Potencial pedagógico das paisagens culturais e naturais: O distrito de morro vermelho, município de Caeté – MG.

Vagner Luciano de Andrade 

A descaracterização dos patrimônios e paisagens, sejam culturais ou naturais, é uma das premissas da docência contemporânea. As discussões integradas entre História, Memória e Patrimônio no âmbito do turismo pedagógico, evidenciam a importância dos casarios a partir de casos de descaracterização e ampliação dos tecidos urbanos de povoados coloniais nas mais diferentes localidades de Minas Gerais. O trabalho de campo tema desta discussão objetiva pedagogicamente incentivar à pesquisa sobre o distrito de Morro Vermelho (Figura 1), situado ao sul do município de Caeté, aos pés da Serra do Gandarela, em área de importante parque nacional. O distrito destinou-se como um marco da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, “uma Capitania do Estado do Brasil criada em 1709 e desfeita em 1720”, conforme histórico descrito por Mariana Barcelos no Atlas Digital da América Lusa:

Criada em 1709, a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro se dissolveu em 1720 porque o Estado Português, com o objetivo de facilitar a administração dos territórios, determinou a formação da Capitania de São Paulo e da Capitania das Minas Gerais. Antes de a capitania ser formada, a região era subordinada administrativamente ao Rio de Janeiro e fazia parte da Repartição Sul do Estado do Brasil. Por ser uma área de ocupação recente no início dos setecentos os contemporâneos se referiam à região de diversas formas, tais como: minas de Ouro Preto, minas do Ribeirão do Carmo, minas gerais do nascente e do Poente do Rio das Velhas. Todavia, a denominação Minas Gerais prevaleceu no vocabulário coevo com o passar do tempo. A área abarcada pela capitania foi originada a partir de processos distintos de colonização. A região paulista fazia parte da capitania de São Vicente, uma das primeiras capitanias no início da colonização da América portuguesa. Já a região das minas começou a ser explorada intensamente a partir do final do século XVII com a descoberta oficial das jazidas de ouro.

Na Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, foram criadas oito vilas: Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo (Mariana), Vila Rica (Ouro Preto) e Vila Real do Sabará, no ano de 1711, a Vila de São João Del-Rei, em 1713, a Vila Nova da Rainha do Caeté e a Vila do Príncipe (Serro), ambas em 1714, a Vila de Piedade do Pitangui, em 1715 e a Vila de São José del-Rei (Tiradentes), no ano de 1718. Estas vilas fazem parte hoje das cidades coloniais mineiras com inigualável valor histórico-cultural e muito utilizadas enquanto recortes pedagógicos. Os Governadores da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro foram respectivamente: Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho – 1709, Dom Braz Baltazar da Silveira – 1713 e Dom Pedro de Almeida – 1717. 

A localidade de Morro Vermelho foi palco, entre 1708 e 1709, da primeira batalha entre mineradores auríferos, num episódio conhecido como Guerra dos Emboabas que levaria a colônia portuguesa a criar a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. A região apresenta atualmente uma igreja e uma capela, casario remanescente de relevância histórico-cultural, uma elevação que dá nome ao lugar, e uma cachoeira muito conhecida, cenários que motivam a visitação pedagógica. Também há festas religiosas de expressivo caráter cultural e simbólico para apropriação didática. Ao sul do distrito passa a linha férrea da Estrada de Ferro Vitória-Minas, com trem de passageiros se dirigindo à estação de Dois Irmãos, em Barão de Cocais. O site Minas Gerais (2010) explicita que:

Morro Vermelho teve sua origem ligada ao arraial de Vira Copos, por volta de 1650, que localizava-se em uma das antigas áreas de mineração do município. Após um grande incêndio, a população resolveu se instalar em uma região próxima ao antigo arraial, onde hoje fica Morro Vermelho. O nome do distrito está relacionado ao Morro de Santa Cruz, que se destaca na paisagem. A escassez de vegetação deixava exposta a rocha de cor avermelhada, que era utilizada como referência por tropeiros do século XVIII.
Ao longo dos anos, Morro Vermelho foi palco de importantes levantes, entre eles a Guerra dos Emboabas e a revolta contra a cobrança do Quinto do Ouro. Com suas belas paisagens Vermelho Novo faz um convite à adrenalina, à contemplação, à meditação e ao descanso em contato com a natureza.  Além dos atrativos naturais, a cidade também transpira cultura e se manifesta, por exemplo, através da Corporação Musical Vermelhense.

Figura 1 – Paisagem Cultural Educativa: Morro Vermelho, ontem e hoje.
Fonte: https://www.facebook.com/Imagens-Antigas-De-Morro-Vermelho-Mg-551359575007093/

Os objetivos educacionais devem se concentrar na análise fotográfica do casario, das igrejas e demais componentes do patrimônio cultural material/imaterial, bem como aspectos do patrimônio ecológico (Figura 2), levando os alunos à percepção e reflexão. A metodologia estudantil basicamente centra-se em buscar registros bibliográficos acerca do distrito, para estudos antes do trabalho de campo. Porém, os resultados incipientes motivam a produção de materiais posteriores à visitação como jornais, murais, palestras, exposições. A necessidade escolar de buscas bibliográficas e produção de mais trabalhos sobre a localidade, vislumbra um entendimento mais completo dos processos de descaracterização do casario, e numa visita pedagógica docentes de Ciências, Geografia e História poderão mostrar aos estudantes a ampliação do tecido urbano no distrito de Morro Vermelho, incluindo a reflexão sobre os procedimentos de salvaguarda patrimonial e mecanismos de preservação da memória local. O município de Caeté- MG e seus distritos potencializam paisagens culturais e ecológicas profícuas para o Turismo estudantil sustentável, e entender pedagogicamente os aspectos de preservação do patrimônio, que remete à extinta  Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. Visitar em especial o conjunto arquitetônico de Morro Vermelho é elucidar novas perspectivas para o entendimento da História Brasileira, no âmbito da educação básica evidenciando patrimônios e paisagens legitimamente conectados à identidade, memória da nação. As conclusões que os conteúdos, em especial da disciplina de História, ainda se restrigem ao tradicional contexto do livro/professor/sala de aula, a visitação a cenários coloniais tecem novas percepções e concepções societárias. 

Figura 2 – Paisagem Natural Educativa: Cachoeira de Santo Antônio.
Fonte: https://www.minasgerais.com.br/pt/atracoes/raposos/cachoeira-de-santo-antonio-0

 

*Texto dedicado à memória de minha mãe, minha mestra maior, Nirza Coelho de Andrade (15/10/1946-29/09/2021).

 

Para saber mais

BÁRBARA, Márcia Conceição; BAHIA. Eduardo Trindade. A história local como fator de atração turística: estudo da Guerra dos Emboabas em Minas Gerais. In: IV Seminário da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo UAM – 27 a 28 de agosto de 2007.

BARCELOS, Mariana. “Capitania de São Paulo e Minas de Ouro”. In: BiblioAtlas – Biblioteca de Referências do Atlas Digital da América Lusa. 

CÂMARA MUNICIPAL DE CAETÉ. Aspectos históricos. 

FABRINO, Raphael (2020). A ampliação do conceito de Patrimônio Cultural e o caso da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, de Morro Vermelho. In Alice Duarte (ed.), Seminários DEP/FLUP vol. 1. Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras/DCTP, p.192-215. 

INSTITUTO ESTRADA REAL. Caminho Religioso da Estrada Real: Morro Vermelho.  

JORNAL O TEMPO. Morro Vermelho revive a traição da festa da Cavalhada. 

LEITE, Roberta Vasconcelos; MAHFOUD, Miguel. “A tradição faz parte do distrito, agora está fazendo parte da escola”: a articulação entre cultura popular e educação escolar na comunidade rural de Morro Vermelho. Revista @mbienteeducação, [S.l.], v. 3, n. 1, p. 52 – 74, dez. 2017. 

MAHFOUD Miguel; RIBEIRO, Simone Monteiro. Experiência Religiosa e Enraizamento Social: Festa e Devoção de Emigrados em Visita à Comunidade Rural de Origem. In: Revista Hottopos.

SAFE, Simone M. S.; FAQUINELI, Luciane Raposo.  PEREIRA COSTA, Staël de Alvarenga. O CARÁTER ÚNICO DE MORRO VERMELHO NA REGIÃO METROPOLITANA DE BELO HORIZONTE. 

SITE I PATRIMÔNIO. Caeté: Festa de Nossa Senhora do Rosário de Morro Vermelho. 

SITE MINAS GERAIS. Destinos: Morro Vermelho. 


Imagem de Destaque: Thiago Macedo/WikimediaCommons

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