EJA: mães solo e desafios no processo de escolarização

Flavia Renata Guimarães Moreira
Rebeca Cristina Nunes Lloy Gonçalves

À mãe solo, advinda da classe popular, historicamente, são delegadas muitas responsabilidades, uma vez que, para ela, estão cristalizadas e naturalizadas tarefas, tais como assumir e coordenar todas as ações que envolvem o núcleo familiar, desde a criação das(os) filhas(os), como também a sustentação financeira, além do cuidado e do acompanhamento educacional. Não bastassem os desafios inerentes à sobrevivência cotidiana, há aqueles voltados para a inserção, assiduidade e conclusão do processo de escolarização. Na EJA, não raras vezes, deparamo-nos com turmas nas quais haja ao menos uma mulher nesta condição.

A premissa que se torna indispensável para um processo inclusivo é o reconhecimento de uma parcela da população que passou grande parte da vida distante do ambiente escolar e que retorna a ele na fase adulta, como é o caso das mulheres mães solo, educandas da EJA. Assim, a escolarização de mulheres pode ser entendida melhor quando se consideram as suas histórias pessoais e sociais (KALMAN, 2011).Muitas educandas sofrem os impactos dos arranjos hierárquicos estabelecidos em torno dos sexos, fator que impede o exercício do direito à educação, ao passo que seja necessário atentar para as questões relativas ao gênero no campo da EJA (CAMARGO; VOIGT; ALMEIDA, 2016).

O enfrentamento quase que individualizado de tais desafios por estas mães é uma realidade e a tendência é de que haja crescimento, dado que no país há mais de 11 milhões de mulheres mães solo. Se considerarmos os meses iniciais do presente ano, podemos constatar que “O número de mães solo no Brasil em 2022 é [o] maior observado em cinco anos, de acordo com os cartórios de registro civil, levando em conta os quatro primeiros meses do ano. Somente de janeiro a abril, mais de 56.931 crianças foram registradas sem o nome do pai” (BRASIL DE FATO, 2022, on-line).

Historicamente as desigualdades são imputadas às mulheres mães solos, culminando em várias discriminações e em menores chances econômicas e educacionais. Segundo as informações da PNAD Contínua do IBGE (2019), quando se tratam dos afazeres domésticos no próprio domicílio ou de uma(um) familiar, os números indicam que 92,2% das mulheres realizam essas atividades, contrastando com 78,2% dos homens, o que aponta para a prevalência dessa assimetria nos dias atuais.

Em um país colonizado e explorado como o Brasil, forjado em uma sociedade machista, patriarcal, racista, misógina e LGBTQIAPNfóbica, lutar pela educação ultrapassa o limiar da garantia de um direito, onde tornam-se necessárias políticas públicas que deem real sustentação à vida de famílias chefiadas e cuidadas por mulheres.

Uma mulher mãe solo, na condição de cidadã e sujeito de direito, precisa ser amparada, cuidada, resguardada por direitos legais que a façam progredir no campo educacional, trabalhista e financeiro, pois, com baixa escolaridade, ela não alcançará empregos sustentáveis e, assim, terá menos condições de mudar as realidades de sua vida e consequentemente da sua família. Contudo, se mais bem assistidas, terão incentivo e condições para alçarem melhores carreiras, traçarem uma trajetória escolar de sucesso e darem aos seus lares a dignidade merecida.

Nesse contexto, a estruturação política das classes subjugadas adquire destaque (DIÓGENES; RESENDE, 2007), aumentando o seu engajamento social e político, para que a educação promova, de fato, a formação humana dos sujeitos, dando às mulheres mães solos a possibilidade da disjunção de situações de subalternidade e subserviência.

Sobre as autoras
Flávia é  professora na Rede Municipal de Educação da PBH. Mestre em Educação pela FaE/UFMG.

Rebeca é professora na Rede Municipal de Educação da PBH. Doutoranda em Educação pela FaE/UFOP.

Para saber mais
BRASIL DE FATO. Cartórios registram crescimento de mães solo no Brasil em cinco anos. Maternidade. Acesse aqui.

CAMARGO, P. S. A. S.; VOIGT, L. P.; ALMEIDA, M. F. Percepções docentes sobre as relações de gênero, os processos de escolarização e a formação docente na EJA. Revista EJA em Debate, Instituto Federal de Santa Catarina, ano 5, n. 8, 2016. Acesse aqui.

DIÓGENES, E. M. N.; RESENDE, F. M. P. Estado, classes sociais e políticas públicas. In: III Jornada Internacional de Políticas Públicas, 2007, São Luís. Anais eletrônicos. São Luís: UFMA, 2007. Acesse aqui.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Coordenação de Trabalho e Rendimento. Rio de Janeiro: IBGE, 2019.


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