Calibrou as palavras listadas como ensaio:
_ Eu/quero/ser/ gente.
Cheiros de lar sob as nuvens da rua. Ácidos. Sujeira encruada. Camadas do invisível endureciam-no em pele e pelos. Desmascarada nudez.
_ Eu/quero/ser/gente!
Armou o gatilho. Semântico. Intencional. Pausas desfiadas em vazios de trincheira. Repetiu inconsistências. Palavras amarradas com teias do destino esquecido, sem pontos de apoio, sem vírgulas de compaixão: cadenciavam leito. Jazia respirando. Estava na mira. Frente a frente.
Vi “O Grito”. Munch ausente. Tintas doloridas escreviam as fealdades do mundo. Distorcidas linhas de um nascimento invisível. Solitário. Bordoadas da realidade retumbavam sujidades. O amorfo sobre a ponte de lugar nenhum traduzia-se em apagamentos. Ancoradouro do real. Pincéis da loucura salteando o movimento contínuo das mãos. Manoplas em fervura das memórias ausentes. Garras que surrupiavam da vida o que de vida lhes tiravam. Indevida condição. Tela de panos sujos. Pastiche decomposto.
Fustigava consciência e estética aquela miséria de tantas faltas. Matemática do nada. Rito inaudível a descer dos olhos. Um quadro do presente recortado em suas instâncias reais e insustentáveis. Na obra, uma indicação patente: leitavam em bacia de mármore os partidários das fomes, todos inscritos na história sem fim. Muitas fomes. Muitos poltrões. Muitos quadros com assinatura a sangue. Frio. Sem redenção.
Contrário aos ventos baixos que tocavam o dia ensolarado, ele expulsava a sentença em vapor ventricular. Arrítmico, o pronome estilhaçava-se, expondo as minhas vergonhas. Morri de verbos. Nulos. Performáticos. Ilegítimos.
Vilipêndios urbanos amanheciam com a familiaridade dos hábitos: automáticos. Involuntários. Aquele parecia lugar marcado para o desafogo de uma voz. Uma. Teimosa e repetitiva voz da invisibilidade. Um “looping” do tempo em referência ao estar dos homens: inexistir.
_ Eu/quero/ser/gente!!
Ser. Querer. Gente… ele. Afirmava não ser o desejado. Era a miserabilidade humana atravessando os portões da autodefinição. Queria o que não era. Não era o que queria ser. Transmutava todos os pedidos já oferecidos em afirmação doente. Latente. Desejava-se em outro “outro”: longe de si.
“Na imundície do pátio…” Bandeira ergueu versos. À frente do bicho. Ao lado do homem. Mas nem uma só curva dobrou a navalha social. Um século depois, o mesmo pátio imundo acolhe o homem. O bicho? O homem! O homem em devir de humanidade. O homem em estar de bicho. À frente da parva e doentia impotência que colou meus pés à calçada do dia. Em deriva, a vontade dizia de si, mostrava de mim.
Despida de brios, corto na carne o texto pretendido. Não há o que dizer : morri de verbos.
Imagem de destaque: Galeria de Imagens.