Quando o seu objeto de pesquisa morre

Leide Mara Cota*

 

Não sei vocês, mas, quando morre alguém querido, primeiro fico sem reação. Depois vem a dor.

Não é muito diferente meu sentimento com a notícia da morte da Rádio Inconfidência /AM. Mas talvez já devesse saber: É uma morte anunciada.

A política implementada no novo (velho) governo em Minas (e também no Brasil) faz parte de um projeto de enfraquecimento e de desmanche da educação e da cultura. Claro! Um povo educado e culto não permite as barbaridades de seus governos. A extinção da Rádio Inconfidência é apenas mais uma etapa desse projeto.

A minha indignação, portanto, se deve, não só por isso, mas principalmente pelo fato de a Inconfidência ter sido meu objeto de pesquisa na pós-graduação e pelas possibilidades de novas investigações. O meu objetivo foi estudar a proposta educativa da emissora nos seus primeiros anos de atividade. Tive como intenção descobrir de que maneira a nossa Rádio contribuía, por meio da educação, para o projeto de formação de uma identidade nacional, tão caro para a política nacional no contexto dos anos 1930 e 1940. Os resultados obtidos mostram um variado quadro educativo da emissora, o que confirmava a sua vocação anunciada em sua criação. Nela, havia programas musicais educativos, de ginástica, além de programas infantis com a participação das escolas de Belo Horizonte.

Diferentes sujeitos da sociedade ganharam (e ainda ganham) voz nos microfones da emissora. Eram crianças, professores, intelectuais e, claro, um sem número de artistas mineiros que viam no rádio, o principal meio de comunicação da época, a possibilidade de se tornarem reconhecidos nas Minas e no Brasil afora. A Inconfidência desde seu início procurou promover a nossa identidade mineira, estabelecendo, portanto, laços com a nossa identidade nacional. As representações de nosso extenso quadro cultural estavam estampados em sua programação. Não por acaso artistas como Linda Batista, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, reconhecidos na música nacional, deram o ar da graça na emissora oficial. Há 40 anos, portanto, criou-se a Brasileiríssima, faixa destinada a promover a arte e a cultura musical brasileira, enfatizando o seu propósito de valorização da cultura nacional.

Para além de todas essas informações que pude organizar ainda me permito pensar sobre a questão da memória da emissora, ou melhor, de seu esquecimento por parte dos governos anteriores e que, culmina agora com o anúncio de extinção. Essa questão ficou mais evidente no momento de levantamento de fontes, em que a ausência de materiais produzidos em suas atividades cotidianas na época faz com que ainda permaneçam lacunas insuperáveis nos estudos sobre o rádio.

O descaso com a preservação da memória de nosso povo e aqui, em especial, da Rádio Inconfidência, é sintoma de uma sociedade que tende a perder seu sentido e significado. Em um país em que barragens são (cor)rompidas, pontes caem e museus pegam fogo, não é de se admirar que uma emissora de rádio criada há mais de 80 anos seja fechada por mero projeto de destruição de um governo.


* Possui graduação em História pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e em 2016 concluiu mestrado em Educação, Conhecimento e Inclusão Social pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais com a dissertação “Rádio, educação e formação da identidade nacional: um estudo da Rádio Inconfidência de Minas Gerais (1930-1950)”.

Imagem de destaque: Movimento Fica Inconfidência

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