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Percepção socioambiental e psicologia: enlaces curriculares

Vagner Luciano de Andrade

A sociedade vive dilemas socioambientais, dos quais a educação e a psicologia, bem como as demais ciências não poderiam se omitir: por um lado, conquistaram-se apreciáveis benefícios que melhoraram amplamente a qualidade de vida, mas por outro lado, o planeta vive uma conjuntura ecológica mundial sem antecedentes na história. Meio ambiente deteriorado, espécies animais e vegetais extintos, rios e mares contaminados.  Paisagens de desequilíbrio e desarmonia evidenciam-se no tempo e no espaço. Sendo assim, serviços ecossistêmicos essenciais estão sendo saturados. Que ações mudariam este paradigma cartesiano insustentável?

O homem é um sujeito cultural, que, se apropriando do espaço natural, ocasiona inúmeros impactos ambientais e sociais, resultando em ambientes naturais drasticamente reduzidos pela ação antrópica para aumentar a produtividade do sistema de produção capitalista urbano-industrial. A geração atual não percebe a incapacidade de absorção dos subprodutos produzidos pelo ser humano, como a recuperação de uma área vegetal desmatada ou a descontaminação de um curso d’água. Todavia, se o limite natural de depuração for desrespeitado, a natureza sucumbirá.

Nesta incumbência, a ecologia e a percepção precisam preencher as lacunas do currículo pedagógico tradicional. Surge assim um diálogo educativo e interdisciplinar entre a ecologia e a psicologia com a missão de sensibilizar, conscientizar, informar e formar cidadãos que estejam verdadeiramente comprometidos consigo mesmos, com o próximo, com a sociedade, com a vida e com o planeta. Assim, a educação semeia um mundo melhor e harmônico, onde as relações entre ser humano e natureza sejam integralmente equilibradas. Neste contexto o destaque fica com as oito inteligências múltiplas conforme proposta da teoria desenvolvida a partir da década de 1980 por uma equipe de investigadores da Universidade de Harvard, liderada pelo psicólogo Howard Gardner.

  1. Percepção corporal-cinestésica: expressão de emoções e sentimentos através do corpo: dança, esportes, mímica, trabalhos manuais e teatro.
  2. Percepção espacial: conhecimento das formas e objetos, localização geográfica, interpretação de diagramas e mapas; aptidão ou identidade com arquitetura, desenho escultura e pintura.
  3. Percepção interpessoal: compreensão dos intenções, motivações e sentimentos das outras pessoas. Capacidade para amizades, aconselhamentos, liderança, trabalho em equipes profissionais ou grupos de terapias; identidade com agremiações, associações, clubes e outras organizações comunitárias, políticas ou religiosas.
  4. Percepção intrapessoal: filosofia, autoestima e autoconhecimento dos próprios desejos, fraquezas, intenções, motivações e sentimentos.
  5. Percepção linguística: articulação das palavras, na linguagem escrita e falada, memorização de nomes, gosto pela leitura, vocabulário maior e fácil pronúncia com mais idade as palavras do que os demais colegas de classe. Identidade com redação, literatura e poesia.
  6. Percepção lógico-matemática: entendimento de cálculos, gráficos, questões aritméticas e prognósticos e facilidade com máquinas e novas tecnologias.
  7. Percepção musical: identificação de melodias, sons e volume; vocalização agradável e facilidade para tocar instrumentos musicais.
  8. Percepção naturalista: reconhecer e classificar animais, minerais e plantas. Preocupação voltada à conservação das espécies biológicas e com a ecologia global. Participação em ONGs em favor da preservação da natureza e que manifestam preocupação com o futuro do planeta.

Foto: Ejaugsburg / Pixabay

Da dualidade entre homem e natureza, duas partes inseparáveis em choque, mas complementares em sua essência evidencia-se a importância de ampliar o conceito pedagógico e a consciência interdisciplinar de ecologia (do grego oikós, que significa casa, morada, e logos: estudo, análise) para construir um novo projeto de coletividade.  Diante de inúmeras manifestações, surge a psicologia socioambiental, uma nova área do conhecimento, que propõe a repensar e resignificar os paradigmas existentes entre homem e meio ambiente. Esta se consolida como uma nova visão de mundo que analisa de forma integrada, sistêmica e holística, o ser humano, associando-o à sociedade e a natureza, como urgente resposta a fragmentação e globalização presentes no mundo moderno.

Eis então que perante dilemas e desafios da contemporaneidade, a educação e a gestão ambiental se fundem na urgente mudança de mentalidades e paradigmas societários. O resultado de suas ações é previsível: desenvolvimento econômico acima de tudo, grande degradação ambiental, demasiada injustiça social. É a ampla dilaceração e fragmentação de tudo e de todos. A valorização da natureza, somente é possível se alicerçada numa base social e cultural sólida composta por respeito, solidariedade e colaboração. Novos tempos se fazem necessários nos quais a importância da ecologia seja integralmente revista no processo de inauguração de um novo milênio, verdadeiramente comprometido com as causas humanas e ambientais. Que novos panoramas possibilitem cada um a refletir a respeito da atuação sobre os recursos naturais e sobre as relações sociais, convidando-os a atuarem como protagonistas na construção de um mundo novo. Em Minas Gerais, o maior paradigma produtivo é vinculado a uma grande commodity do mercado: o minério. A vocação minerária é proveniente desde os tempos coloniais.  O gentílico do estado é “mineiro”, como se cada um aqui nascido fosse um mineiro, um minerador por natureza. Não o somos!

O planeta Terra não se formou da noite para o dia e é o único, que se tem notícia, que acolheu a dádiva da vida, sendo, portanto, uma casa comum que dispõe de recursos para as necessidades de todos, mas não para a voracidade de alguns. Já se descobriu que o planeta tem limites, e a crise ambiental, econômica, política, social e de valores traz inúmeros efeitos, mas, no entanto, ela constitui uma excelente oportunidade de repensar, formular e construir um novo projeto de civilização que não se oponha à natureza, mas que se harmoniza a ela. Somente assim haverá desenvolvimento econômico verdadeiramente associado à preservação ambiental e à justiça social, bem como aqueles que estejam por vir recebam a dádiva preciosa da vida, e a vivam plenamente com muita qualidade, equilíbrio e harmonia.


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Imagem de destaque: Sasint / Pixabay

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