Religião e combate à desigualdade social na Amazônia

Patrícia Soares Lucena1

Leni Rodrigues Coelho2

Joaquim de Lange nasceu em 1906, na Holanda e, mais tarde, se preparou para a vida religiosa. Foi ordenado sacerdote no ano de 1933 e, em 1934, enviado a Angola para trabalhar por 12 anos na Vila Ponte, com os negros Bantus. Em 1946, foi nomeado Prefeito Apostólico da Prelazia de Tefé, substituindo Monsenhor Miguel Alfredo Barrat. Em 1952, recebeu a nomeação de Bispo Prelado de Tefé. O seu lema era: “Prepara um caminho seguro”.

Dom Joaquim tinha formação em filosofia e em teologia e pertencia à Congregação do Espírito Santo e do Sagrado Coração de Maria, os chamados “espiritanos”. Esta corrente religiosa tinha como proposição a integração dos povos e o combate à desigualdade social, ou seja, fazia oposição a pobreza e buscava promover o desenvolvimento humano, social e comunitário das populações carentes. Dentre suas lutas, buscava defender os povos indígenas e africanos do processo de submissão e opressão, tendo como desejo a congregação e a libertação integral das pessoas. 

O Bispo atuou não apenas no campo religioso e, desse modo, transitou em diferentes áreas do conhecimento a fim de mudar a mentalidade da população ribeirinha que vivia destituída dos direitos fundamentais, como o acesso à educação, a saúde, a moradia, o saneamento básico, entre outros. A população ribeirinha entre as décadas de 1950 e 1980 vivia de forma isolada, pois a região era e, em certa medida continua sendo, vasta por águas e florestas e, o acesso a outras localidades ocorre na maioria das vezes, por via fluvial. Neste contexto, a população pobre e sem escolaridade sofria com a exploração dos patrões que os utilizavam como mão de obra barata para recolher os produtos naturais da floresta, para a prática da pesca e para a caça de diferentes animais silvestres.

Ao assumir a Prelazia de Tefé, Dom Joaquim de Lange, sabia dos desafios a serem enfrentados, principalmente nos âmbitos da educação, da saúde, da cultura, da comunicação e do transporte e, por isso, começou a pensar em estratégias para conduzir as ações da Igreja Católica na Amazônia. Ao longo de quatro décadas, se envolveu em diferentes ações: criação de hospitais e de uma rede de paróquias nos arredores da Prelazia de Tefé e em cada paróquia, criou uma Igreja, uma escola e um clube de mães, dando início a construção de comunidades organizadas (PESSOA, 2005).

Desde a sua chegada em Tefé buscou acompanhar as discussões realizadas dentro e fora da Igreja, em âmbito nacional e internacional, participando inclusive, do Concílio Ecumênico Vaticano II, evento considerado um marco histórico para a ala progressista da Igreja Católica. Ele se fez presente em todas as sessões do evento, foi um dos bispos que representou a Igreja Católica da Amazônia, em Roma. Esteve presente também na II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín, na Colômbia, realizada em 1968, em que foi reunido os bispos para discutirem a realidade dos países subdesenvolvidos da América Latina, à luz do Concílio, bem como, o Encontro dos Bispos da Amazônia em Santarém/PA, em 1972, evento este, em que os bispos se reuniram com o objetivo de discutir as questões que afligiam a Amazônia.

Estes encontros deram base para que Dom Joaquim, buscasse parceria com outras instituições públicas e privadas, a fim de desenvolver ações, principalmente nas áreas da educação e da saúde. Como exemplo do empenho desse religioso, podemos citar a criação do Movimento de Educação de Base (MEB) que tinha o objetivo de combater o analfabetismo e conscientizar as populações das áreas subdesenvolvidas do país. Além deste movimento, eram desenvolvidos cursos profissionalizantes via rádio para qualificação de mão de obra. Ele criou o Hospital São Miguel, firmou parceria com instituições como a Associação de Crédito e Assistência Rural do Amazonas (ACAR), com o Sindicato dos trabalhadores Rurais, com o Projeto Rondon, com o campus da Universidade Federal de Juiz de Fora e com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e, tais parcerias visava o acesso e a integração dos povos ribeirinhos aos direitos básicos dos cidadãos. Para estas ações contava com recursos do governo federal e de organizações internacionais como a Organização Católica de Ajuda e Socorro de Desenvolvimento (CORDAID) da Holanda e a Organização dos Bispos Católicos Alemães para a Cooperação e para o Desenvolvimento (MISERIOR) da Alemanha. Dom Joaquim de Lange permaneceu em Tefé por quarenta e três anos e, ao longo deste período, seu trabalho foi além da evangelização, uma vez que se envolveu em ações sociais, políticas e educacionais. Demonstrando histórias e trajetórias marcadas a partir de diferentes processos de formação no estado do Amazonas.

 

Para saber mais: 

SCHAEKEN, Raimunda Gil; QUEIROZ Raimundo Claudemir Bezerra de (Org). As obras e os desafios de Dom Joaquim de Lange. Manaus: Editoração Eletrônica, 2017.

 

1 – Acadêmica do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Amazonas e bolsista de Iniciação Científica pela agência de fomento FAPEAM. E-mail: psl.ped17@uea.edu.br

2 – Professora da Universidade do Estado do Amazonas e orientadora da bolsista. E-mail: lenicoelho@yahoo.com.br

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