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Paulo Freire: por um movimento a favor de um diálogo amoroso!

Conceição Clarete Xavier Travalha

Márcio Antônio da Silva

Não podemos deixar de sentir tristeza ao assistir nas redes sociais um inescrupuloso cartaz que desrespeita a memória de um dos mais dignos brasileiros: Paulo Freire. É lamentável! Entretanto, escolhemos apresentar junto a nossa indignação, breve reflexão sobre a incalculável contribuição de Freire à educação brasileira e mundial.

No ano de 2012 o Núcleo de Estudos e Pesquisa do Pensamento Complexo – NEPPCOM  fundou a Cátedra de Estudos Paulo Freire e  desenvolve  inúmeros eventos e estudos voltados para a obra desse educador. No segundo semestre de 2013 promoveu a mesa redonda: O QUE PAULO FREIRE TEM A DIZER HOJE SOBRE EDUCAÇÃO?

Nesse evento, sob nossa coordenação, contamos com a participação dos professores: Ferdinand Rhör (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), Walter Ude (UFMG) e o militante de Movimentos Sociais e doutorando Frei Giovander (UFMG).

O público era formado por estudantes de graduação de variados cursos, professores,  pós graduandos e profissionais de outras áreas de conhecimento.

Inicialmente assistimos a um vídeo: “Última entrevista de Paulo Freire”( 1997), onde também se apresentou fragmentos de sua trajetória: Paulo Freire nasceu em 1921 e faleceu em 1997. Pernambucano, o professor nos apresenta em sua obra, todo um construto teórico prático, ou seja, uma Filosofia de Ensino voltada para a educação do oprimido, ou seja, da classe que sofre as mazelas geradas pelas injustiças sociais.

Exilado do Brasil pela ditadura civil – militar de 1964, Freire construiu Projetos Educacionais em vários países do mundo, desde os latino-americanos como Bolívia e Chile, passando pelos Estados Unidos, Portugal, Espanha, Suécia e África. Ele é segundo sua viúva Nita Freire o segundo brasileiro a receber maior número de títulos de Professor “Honoris Causa” pelas universidades de todo mundo.

Sua grande contribuição está associada à Educação Libertadora, onde se busca ouvir e dialogar com os sujeitos que poderão, através da dialogia, escrever sua própria história: os oprimidos situados injustamente numa sociedade com desigual distribuição de renda.

Assim, esse evento, ao buscar atualidade do pensamento freiriano, questionava o que Paulo Freire teria a dizer diante das inúmeras políticas educacionais desenvolvidas em nosso País como os Projetos voltados para o Ensino Médio no estado de Minas Gerais, a Escola Integral no âmbito da rede municipal, o fortalecimento do Ensino Técnico através do Pronatec, o  conteudismo exacerbado presente na rede particular de ensino,  além de projetos que propõem testes que “avaliam” estudantes e professores ou ainda, diante das lutas e manifestações populares.

Para Frei Giovander,  ele certamente estaria na militância ao lado do oprimido, o que o tornaria estaria ainda mais convicto de suas ideias e de seus propósitos. Ele estaria de forma mais intensa encaminhando  as reflexões em grupos, nas comunidades:

1) Paulo Freire encorajaria os pobres a abandonarem a mudez e terem coragem de usar palavra, o que é enorme conquista. Falar e se fazer ouvir é parte do caminho da libertação.

2) Ele refletiria com eles sobre suas vidas. Ele lhes diria que ninguém se liberta sozinho, estimularia as Lutas Coletivas, levando em consideração a mediatização do mundo sobre o homem e o homem como ser que se forma dentro desse mundo. Juntos buscariam vencer as barreiras.

3) Paulo Freire lutaria por justiça e não por caridade. Dois grupos se podem distinguir nos trabalhos junto aos oprimidos: um que se caracteriza pelo assistencialismo e que mantém o oprimido na condição de oprimido e outro que fortalece a união dos oprimidos por conquistas para terem voz. Paulo Freire estaria certamente no segundo grupo.

4) Estimularia a luta organizada e não amadora. Luta organizada, com princípios, com reflexão, com decisões coletivas. Luta como resultado da fala de quem sofre e quer sair desse sofrimento. Luta como forma de valorizar o coletivo e não o individualismo ou a competição apregoada por um sistema baseado na exploração do homem.

5) Paulo Freire fundaria a Universidade Popular. Diferenciada da universidade acadêmica, seria a universidade  direcionada para o povo. Universidade próxima de quem a faz, consolidada na educação horizontal, crítica e voltada para a transformação.

6) Diria que os currículos escolares deveriam estar sintonizados com a realidade. Uma escola se constrói a partir da vivencia dos alunos e dos professores. Conteúdos programáticos com qual finalidade? Qualidade de quem e para quem? Escola para a cidadania ou o academicismo?

7) Levaria todas as discussões, manifestações e sonhos para as salas de aula. Educar é um ato político. A escola é lugar privilegiado para se fazer política. Política no sentido epistemológico, antropológico, ontológico. Política de coletividade.

O Professor Walter Ude reiterou as palavras de Frei Giovander e iniciou sua fala apresentando a situação carcerária na grande Belo Horizonte, a qual faz parte da pesquisa que vem desenvolvendo. Citou que 93% dos presos são do sexo masculino, e que 70% deles são negros e 60% são semianalfabetos. Daí, a necessidade de um olhar voltado para uma educação que tenha novos paradigmas. Paulo Freire propõe a reconstrução da escola, integrada com a comunidade, preocupada com a formação do indivíduo no coletivo e a construção de sua liberdade tendo como principal alvo o processo de transformação.

Da mesma forma que o primeiro proponente os professores Ude e Rhör mostraram sua preocupação com aqueles que ainda estão “mudos” e como os sistemas os tornam mais “mudos”. Enfatizou-se, numa perspectiva freiriana, a necessidade de mudança nos campos educacionais tanto no ensino superior quanto na educação básica, marcada pela exclusão, dentro de uma sociedade que gera e condena aqueles a quem negou o direito de ser.

Concluindo, acreditamos que Paulo Freire faria o que sempre fez: ouviria e proporia um diálogo fecundo. Escutaria os estudantes, suas demandas, seus anseios, suas angústias e também aos professores, buscando filiar-se a suas lutas com muito amor.

 Ele investiria numa Pedagogia dos Explorados e das Exploradas, buscando sempre o diálogo e a sintonia na construção de seres que criticam/refletem/agem com o objetivo de  se tornarem a cada vez mais humanos, mais amorosos pela humanidade…

Paulo Freire certamente estaria na fileira das lutas daqueles que de forma honesta e sincera buscam uma transformação na sociedade que a torne mais justa,  não entre aqueles que apenas estão ocupados em espalhar gritos carregados de  ódio e revanchismo pela perda de privilégios…

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