Livros

Alexandre Fernandez Vaz

Há duas semanas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um comentário sobre a necessidade de o Executivo Federal trabalhar mais intensamente nas negociações com o Legislativo. O anúncio (na véspera do dia do livro, comemorado em 23 de abril) veio na forma de cobrança aos ministros e teve tom descontraído, como com frequência acontece com as intervenções de nosso maior líder político popular. Um dos auxiliares nomeados foi Fernando Haddad, responsável pela Fazenda, que deveria, disse Lula, conversar mais com o Congresso, “ao invés de ler um livro”. A resposta também foi bem-humorada, com o ex-prefeito de São Paulo e ex-titular da pasta da Educação dizendo que, ao viver em Brasília, havia esquecido seus volumes em sua cidade natal. O assunto gerou algum interesse e dias depois se soube que ele vinha lendo Estratos do tempo, de Reinhart Koselleck. 

Lula costuma dizer que, mesmo tendo frequentado a escola por poucos anos, jamais um presidente fez tanto pela educação no Brasil quanto ele. Pode parecer de mau tom lembrar disso em um momento em que parte significativa dos trabalhadores das universidades federais está em greve, mas ele provavelmente tem razão. Não dá para negar sua sensibilidade em relação ao tema, principalmente em um país como este, em que a escolarização de qualidade jamais fez parte de um projeto de construção da nação – aliás, muito pelo contrário. Isso não impede, no entanto, que ele eventualmente dê declarações que não ajudam a valorizar o pensamento e a reflexão crítica. Para ambos, é bom que se leia livros, bons livros. 

Forjado como sujeito político na grande capacidade de análise, no enorme talento para a negociação e na retórica carismática, Lula acerta ao desvaler a cultura livresca e o esnobismo das elites que tanto o desprezam.  A mentalidade aristocrática que ainda perdura em muitos setores de nossa sociedade se estrutura em torno de vários preconceitos, entre eles, o de classe. Aferradas à distinção, tampouco as camadas médias toleram aquele operário e sindicalista. Seus hábitos são vistos como cafonas (uma palavra já fora de uso), os desvios do português padrão geram risotas de superioridade, o fato de lhe faltar um dedo da mão, perdido no trabalho, é alvo de chacota. Ao mesmo tempo, jamais aceitaram que ele pudesse fazer refeições em bons restaurantes e vestir-se com esmero. Não se perdoa que ele tenha sido miserável e reivindicador, tampouco que tenha deixado a pobreza para trás – aliás, não só a sua, mas a de milhões de brasileiros que a venceram durante os governos por ele liderados.

Mas, a questão é outra. Já quase não há livrarias no Brasil, que perde com a falta desses espaços que podem ser pontos de encontro para a geração de ricas experiências intelectuais. As bibliotecas nunca foram o nosso forte e, quando temos bons livros nas escolas, aparecem diretores para os censurarem, para dizer que o conteúdo de grandes textos disponíveis para alunas e alunos ofende a moral e os bons costumes, como aconteceu recentemente no Rio Grande do Sul, com O avesso da pele, de Jeferson Tenório, e Outro de carne estranha, de Airton Souza. No mesmo contexto, a prefeita de uma cidade do interior de Santa Catarina recentemente gravou um vídeo atirando livros na lixeira e condenando-os por estarem em desacordo com os “valores da família”. Só faltou a fogueira.

Pode-se dizer que essas são situações de exceção, o que não estou seguro que seja verdade. De qualquer forma, vale ficar atento ao barulho nas redes sociais e mais ainda ao fato em si, que jamais poderia ocorrer em uma democracia – um caso deve bastar para que o sentimento de indignação se coloque. Como disse Jeferson Tenório, há escândalo pelas palavras escritas, mas não pelo que elas expressam. Claro que tudo se potencializa pelo milagre da multiplicação de likes e pela vigilância algorítmica, mas que haja espaço para tamanha bizarrice já é mostra da situação em que nos encontramos. A isso se junta que é exatamente nas mesmas plataformas virtuais que, em boa medida, os livros são substituídos por qualquer coisa a capturar nossa sensibilidade, não para potencializá-la, mas para destruí-la.

É claro que há obras ruins, e não são poucos, mas as boas são em grande número. Todos os gostos são contemplados no largo espectro que se nos oferece, não escapando sequer o mau-gosto. Diante de tudo isso, seria ótimo se Lula não mencionasse os livros como um problema, mesmo que na forma de um chiste. Ao invés disso, que valorizasse o esforço de seu Ministro da Fazenda, que em O terceiro excluído: contribuição para uma antropologia dialética, escreveu o seguinte, como que para justificar sua criação: “Possivelmente, alguém se perguntará por que agora, num momento crucial da vida pública brasileira, decido publicar um texto acadêmico como este. O fato é que, se nos últimos anos passei a ser conhecido como homem público, no meu íntimo ainda me vejo também como professor. E diante do achatamento brutal do debate público no país, o meu ímpeto foi o de seguir na direção oposta, da reflexão e do aprofundamento”. Não é possível ser mais clara a tarefa que se nos impõe.

 

Ela

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