Biologicamente Boyceta: inclusão, alargamentos identitários e (não) subversões linguísticas

Suome Matheus¹

A cisgeneridade, como categoria de análise e produção de processos psicossociais e de subjetivação, opera enquanto a fronteira entre a normalidade e o patológico, atuando na forma como as pessoas são percebidas, compreendidas e tratadas em sociedade. As discursividades sobre corpo biológico, constituídas pela cisgeneridade, são endossadas sob uma endossexualidade binária compulsória. Desta forma, o corpo é compreendido a partir da não existência das possibilidades intersexos e transvestigêneres, havendo somente macho-homem e fêmea-mulher. Intervém-se de forma compulsória, demandando modificações corporais a uma pretensa conformidade. Também a exclusão de gênero não binário para intersexos e trans não bináries em documentos de identidade.

Para além deste paradigma, encontram-se nós, boycetas, identidades transvestigêneres alinhadas às possibilidades de masculinidades outras. Assim, ressignificando e reivindicando a presença de uma buceta/vagina em um corpo transmasculine/o, existindo como embate político à lógica do (s)cistema, misoginia e machismo.  Somos parte de uma dissidência de gênero. Nossas existências são apagadas pelo cisheteroterrorismo, isto é, redução de pessoas à sua genitália para cumprir com papéis e construções sociais.

Possuir uma mesma genitália não determina que as experiências vivenciadas pelas pessoas serão as mesmas. Discursividades e dispositivos cisheteroterroristas são, portanto, essencialmente genitalistas e binários, considerando apenas a possibilidade macho-fêmea; homem-mulher; hétero-homossexual. Assim, a ideia de corpo natural decorre de uma ideia de valor social, um tipo de design de espécies que informa o que deve ser um corpo. Sendo assim, o corpo “normal” é descrito e não descoberto. Ao afirmarmos naturalmente boycetas, visamos problematizar estas normalizações dos corpos.

Dentro desta cisheteronorma, as práticas, discursos e técnicas regulam as experiências acerca dos desejos e formação de saberes por meio de mecanismos de sujeição. As pessoas são classificadas em categorias e fixadas em uma suposta identidade sexual, não dando espaço a outras experiências. Transvestigêneres são classificades/as/os, desta forma, como desviantes e antinaturais, atravessades/as/os por processos de animalização e especismo. Nossas existências não chegam sequer a serem enunciadas, o que incorre em uma prática de silenciamento.

Ocorre uma não inserção de transvestigêneres nos espaços sociais porque nossa genitália “não condiz” com as experiências sociais esperadas. Nossos corpos são marginais nas tramas da saúde e educação, recusando aos boycetas o acesso ao ginecologista, por exemplo. Pensar a partir da genitália é desconsiderar a pluralidade de experiências que decorrem das interseccionalidades com outros demarcadores identitários, tais como étnico-racial; classe; gêneros e sexualidades; corporalidades; etários; regionais, entre outros.

Nós somos pessoas que “nasceram no corpo errado”? Estamos indo “contra” a ciência do sexo biológico? Nestas discursividades sobre corpo, pressupõem que toda pessoa transvestigênere almeja se apropriar das tecnologias de gênero para seguir com o “protocolo”, tal como a expressão FTM para transmasculines/os e boycetas (female to male – fêmea para macho). Ou seja, parece que toda pessoa transvestigênere teria como meta produzir seu corpo para o sexo oposto, uma vez que, nesta fabulação, sexo e gênero são a mesma coisa. Portanto, o cisheteroterrorismo, não só reforça a patologização de transvestigêneres, como também, prescreve e afirma como deveriam e poderiam existir.

A transvestigeneridade e a intersexualidade tensionam os sentidos do ideal de normal e de natural, uma vez que evidenciam a complexidade de significar e adequar o corpo biológico a um sistema binário. A normalização social é construída pela necessidade de intervir com tecnologias, porém, se há tal necessidade, já se escapa da ideia de natural. 

Pertencer é testemunhar as existências e produzir outras discursividades sobre, reivindicando a naturalidade de corpos com sistema ovariado; sistema testiculado e sistemas intersexos, que podem ser cis ou trans. Desta maneira, deslocando as ideias de fêmea-mulher; macho-homem e o apagamento de sistemas intersexo. Também, por pessoas biologicamente transvestigêneres, porque se existem pessoas que enunciam a localização de biologicamente mulher e homem, no discurso cisgênero, podemos existir, e ser, biologicamente transvestigêneres.

A partir destes tensionamentos e testemunhos, é possível repensar os limites que as áreas de saberes produzem discursividades sobre corpo e como são produzidas, subvertendo as fronteiras e as reconstruindo por critérios éticos. Assim, permitindo trânsitos e fissuras na visão compulsória de corpo e gênero, ampliando novos agenciamentos de pertencimento, entendimento e acessibilidade de forma múltipla. No espaço da educação, as representações demarcariam a fronteira da diferença, enquanto diferença.

 

1Suome Matheus Vilela de Lima – Boyceta, ativista, artista e macumbeiro. Psicólogo e mestrando pela UNESP/Assis – SP. Pesquisador na linha de Processos Psicossociais e de Subjetivação na Contemporaneidade e no grupo de pesquisa Psicologia, Coletivos e Culturas Queer – PsiCUqueer. Tem experiência em Políticas Públicas e Clínica Crítica e em Psicologia Social, Educação e Subjetividade. Integrante da ANP Trans (Articulação Nacional de Psicólogues Trans). Contato: suomemvlima@gmail.com


Imagem de destaque: Suome Matheus

1 comentário em “Biologicamente Boyceta: inclusão, alargamentos identitários e (não) subversões linguísticas”

  1. Penso que o Conselho Nacional de Psicologia deveria tomar uma providências URGENTES no sentido de impedir que essas pessoas clinicassem. Usar suas pautas para tratar pacientes já é gravíssimo. E, ainda, o simples fato de que todo ser humano tem o direito de atuar sexualmente como quiser não o torna geneticamente diferente do que é. Uma coisa não tem nada a ver com outra. Todos são livres para serem o que quiserem ser socialmente e sexualmente falando, todavia, geneticamente não. E qual é o problema disso? Não há nada a ser corrigido. Há sim, alguns casos de transgêneros mas, no geral, não há necessidade de se transformar em uma aberração genética para ser o que quiser. Tampouco há que se ensinar ou doutrinar isso, o que aliás é um absurdo. Essas pessoas não sabem o que são e para justificar querem impor um novo conceito que é tão amplo quanto vazio e inútil.

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