Chegou o Bicentenário: fazer e refazer o foco!

Cíntia Borges de Almeida

Em diferentes textos publicados nesta coluna, fizemos o movimento de dar visibilidade às pautas da História da Educação, refletindo as temáticas e objetos a partir dos limites e enfrentamentos necessários que a Independência do Brasil, o seu centenário e o seu bicentenário não alcançaram.

Bicentenário em Foco surgiu, em 2020, como uma das ações desenvolvidas junto ao Portal do Bicentenário, rede educativa que assumiu, nestes dois anos que se passaram, o compromisso de materializar novas interpretações sobre a efeméride do 07 de setembro e contrapor o discurso oficial engessado em poucos heróis, em feitos forjados, em histórias fabricadas e pautadas no apagamento das narrativas “do outro”, que legitimou a exclusão das populações diversas do processo de identidade nacional.

Com a proposta de trazer para a Coluna os diferentes brasis que conformam esse imenso país, propusemos o desafio de convidar pesquisadores e pesquisadoras, representantes das múltiplas regiões do país, para pensar os processos em torno da independência e a sua relação com a educação. Construímos uma Coluna com muitas mãos, olhares, ideias, projetos, pesquisas, arquivos, enredos, sujeitos e territórios.

Naquele ano, corações esperançosos se engajavam na idealização de um grande sonho. A sua grandiosidade não se pautava em prestígio e poder. Consistia na luta por um projeto que defendia uma ideia: a Independência só poderá existir se alcançar todas as gentes e todos os territórios dos Brasis!

Era muita ousadia, muito trabalho e muita disputa pelos sentidos públicos e pelo reconhecimento da nossa pauta e dos nossos princípios: levar para as escolas as narrativas em disputa sobre o 07 de setembro, de modo a não haver a reprodução do discurso oficial e garantindo um conteúdo pedagógico em defesa de uma sociedade igualitária, democrática, laica, inclusiva, não violenta, engajada no combate a todo e qualquer tipo de discriminação.

De passo em passo, arredando muitas pedras do caminho, mas também com muitas trilhas construídas; os diálogos, os debates e a persistência do pequeno grupo agregaram novos e novas sonhadoras. A nossa rede educativa enfrentou o discurso cívico e nacionalista e, sem se acovardar, sem se apequenar, se alimentou da coletividade, da resistência.

Após dois anos, em 2022, cabe a nós olhar para a história escrita e produzida por essa rede. De forma colaborativa, ao lado de parceiros e apoiadores, professores e professoras da educação básica e do ensino superior, foi construído muito mais do que uma materialidade pedagógica. Entrelaçamos sujeitos,  de muitas cores e lugares; formamos um tecido de histórias cuidadosamente costurado por debates antes pouco ou não revelados; desenvolvemos uma peça resistente, sem nos preocuparmos com a regularidade ou a homogeneização dos fios que a comporiam. O seu preço não está mensurado pelo tipo de material; o valor da nossa rede está no seu sentido, no seu uso, na sua acessibilidade, na variedade de escolas e universidades que passam a utilizá-la e, a partir dela, balançar pela rede do Portal do Bicentenário e suas conexões propostas.

Neste mês de setembro, o Bicentenário chegou. 200 anos da Pátria amada, Brasil? Muito mais do que comemorações cívicas, as gentes dos Brasis – porque são muitas e a sua diversidade é reconhecida por nós – foram às ruas esbravejar as representações possíveis de independências: comida no prato; direito à vida; seguridade trabalhista; saúde e vacina para todos/as; educação pública e de qualidade; participação eleitoral; regularização de terras indígenas; reforma agrária; preservação ambiental; respeito aos nossos corpos. De que independência estamos falando? Daquela que a Constituição diz garantir, os direitos sociais para todes, todas, todos os cidadãos da nação brasileira.

É nesta direção que, hoje, escrevemos a nossa narrativa, a versão do Portal do Bicentenário escrita nas linhas aqui traçadas por este jornal. Em nome da equipe de edição da Coluna Bicentenário em Foco – Cíntia Almeida (UESC), Aline Limeira (UFPB) e Luciano M. Faria Filho (UFMG) – , agradecemos a você leitor e leitora, colaborador e colaboradora, por fazerem parte da construção desta história. Uma história que entrelaça independência e educação. Logo, o Bicentenário está só começando. Fazer e refazer o foco! Que venham os 200 anos da Instrução Pública no Brasil para repensarmos, quiçá, comemorarmos o dia 15 de outubro iniciado em 1827. Logo, não é um ponto final. Apenas, uma breve parada na escrita para mudarmos os rumos do BICENTENÁRIO EM FOCO.

Sobre a autora
Professora Adjunta da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Coordenadora do GT2 do Portal do Bicentenário. Editora da Coluna Bicentenário em Foco. Coordenadora do GRUPPHED (Grupo de Pesquisa em Política e História da Educação).


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