Em nome do pai, aus dem abseits: sobre Peter Brückner – exclusivo

Alexandre Fernandez Vaz

A primeira vez em que eu ouvi falar em Peter Brückner foi ao final do semestre de verão de 1998, quando estudava na Universidade de Hannover. Li no pequeno manual que era disponibilizado com as informações sobre as disciplinas do semestre seguinte, que seria oferecido um seminário sobre a obra daquele que, vim a saber, havia sido professor da Universidade entre 1967 e o início dos 1980. O seminário seria ministrado por Wolfram Stender, então professor assistente que preparava sua tese de habilitação, requisito necessário, na Alemanha, para a possível obtenção de uma cátedra.

Pouco mais de um ano antes, eu havia sido aluno de Stemder em um outro seminário que, a cada quinze dias em tardes de quarta-feira, reunia um púbico interessado para, no Instituto de Sociologia, ler e discutir os fragmentos filosóficos de Dialética do esclarecimento, o clássico livro de Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, que então completava cinquenta anos de sua primeira publicação integral. Impressionaram-me muito a inteligência e a erudição de Stemder, que acabara de publicar um brilhante livro sobre a presença de Sigmund Freud nas obras de Horkheimer e Jürgen Habermas. Ao seminário sobre Brückner, no Instituto de Psicologia Social, fui atraído muito mais pelo jovem professor do que pelo tema. Como esperava, frequentar as aulas nas noites de terça-feira foi uma experiência excelente. Conhecer algo da obra e da trajetória de Brückner foi tão fascinante quando enriquecedor, assim como ouvir o professor explicar, detalhadamente, o desenvolvimento da Psicologia Social no século vinte, seus constructos teóricos e demandas sócio-políticas. Foi um semestre de inverno dos melhores, aquele, o último que cursei regularmente em Hannover.

Realizado por Simon Brückner, estreou no DOK.fest, o Festival Internacional de Documentários de Munique, em maio deste ano, Aus dem Abseits (Vindo de fora, talvez), filme recém divulgado em circuito comercial, que não apenas apresenta muito da vida do professor de Hannover, mas, de forma especial, a busca de um filho pelos contornos e pelo conteúdo da figura paterna que mal pôde conhecer. O título do filme mimetiza o de um livro de Brückner, Das Abseits als sicherer Ort. Kindheit und Jugend zwischen 1933 und 1945 (O fora-de-lugar como lugar seguro. Infância e juventude entre 1933 e 1945, em livre tradução). É, portanto, em nome do pai que Simon realiza o filme sobre Peter, morto quando ele tinha apenas quatro anos de idade.

Peter: é assim, pelo prenome, que a ele se referem todos os depoimentos mostrados no documentário, fazendo jus ao ícone da nova esquerda estudantil dos anos 1970, com destaque para os filhos ainda vivos, Simon, do terceiro e último, e mais dois do segundo casamento de Brückner. Faz parte do ideário progressista que emerge no 68 alemão dirigir-se e referir-se a pai e mãe pelos respectivos prenomes.

Peter foi o último funcionário público na Alemanha a ser suspenso do serviço por supostamente associar-se a atividades terroristas. Isso aconteceu duas vezes, a primeira em 1972, a segunda seis anos depois, já na esteira das diversas ações perpetradas pela Rote Armee Fraktion (RAF –Fração do Exército Vermelho) no outono do ano anterior. Entre elas o sequestro do presidente da Federação de empresários da Alemanha, Hanns Martin Schleyers, e também de um avião da Lufthansa, bem como o assassinato do primeiro. Os acontecimentos do Deutscher Herbst (Outono Alemão), como ficaram conhecidos os aterradores meses de setembro e outubro de 1977, incluíram também o suicídio – ou assassinato, conforme as conflitantes versões – das principais lideranças da RAF, encarceradas e condenadas à prisão perpétua. Era notória a relação de Peter com Ulriche Meinhof, símbolo máximo da RAF junto com Andreas Baader, assim como sua pública condenação à violência. Em um depoimento à televisão mostrado no documentário, ele chega a afirmar que, sob perspectiva marxista, a brutalidade em nada ajudaria no desenvolvimento da luta de classes. Mesmo afastado da Universidade, Brückner seguiu ditando seus seminários em bares e em outros espaços privados, inclusive em casa.

Se o filme de Simon tem como fio condutor a busca por saber quem, final das contas, foi Peter – o que não o deixa, assim como ao espectador, isento de surpresas – é por meio de uma série de personagens que ele ganha corpo. Theo Becker, administrador do Arquivo Brückner, Alfred Krowoza, professor aposentado da Universidade de Hannover e principal parceiro no trabalho, amigos próximos, o editor de seus livros, os irmãos de Simon, assim como sua mãe, Barbara Sichtermann, estão entre eles. Mas quem mais chama a atenção é uma figura bastante singular da cena intelectual alemã, Manfred Lauermann.

A introdução de Manfred no documentário se dá ao ser mostrado seu nome em um cartaz de um evento em homenagem a Brückner, em meio a outros proeminentes intelectuais, como Oskar Negt. Vindo de Frankfurt em 1970, onde havia estudado sob a orientação de Theodor W. Adorno, e depois de anos trabalhando como assistente de Jürgen Habermas (em Frankfurt e em Heidelberg), Negt assumiu a cátedra de Filosofia Social em Hannover, tornando-se o precursor de um grupo que fez desenvolver nessa Universidade uma teoria crítica da sociedade durante quatro décadas, até a aposentadoria de Detlev Claussen, em 2011.

Pouco depois da aparição quase fugidia de um nome, é a própria figura de Manfred que emerge para conduzir boa parte da narrativa. Não é para menos. Foi ele um dos mais importantes parceiros de Peter nas investidas políticas e intelectuais dos anos 1970. Ao vagar com Simon pelo bairro Nordstadt (Cidade Norte), em Hannover, onde fica a Universidade e onde Peter morava, empreende uma viagem pela memória. Nela estão os elementos, talvez desgastados, mas certamente não anacrônicos, de um tempo que, entretando, parece sepultado. A começar pelo próprio Manfred, cuja corpulência envelhecida fala por si mesma. Recorrendo a poderoso arsenal analítico, sua fala é tranquila e ordenada. Rememora o espírito daqueles anos: não, ele nunca soube da vida privada de Peter, se tinha filhos ou fora casado: o que interessava era a política e a análise de seu movimento; não, Peter jamais abrigou Meinhof em seu apartamento, como um vizinho afirma ter visto, trata-se de projeção de quem, envenenado pelo bombardeio midiático, encobre a memória pela invenção de um passado.

Conheci Manfred Lauermann no início de 1998, por meio de um amigo em comum, quando ele morava em Bielefeld. A bordo de um convênio apoiado pelo DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico), ele se tornaria, meses depois, e por pouco tempo, professor da Universidade Federal de Goiás. Antes, esteve em minha casa em Hannover e novamente nos encontraríamos em Florianópolis, no ano seguinte, no intento de que fosse para lá para atuar no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas. Por razões diversas isso não foi possível, o que muito lamento porque certamente é ele uma das pessoas mais bem formadas intelectualmente que conheci. Poucos anos depois, quando terminava minha tese de doutorado, defendida em Hannover no início de 2002, Manfred, com Peter Huppertz, revisou rigorosamente todo o texto. Sou-lhe muito grato. Sem nunca ter se estabelecido como professor universitário, apesar da altíssima qualificação, Manfred permanece um intelectual atuante na cena pública alemã. Na face crítica que dela restou.

Peter Brückner, assim se pode dizer depois de assistir ao bonito documentário de seu filho Simon, sintetiza um tanto do breve século vinte, em seu miolo: o desconhecido judaísmo, o isolamento em um internato no período anterior e durante os primeiros anos da Segunda Guerra, a clandestinidade comunista durante ela, o que incluiu sabotagens diversas durante sua experiência como soldado na Áustria, as dificuldades na República Democrática Alemã, os percalços políticos nos anos 1970, a revolução dos costumes, a imaginação no (ou contra o) poder etc. Peter fez parte, naqueles anos, de uma vida universitária muito permeável ao movimento político extraparlamentar, tendo sido um pai – segundo diz sua última esposa, Barbara – para os estudantes insurgentes. Livre da suspensão do trabalho docente em 1981, já não desejava voltar para a Universidade. No verão do ano seguinte, em Nice, na França, de férias e bem-vivendo, como gostava, Peter é acometido por um infarto e, um mês antes de chegar aos sessenta anos, morre. Uma última sanção, depois de tantas, não deixou, portanto, de ser-lhe imposta: impediu-o de seguir a boa vida que sempre procurou, longe do establishment acadêmico.

Frankfurt am Main, dezembro de 2015.

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