POR QUE CALAR OS PROFESSORES?

Por Luciano Mendes de Faria Filho

Observa-se nos últimos tempos um grande investimento dos grupos conservadores em apresentar, apoiar e fazer aprovar legislações que visam restringir a ação dos professores na sala de aula. As diversas “leis da mordaça”, como têm sido chamadas essas legislações, resultam desse investimento e têm o patrocínio de movimentos e partidos políticos, como aqueles que se articulam em torno da chamada “escola sem partido”.

Como já se escreveu aqui, é um engodo supor que existe escola sem política ou que o professor está sendo calado por fazer proselitismo político na sala de aula. O problema tanto tem uma dimensão político-social mais ampla quanto guarda relação com os acontecimentos políticos mais recentes. Mas também não deixa de ser revelador dos sentimentos que afloram nos sujeitos em uma sociedade que, cada vez mais intensivamente, compartilha o cuidado e a educação das novas gerações com a escola pública.

Data do final do século XVIII, primeiro em Portugal e, depois, em vários outros países, a ideia de que o professor deveria ser um agende do público estatal, estabelecendo, assim, uma relação direta entre as ações do Estado Nacional na gestão da população e ação educativa dos professores no mundo do da escola. Não por acaso, tal perspectiva vai se expandir ao longo do século XIX, quando a ideia de que o professor seria um “soldado da pátria” foi compartilhada por intelectuais e dirigentes políticos de um número expressivo de países.

Como soldado da pátria, o professor teria como função defender o Estado e o status quo dos inimigos internos, homogeneizando a população nacional e nacionalizando os estrangeiros, preparando-os, também, para a defesa da pátria contra os inimigos externos. Em alguns países, como a França, entre os inimigos internos do Estado Republicano estavam, sobretudo no final do século XIX, não apenas as massas ignorantes, mas também instituições antirrepublicanas como a igreja católica.

No Brasil, no entanto, muito pouco se pode falar dos professores como “soldados da pátria”, o que não quer dizer que tentativas não tenham sido feitas para mobilizá-los contra as populações mais pobres. Em nossa cultura política muito pouco republicana, a igreja jamais deixou de ter ascendência sobre e Estado e, muito menos, sobre a formação e atuação dos professores. Ademais, a precariedade e a escassez de nossas escolas públicas espalhadas pelo território nacional foram fatores dos mais limitadores de sua ação na configuração de uma educação política republicana e mais igualitária.

No  Brasil, o  normal, ao longo dos séculos XIX e XX, foi que a igreja católica estivesse à frente de instituições de formação de professores – professoras, sobretudo! –, constituindo-se numa fonte inesgotável de códigos de ação e de conduta de nosso professorado. Era a instituição mais influente, inclusive, na organização profissional docente em todo o país.

Essa situação começou a mudar, no entanto, no final da década de 1970 com a crescente organização sindical e política dos professores públicos. Foi no bojo desse movimento que, pela primeira vez, de forma contundente, foram colocados em questão valores e códigos de ação e de conduta oriundos da matriz cristã e católica que atuava formação e atuação, inclusive associativa, dos professores. Foi esse o momento, por exemplo, do estabelecimento da máxima de que “o magistério não é uma vocação, é uma profissão”.

Mais do que de sua ação pedagógica no cotidiano escolar, é do fortalecimento do movimento sindical dos professores que resulta a sua importância política no espaço público. Talvez seja dessa presença política, potencializada pela própria reunião cotidiana dos professores no espaço escolar e pela capilaridade da escola no território nacional, que se tenha medo neste momento. Não parece ser por acaso que tais movimentos de fazer calar aos professores se fortaleçam justamente após uma eleição na qual Aécio Neves perdeu em seu próprio estado de origem, em que seu partido estava no governo já 12 anos, justamente pela mobilização ostensiva dos professores contra a forma como o PSDB lida com a educação e com as políticas públicas dirigidas à população mais pobre.

Mas não me parece, ainda, que isso seja tudo. Tenho a hipótese de que, no investimento dos grupos conservadores de fazer calar os professores, está, também, a tentativa de exorcizar  a culpa, o medo e o ressentimento de muitas dessas famílias, de muitos desses adultos, de ter que compartilhar o cuidado e a educação justamente com os professores, profissionais que tais grupos não têm em alta consideração. Num país em que o magistério é uma ótima e necessária profissão para as ”filhas dos outros”, não é de se estranhar essa espécie de  “retorno recalcado” na forma de medo e ressentimento em relação aos professores. Afinal, como justificar que eu, que tanto valorizo a família e a vida privada, possa deixar meus filhos sob o cuidado e a educação de profissionais que considero tão despreparados?

Ou seja, a tentativa de fazer calar os professores parece ser também uma espécie de (com)pulsão de uma sociedade que teima em não enfrentar os seus próprios conflitos e enxergar as suas próprias entranhas: se as famílias e as igrejas que nos formaram até aqui fossem tão maravilhosas quanto os grupos alardeiam, estaríamos mesmo na situação em que estamos hoje? Ou o passado que se quer reestabelecer é, objetivamente, aquele do racismo, do machismo, da violência contra as crianças e as mulheres, do engodo político? Se não, porque calar justamente os professores, aqueles que lutam para que este passado não permaneça no presente?  Ou o professor(a) que se imagina fazer calar é apenas aquele(a) que educa o(a) “filho(a) dos outros”?

Amordaçar os professores é, sem dúvida, uma ponte para o nosso mais obscuro passado e pode ser uma forma de criar certo conforto em relação às culpas, medos e ressentimentos vividos pelos seguimentos que a defendem. No entanto, talvez os seus defensores não imaginem que eles também podem gostar não do que vão encontrar na outra margem do rio ou quando acordarem do intranquilo sono dos injustos!

This Post Has One Comment
  1. Se essa regra passar a valer, será que não cabe a nós, professores, nos perguntarmos se o discurso de uma dita “esquerda” não pode estar dando um tiro no pé ao exagerar certas manifestações apenas teoricamente inclusivas?

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