A EJA e futuro do pretérito esquecido

Ramuth Marinho

 

APESAR DE TUDO, O IMPOSSÍVEL

 

Apesar de tudo o que querem, apesar

de tudo já ter sido dito, é preciso dizer

que tudo ainda está por se dizer,

que estou aqui, mais uma vez, para dizer

que ainda resta dizer o que quer que possa

ser dito, que ainda resta o que dizer, (…)

Alberto Pucheu

 

Em períodos pré-pandêmicos, nesta altura do ano (início de novembro), era facilmente observável na grande maioria das turmas de EJA urbana um processo de esvaziamento das turmas, com a intensificação dos processos de afastamentos temporários dos/as estudantes dessa modalidade.

Fenômeno de múltiplas dimensões – tais quais o esgotamento físico e mental dos/as estudantes que mormente se submetem a tripla jornada de atividades (trabalho/cuidados domésticos/escola); oferta de vagas de empregos formais, ainda que temporárias, em função da proximidade com as festas de final de ano; maiores possibilidades de ganhos com atividades informais, dada a circulação maior de dinheiro na economia; recrudescimento de doenças típicas do verão brasileiro (e nesse aspecto não podemos deixar de destacar a batalha inglória contra a dengue/chikungunya) – há muito preocupa os coletivos, grupos e profissionais da educação que militam na EJA, ainda mais porque também não é raro observar o “fechamento” de turmas nesse ou no próximo semestre letivo por parte das gestões públicas, calcado no argumento simplificado (e falacioso) da inexistência de demandas para a modalidade…

Com a pandemia e o enfrentamento bastante difuso – e por vezes, caótico – de suas consequências na educação, saúde, economia, políticas urbanas etc. esse “retrato” do fenômeno social, injusta e equivocadamente caracterizado como “evasão na EJA”, tomou contornos mais complexos e tortuosos. Ensino remoto emergencial, ensino híbrido, retorno ao modelo presencial obrigatório, contabilização virtual das presenças dos/as estudantes, ensino apostilado, progressão automática ou retenção automática daqueles/as que não conseguiram acompanhar as atividades remotas e outros conceitos e termos passaram a compor a “gramática da urgência escolar” na Educação de Jovens e Adultos.

Ainda assim, por mais difícil que seja essa discussão, ela não deveria ser mais protelada: é necessário discutir as temporalidades ESPECÍFICAS da oferta educativa da EJA! A maioria esmagadora dessa oferta formal em EJA, está (e sempre esteve) a reboque da oferta educativa destinada a crianças e adolescentes.

Se uma das marcas constitutivas mais forte e evidentes da EJA no Brasil – pelo menos, a EJA urbana – é sua DIVERSIDADE de sujeitos, histórias, potencialidades e desafios, não é nada auspicioso e inclusivo continuarmos a estruturar nossas ofertas formais de EJA, sem flexibilizarmos tempos (e CALENDÁRIOS), espaços, metodologias e práticas educativas.  E esse debate não deve se restringir somente ao legislativo ou aos gestores públicos municipais e estaduais: sem querer assumir uma posição de megalomania, acredito firmemente que esse é um assunto que deve ser pautado de forma constante, permanente em cada proposta de EJA que se efetiva em nossas cidades.

 

Enquanto educadores/as comprometidos/as com o desenvolvimento da EJA em nosso município, estado e país, não podemos compactuar com processos excludentes, tais quais desconsiderar (em uma situação hipotética, mas facilmente encontrada em nossas unidades escolares de EJA) a rica trajetória de certo/a estudante em uma proposta de EJA, por este/a ter que se afastar antes do término oficial do calendário escola. Da mesma forma – e aqui estou ciente que entro em um terreno minado e controverso– as férias e recessos coletivos (merecidos) dos/as educadores/as de EJA não deveriam DETERMINAR os limites temporais de oferta educativa em EJA, PARA TODOS/AS casos e particularidades. 

A recusa em se realizar esse debate – pelo menos entre os/as educadores/as que atuam nessa modalidade, a já quase atávica resistência dos/as gestores/as públicos em propor e acolher proposições mais horizontais e não tão padronizadas – pode solapar e enfraquecer o argumento central daqueles/as lutadores/as em defesa da EJA que é EFETIVAÇÃO do direito constitucional à educação básica reconhecendo e acolhendo a DIFERENÇA, a diversidade.

 

1 – Professor da Rede Municipal de Educação de BH.  Membro do Comitê Mineiro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação; do Fórum Metropolitano de EJA e do Fórum Estadual Permanente de Educação de Minas Gerais – FEPEMG.


Imagem de destaque: Laura Monteiro

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *