“Doutor Gama” e Consciência Negra na escola

Ivangilda Bispo dos Santos

Com o propósito de promover uma “educação das relações étnico/raciais positivas”, desconstruir preconceitos e estimular práticas antirracistas no contexto escolar, várias ações voltadas para valorização da diversidade social brasileira foram realizadas nas turmas do 8º ano, do Ensino Fundamental, da Escola Estadual Celmar Botelho Duarte, em Belo Horizonte-MG. Discutiu-se o assunto a partir de imagens, vídeos, debates e exercícios, momentos em que foram perceptíveis reações como perplexidade, sentimento de representatividade, falas sobre identificação racial, xingamentos e/ou aparente apatia.

Como afirma a artista e professora Renata Felinto, “O racismo brasileiro se revela tanto na brincadeira, quanto no conflito” e, apesar dos esforços da comunidade escolar, isso mostrou-se bastante evidente entre os estudantes. Em contraposição, eles apresentaram as seguintes propostas para combater a discriminação racial na escola: “conversar sobre o assunto”, relatar o ato à diretora, às supervisoras e às professoras, respeitar o próximo, “estimular atitudes mais inclusivas e o respeito às diferenças”, levar “a diversidade cultural para sala de aula”, punir os racistas etc.

Durante o mês de novembro, as atividades foram intensificadas pelo corpo docente, a fim de valorizar a história e a cultura afro-brasileira. A professora de Geografia, Magali Leite, desenvolveu uma atividade reflexiva e argumentativa sobre discriminação racial, equidade e ações afirmativas na contemporaneidade. A professora de Ciências, Luciene Rocha, elaborou junto com as alunas e alunos um mural sobre personalidades negras. O filme Doutor Gama foi exibido nas aulas de História após estudarmos o Segundo Reinado no Brasil.

Lançado em 2021, Doutor Gama foi dirigido por Jeferson De, contou com a assessoria da historiadora Ligia Fonseca Ferreira e representa uma parte da trajetória de Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882) durante sua infância, juventude e atuação como advogado (“rábula”) na fase adulta. Nascido em Salvador, Gama é filho de Luísa Mahin (proveniente da Costa da Mina, atual Benin) e de um homem de origem portuguesa que o vendeu como escravo aos 10 anos de idade. Segundo a historiadora Ana Flávia Magalhães, Ferreira de Menezes, Luiz Gama, Machado de Assis e José do Patrocínio são alguns dos sujeitos que estavam em diálogo pela defesa da causa abolicionista.

O julgamento de José, personagem inspirado em várias causas defendidas por Gama, não ocorreu. Por meio de uma narrativa baseada em fatos e aspectos ficcionais, a produção utiliza a quebra da quarta parede (inclusive, houve alunos que responderam em voz alta ao diálogo proposto) e imagens digitais. A filmagem foi realizada nas cidades de Paraty (RJ), Cunha e Bananal (SP). O diretor ressalta a importância dos sorrisos, dos silêncios, dos objetos, da religiosidade (como a influência de Oxóssi no caminho de Gama), da centralidade das mulheres negras na trajetória do personagem principal, assim como da atualidade do filme, pois o contexto sociohistórico representado no filme auxilia nossa sociedade a entender sobre cidadania e a #VidasNegrasImportam. O filme contém influência de Moonlight, Django Livre, das obras do artista plástico Kerry James Marshall e das imagens produzidas por Johann M. Rugendas e Jean-Baptiste Debret.

Durante a exibição, ouvi comentários diversos: “Ah professora, não gosto de filmes antigos. São chatos!”, “Não acredito!! Aquele homem é o pai dele? Maldade ter vendido o próprio filho”, “Vendiam crianças?”, “Nossa, que mulher racista!! Se fosse eu, dava na cara dela”. Antes de iniciar o debate sobre o filme, apresentei aos estudantes a biografia de Luiz Gama, destacando sua atuação política no Partido Republicano, nos debates abolicionistas, além de exercer outros ofícios como professor e escritor. Embora alguns aspectos da escravização de pessoas negras (originárias do continente africano ou nascidas no Brasil) terem sido trabalhados em vários momentos na sala de aula, acredito que o filme foi um divisor de águas para muitos estudantes compreenderem como se estabeleceu, nos espaços cotidiano, judicial e estrutural, a submissão de determinados grupos a outros no período imperial – relações de poder marcadas pela questão racial.

As várias formas de violência representadas nas cenas (de forma marcante e sensível) foram equilibradas com a esperança que percorreu toda a narrativa. Foi possível perceber entre os estudantes o sentimento de revolta em relação à escravidão, bem como o orgulho de ter um sujeito em nossa história que conseguiu superar o sistema de opressão a que estava submetido e atuar a favor da libertação de centenas de pessoas. Em outras palavras, o filme colabora para não naturalizarmos a violência e o racismo, compreendermos a presença e a atuação das diversas formas de resistência negra por meio de redes de colaboração, formação de quilombos, processos judiciais e educação. Doutor Gama apresenta uma perspectiva humanizada, respeitosa e complexa dos processos de conquista da liberdade no século XIX, além de mostrar, com seriedade e afetividade, a relevância de Luiz Gama na história brasileira.


Imagem de destaque: Cartaz oficial do filme “Doutor Gama”. Elo Company. Divulgação. Fonte da imagem: Espaço Itaú de cinema.

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