescência e paternidade na adolescência. In: Trindade, Ellika; BRUNS, Maria Alves de Toledo. Adolescentes e paternidade: um estudo fenomenológico. Ribeirão Preto: Holos, p. 01-26, 1999.


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