Transpondo a sala de aula: descobrindo propostas e tipologias de cunho turístico

Vagner Luciano de Andrade

Este texto é parte do Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “A didatização do conhecimento histórico científico: proposta de visita pedagógica às paisagens coloniais de Congonhas – MG” em realização durante o segundo semestre de 2018, no âmbito da Disciplina Estágio Supervisionado em Projetos no Ensino ofertada ao final Graduação em História – Licenciatura pelo Centro Universitário de Maringá (UNICESUMAR).

As pesquisas em andamento na área da formação pedagógica evidenciam a priorização apenas da matemática e do português, em detrimento dos demais saberes. O ensino institucionalizado precisa ir além das limitações impostas pela compartimentalização e fragmentação do saber e da prática docente. A transmissão fragmentada de saberes é uma ferramenta pretérita e ultrapassada, sendo hoje necessária a transposição e a articulação teórica com a realidade. De maneira geral, o conceito de transposição didática faz parte de um modelo geral proposto para análise e reformulação do sistema pedagógico vigente.

Para educadores que lecionam atualmente no ensino básico, essa articulação é mais que necessária, é emergencial. Assim, esta articulação não é mais exclusividade do fazer pedagógico de coordenadores pedagógicos e se consolida como desafio a todos os educadores, independentemente da formação docente e da disciplina científica que se habilitaram a lecionar. É nesse ambiente escolar que se dá a partida para a inovação demandando novos ambientes a serem empreendidos, apropriados e didatizados. E experiências recentes demostram que a visita pedagógica tente a preencher esta lacuna de desarticulação do saber escolar institucionalizado. A escola e a sala de aula “fechada”, materializadas no sujeito/professor, se ampliam para a sala “aberta” de aula do mundo, aprendido e empreendido pelos sujeitos/alunos em busca de descobertas e redescobertas.

Alunos percorrendo uma trilha ecológica no Parque Natural da Serra do Caraça, Cata Altas – MG
Fotografia: Vagner Luciano de Andrade (2015)

Mas as várias terminologias do turismo científico, educacional, educativo, escolar, estudantil e pedagógico soam quase como sinônimos, evidenciando a falta de uma nomenclatura específica que organize a visita pedagógica de acordo com faixas etárias e modalidades de ensino em vigor na legislação brasileira. Mais do que a definição de nomes/protocolos é necessária a articulação de objetivos formativos que formatem a visita no sentido de transpor o conhecimento aos alunos de forma concisa, coerente e prática, permitindo sintonia com sua realidade. A visita pedagógica permite a percepção, leitura, análise, interação e a interpretação de dados in loco, estabelecendo conexões significativas ao processo de ensino/aprendizagem. Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos têm nesta ferramenta pedagógica uma possibilidade única de crescimento pessoal, social e profissional, sobretudo voltada às premissas da educação contemporânea: a formação de cidadãos críticos e engajados na ordem socioambiental e cultural.

Discentes aprendendo sobre a Praça da Liberdade, em Belo Horizonte – MG
Fotografia: Vagner Luciano de Andrade (2015)

Uma vez que, a construção, articulação e a difusão de diferentes conhecimentos são pilares básicos da escola básica, técnica ou superior, o processo educativo propicia a formação de agentes socioambientais e culturais, que por sua vez se consolidam como pessoas conscientes e atuantes na sociedade em que vivem. Nesta perspectiva, o Turismo voltado à Escola é uma concepção inovadora para a reformulação imediata da prática pedagógica tradicional que privilegiava a “construção” da aprendizagem, efetuada mediante o sujeito passivo que conhece/reconhece o objeto/mundo. O conhecimento do objeto/mundo é repassado de forma ativa pela figura do professor dominador e centralizador dentro de salas de aulas. Assim, o Turismo na Escolarização tende a ser um processo mais interessante para os alunos de diferentes faixas etárias, pois permite que os mesmos descubram e desenvolvam habilidades sem ser taxados ou impostos a uma sequência de conceitos teoricamente organizados em disciplinas, presos, portanto, à sala de aula e demais metodologias ultrapassadas. Na visita pedagógica, o objeto/mundo é ampliado para múltiplas escalas e os espaços visitados superam a sala de aula enquanto fonte de transmissão do conhecimento, não se limitando a ela, transpondo-a.

Inserido em um modelo teórico mais amplo de análise das relações didático-pedagógicas, o conhecimento escolar no Turismo vem acompanhado de múltiplos sentidos, sendo necessário que os alunos reconheçam sua importância enquanto sujeitos protagonistas no tempo e no espaço de aprendizado. Assim, no âmbito da didatização ou transposição didática das diferentes disciplinas, educar é promover uma reflexão profunda que os levem a distinguir diferentes situações e realidades. Prima pela ideia de que o conhecimento não é dividido em compartimentos, como se fossem gavetas onde seriam guardados os diferentes saberes sem discernir se os mesmos servirão e terão aplicação em sua vida. É ir além da prática pedagógica tradicional, sendo preciso imediatamente romper com os currículos predominantes que vertem para uma formação limitada apenas  matemática e português. Que os ônibus se convertam em novas salas de aulas, em movimento para a construção de uma nova ordem. Que as paisagens sejam os livros didáticos da contemporaneidade. Que os alunos se sintam atores que protagonizarão a construção de uma nova sociedade.

Estudantes realizam percepção ambiental em Trilha no Parque Estadual Vale do Sumidouro, em Pedro Leopoldo – MG. Fotografia: Vagner Luciano de Andrade (2015)


Destaque: Estudantes aprendem sobre a Serra do Curral no Mirante das Mangabeiras, em Belo Horizonte – MG. Fotografia: Vagner Luciano de Andrade (2015)

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