Unificação imperfeita: Alemanha. E algo sobre a Universidade

Alexandre Fernandez Vaz

A imprensa alemã divulgou em dezembro do ano passado uma declaração da titular do Ministério da Educação e Pesquisa do país, Johanna Wanka, dando conta de que um terço dos calouros em universidades das Neue Bundesländer (novos estados federativos) seriam originários da porção Oeste do país. Wanka pertence à União Democrática Cristã (CDU), principal partido da coalizão que governa atualmente a Alemanha, sob a liderança de Angela Merkel. Já não há mais tanto desequilíbrio nos números, diferentemente de dez anos atrás, quando apenas a sexta parte dos ingressantes no ensino universitário no Leste vinha do lado ocidental. Segundo se pôde ler nos jornais, também diminuiu o percentual daqueles vindos do Leste do país para universidades do Oeste, embora o número total de estudantes venha crescendo, contrariamente a uma tendência que há pouco dominava o cenário.

Pertence à tradição universitária alemã deslocar-se para estudar em uma cidade diferente daquela onde se frequentou o ensino médio, mais ou menos distante do núcleo familiar original. Trata-se de uma demarcação de maioridade, quando a autonomia passa a ser exercida com mais vigor, não sendo incomum que estudantes se mantenham na Universidade exercendo diferentes funções, muitas delas bastante subalternas e informais, no mercado de trabalho.

Posto abaixo repentinamente em novembro de 1989 o Muro que dividia a cidade de Berlim e que representava a cisão de toda a Alemanha, bem como do mundo em países alinhados aos Estados Unidos da América, reunidos na Aliança do Atlântico Norte, de um lado, e os sob influência da União das Repúblicas Socialistas Soviética, juntos no Pacto de Varsóvia, do outro, uma nova ordem mundial ganhou lugar. Desbaratado o império soviético, desencadeou-se na Alemanha sem muro um rápido processo de reorganização, retornando à cena uma única nação, então separada por quarenta anos.

Na prática, não foram dois países que se tornaram um há pouco mais de vinte e cinco anos, embora a expressão Wiedervereinigung (reunificação) seja constantemente e de forma oficial empregada. Na prática, a República Federal da Alemanha (RFA, “Ocidental”) seguiu existindo desde sua criação, em 1949, como reação ao surgimento da República Democrática Alemã (RDA, “Oriental”), no ano anterior. Ambas nações foram estados com autonomia relativa, tutelados pelos países aliados, os vencedores da Segunda Guerra. Foram, portanto, palcos da Guerra Fria. Com seu famoso muro relegado à souvenir, a Alemanha se tornou um dos símbolos da nova ordem mundial que passamos a viver desde então, cujas expressões são, entre outras, a predominância ainda mais maciça do poder estadunidense, as incertezas russas, a ascensão econômica do Extremo Oriente, a expansão violenta do sistema financeiro mundial e a renovação do terrorismo sob novas faces.

A RDA foi extinta e, na prática, anexada à RFA, daí então a expressão novos estados federativos. A “reunificação” fez com que fosse diminuindo a presença de tropas de ocupação em ambos os países, processo que apenas em 1995 foi concluído, quando soldados russos realizaram sua última marcha na Unter den Linden, avenida central de Berlim, tradicional palco de passeatas e desfiles, com destaque para o período nacional-socialista.

A crescente presença de estudantes da porção Oeste em universidades do Leste é algo em si mesmo socialmente importante. Trata-se de uma face positiva em meio ao processo de apagamento das diferenças entre os dois lados, de desaparecimento dos traços que tanto diferenciaram duas formas de organização da vida. Evidentemente é de se louvar o fim do “socialismo que de fato existiu”, projeto esgotado e quase que desde sempre associado à dominação e mesmo ao terrorismo do estado, o que, no entanto, não significa o triunfo definitivo do capitalismo como última etapa possível da civilização ocidental. O capitalismo é uma ordem civilizacional que precisa ser superada.

Há um esforço claro de cristalizar no passado o que um dia foi a RDA. Quem anda pelas ruas de Berlim ou viaja pelo interior do país já quase não percebe as diferenças que há poucos anos eram tão marcantes. Elas se resumem, salvo exceções, a lugares monumentalizados, como pedaços do Muro – em seus lugares originais ou não –, vias públicas e praças nomeadas por próceres do socialismo que permanecem tal como nos velhos tempos (Karl Marx Alle, Rosa Luxemburg Platz etc.), torres de vigilância e postos de controle de passaportes,  assim como em pequenas marcas na Arquitetura funcional da RDA, nos sinais de trânsitos para pedestres em que a figura que aparece onde era Berlim Oriental é o Anpelmann – um bonequinho simpático que simula a caminhada em cores verde e vermelha –, na presença da fritz-kola em alguns bares, cinemas e armazéns – a versão “socialista” da Coca-Cola. Essa reificação do passado se reforça, aliás, ao tornar tudo objeto de turismo, uma das violentas pragas do nosso tempo, principalmente depois da epidemia da produção e disseminação de imagens captadas no cotidiano.

O apagamento não foi feito sem dor, tampouco se mantém sem sobras de ressentimento, manifestadas no preconceito com as regiões que pertenciam à República Democrática Alemã. A procura massiva por universidades do lado ocidental e a pequena busca por vagas da extinta RDA era apenas uma das faces desse movimento. Ost Berlin! (Berlim Leste!), grita um grupo de jovens em noites de sextas-feiras, no metrô; Ost Berlin!, bradam torcedores do time de hóquei sobre o gelo da cidade, antes chamado de SC Dynamo Berlin, hoje levando no uniforme o palatável nome de Eisbären Berlin (Ursos Polares Berlim)[1].

As universidades do Leste vão se aproximando das do Oeste. Sucedendo-se gerações de professores e professoras, já não há tantas diferenças, como tampouco se coloca mais, para todas, o que propôs um dia para a instituição universitária Alexander von Humboldt. Ainda que mais pragmática, a Universidade alemã segue, no entanto, sendo um modelo de qualidade e formação. É ótimo que os muros caiam. O problema é a redução imaginária da experiência de cisão de quatro décadas em, no máximo, acidente de percurso do triunfo da civilização.

Palencia, Espanha; Berlim-Kreuzberg, fevereiro de 2016.

[1] Sobre esta questão, ver o belo texto de Michelle Carreirão Gonçalves,Eisbären Berlin: hóquei e memória. Contemporânea (uma quase revista). n. 4, fevereiro de 2016. Chamo a atenção para o fato de que o nome Dínamo Berlin mostra a associação de esporte e progresso industrial na cultura dos países reunidos sob o imperialismo soviético.

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