Educação e Sociedade: tristes acontecimentos atuais – exclusivo

Tiago Tristão Artero

Os últimos acontecimentos em que, no Brasil (Osasco e Barueri), assistimos à chacina com dezenas de vítimas e, no campo internacional, presenciamos o menino sírio Aylan Kurdi (de 03 anos) que morreu fugindo da guerra com sua família, nos indagamos – nós, profissionais da educação, também os pais e os setores da sociedade em geral – o que pode ser feito para reverter situações de “des-humanismo” que corriqueiramente presenciamos.

Na LDB temos que a educação abrange os processos formativos, desenvolvidos na família, convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino, nas instituições de pesquisa, nas manifestações culturais, nas organizações da sociedade civil e nos movimentos sociais. Esses processos formativos, expandidos nas possibilidades citadas acima, nos levam a pensar justamente nesses ambientes que permitem a formação humana e seu desenvolvimento. A educação e os valores manifestados e transmitidos na família, no trabalho, nas escolas, na sociedade, enfim, em todas as relações do ser humano… relações mediadas por representações sociais que carregam valores significados, muitas das vezes ocultos.

Em uma análise sobre a função da educação e os problemas sociais, o “Otimismo Pedagógico”, o “Realismo Pedagógico” e o “Imobilismo Pedagógico” são visões que nos dão uma dimensão das possibilidades da educação, ou seja, daquilo que é possível fazer, tendo em vista a cultura vigente. A primeira visão (Otimismo Pedagógico), corriqueira nos discursos oficiais, não traduz o que de fato ocorre na educação. Bourdieu, por meio da sociologia e de uma análise mais crítica, nos dá a possibilidade de enfrentarmos o excesso de otimismo e encararmos a realidade, com seus reais problemas e desafios. A segunda visão (Realismo Pedagógico), em suas mais variadas vertentes, nos coloca a par do sentido da educação, para o que servirá na prática e no que irá auxiliar em relação à sociedade e suas mais diversas manifestações. A terceira visão (Imobilismo Pedagógico) nos leva a pensar nas questões que poderiam estar sendo equacionadas, mas que, por fatores diversos, são deixadas de lado – podemos citar a inclusão na educação, a gestão de instituições educacionais, a formação dada nos cursos superiores, bem como a formação continuada dos professore da educação básica, entre outras necessidades.

Podemos ainda pensar na escola como aparelho ideológico do estado (AIE, como nos traz Althusser), onde, para manter as relações sociais e de produção, reproduz na escola essa visão. É o savoir faire (conhecimentos práticos) necessário ao trabalho. Esse “aparelho ideológico” se manifesta não somente na escola. Objetiva manter o status quo jurídico, da religião, dos sindicatos, da cultura, da família, e das informações. Até quando interesses escusos ao bem estar social – ao desenvolvimento de uma nação em conhecimento e em suas necessidades básicas – se sobrepujarão à vida humana?

Transformar o egoísmo em altruísmo, visando mudanças que beneficiem a sociedade é uma das funções da educação, segundo Durkheim. Observando os tristes acontecimentos atuais, imagino que, realmente, elaborar mecanismos que tratem da questão coletiva como prioridade (não como consequência) seja um dos pilares da educação. Se assim fosse, um ser humano não tiraria a vida de outro, nem mesmo obrigaria tantas famílias a saírem de suas residências. E para aqueles que argumentarem que o egoísmo humano e a violência existem desde os primórdios da humanidade, cabe a nós superarmos essa cultura atroz.

A ruptura em relação à experiência pouco elaborada (ao senso comum), rumo às novas possibilidades que o conhecimento estruturado e a ação docente proporcionarão, dar-se-á por meio da educação, como enfatiza Saviani e Libâneo. A história está aí para tomarmos contato com os problemas ocorridos em gerações anteriores e “corrigirmos” nossas ações/organizações.

Até que ponto o “desempenho máximo”, a “produção máxima”, a “competição exagerada”, o “consumo e a venda a todo custo” serão motores propulsores de nossa sociedade? Até quando os programas assistencialistas, os impostos que imobilizam e os problemas cristalizados na política e na cultura trarão retrocessos às nossas mais variadas instituições?

São vidas ceifadas em decorrência de interesses e estruturas alheios às necessidades humanas. A educação tem papel nesse contexto! As pedagogias críticas – não aquela que possui a vertente de curvar a vara para o outro extremo, mas as que buscam melhorar o sistema atual – proporcionam importantes reflexões. O extremismo na educação, na religião, na política e na organização estatal ceifam gerações em busca da concretização de estratégias egoístas.

Desenvolver a moral e o intelecto são preceitos importantes da atividade educativa. Não estou defendendo aqui o ensino tradicional que preconiza estes elementos, mas sim a base em que um olhar e uma pedagogia crítica proporcionarão para encontrarmos soluções nos mais diversos campos (profissional, educacional, político, sociológico, religioso, etc).

Triste, em meio a tantos acontecimentos que encarnam a face mais egoísta da raça humana, encerro esta pauta buscando o otimismo nas palavras de Libâneo. Ele nos orienta que “a educação libertadora questiona concretamente a realidade das relações do homem com a natureza e com os outros homens, visando uma transformação”.

Ainda para encerrar, deixo a reflexão aos(às) educadores(as):

“Nossa prática educativa permite a libertação por meio da transformação das nossas relações com a humanidade e com a natureza?”

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