Fotografia: Nirza Coelho De Andrade (2015)

Animais domésticos ou selvagens: uma aula de compaixão

Vagner Luciano de Andrade

Foto: Nirza Coelho de Andrade (2015)

O abandono de animais domésticos e a forma como vemos os animais silvestres é um assunto que não pode faltar na sala de aula. A crueldade contra animais é pauta pedagógica emergencial. Vemos pelas ruas da cidade inúmeros animais abandonados, em busca de afeto, abrigo e alimento. Fora a questão dos rodeios e animais presos em circos. Recordo-me com nostalgia dos tempos de criança, quando no ano de 1987 as aulas de ciências trabalhavam questões inerentes aos animais e às plantas. Era nossa imersão inicial no mundo da ecologia, com o qual tenho plena sintonia até hoje. Atualmente como educador, entendo que essas aulas devam ir muito além da simples distinção entre animais selvagens e animais domésticos, bem como diferenciações entre monocotiledôneas e dicotiledôneas. Ao se trabalhar ecologia com crianças, algo além das sementes de feijão germinadas em algodão deve ser repassado. Evidenciam-se aqui, valores como ética, cuidado e compaixão, princípios básicos da Ecologia Profunda.

Atualmente vemos cada vez mais uma ampliação da conexão de pessoas e animais. Gatos, cães, coelhos, ratinhos, cobras, pássaros estão entre os inúmeros animais de estimação que consolidam conexões afetivas em inúmeras casas, sítios e apartamentos de todo o país. Há quem seja favorável e quem seja contrário a essa questão. Muitos afirmam que os seres humanos estão se esquecendo dos seus semelhantes ao voltar-se demasiadamente aos animais. Outros defendem que seria uma redescoberta de uma conexão ancestral com a ecologia, perdida com o advento do paradigma vigente. Longe deste embate, uma coisa se efetiva: humanos, animais e plantas, todos portadores da vida em sua amplitude e plenitude devem ser alvo de atenção, cuidado e respeito, sem exceções.

Historicamente, a domesticação de animais foi indispensável ao progresso humano, juntamente com o advento da agricultura. Munidos de novas técnicas, os homens foram acumulando tempo para a apropriação artística e intelectual do mundo e redefinindo sua trajetória cultural. Parte do conjunto biológico de plantas e animais, porém, não foram domesticados, e permaneceram na condição de silvestres, sendo hoje ameaçados pelos impactos decorrentes da humanização do planeta. Atualmente, ao lado da extinção de espécies animais e vegetais decorrentes da remoção de vegetação nativa, temos maus tratos, crueldade e abandono de animais. Se, por um lado, o carro de boi, antigo símbolo de crueldade do passado, é cada vez mais raridade em passagens rurais, os carroceiros se ampliam nas cidades, alguns cometendo crimes contra cavalos e ainda depositando lixo e entulho em áreas naturais. Mas não são todos os carroceiros que agem desta forma, é claro.

Em 03/11/2017, um cãozinho foi abandonado na Rua Brasília com Avenida Pedro II, no Carlos Prates, por um “sem coração” e comerciantes acionaram a Prefeitura que o recolheu para possivelmente sacrificá-lo, devido à sua patinha quebrada. Tentamos em vão resgatá-lo. Felizmente após mobilizações nas redes sociais, o animal foi resgatado e internado para tratamento veterinário. E uma pergunta se eterniza no tempo e no espaço. “Qual o valor da vida? nenhum é a resposta. O Brasil tem 30 milhões de animais abandonados. Desse número 20 milhões são cães. Infelizmente esse número não para de crescer. Apenas 40% das pessoas adotam cães. A maioria ainda prefere comprá-los. Será que não é hora de rever este pensamento? Todo animal é especial e merecer ter uma família. Reflita. Colabore. Adote. Compartilhe essa ideia.

Fotografia: autoria desconhecida (2017)

Assim, as aulas que rementem aos animais e às plantas, devem ser aulas de Ecologia Profunda que conduzam à reflexão, conexão, no sentido de se entender e acolher a diversidade que enriquece o planeta. Que seja algo além do ato de colorir animais selvagens numa folha de atividade, deixando os domésticos sem cores. Que as cores da diversidade biológica ampliem a percepção das crianças, tornando-as seres humanos sensíveis às causas ambientais. Os animais maltratados e vitimas de atrocidades devem conduzir alunos e professores numa discussão relevante sobre o cuidado, trabalhando-se  assim o acolhimento, a ética, a compaixão.

Os alunos podem trazer para as aulas fotos dos bichinhos com os quais tem vivências afetivas no sentido de partilhar histórias com a turma. Professores podem ampliar a discussão apresentando os animais silvestres e discutindo os problemas ecológicos que eles enfrentam na contemporaneidade. Animais silvestres em áreas verdes urbanas sofrem com a degradação dos ecossistemas. É comum ainda ver saguis caminhando em fios elétricos em busca de alimentos correndo riscos de morrerem eletrocutados. No Parque das Mangabeiras, por exemplo, os quatis reviram as lixeiras, pois se acostumaram com a comida fácil dada pelos visitantes.

É preciso, também, entender que animais silvestres não podem ser alimentados, pois seus organismos não estão biologicamente adaptados ao excesso de sal e açúcar dos alimentos humanos. Alguns bichinhos ao serem alimentados por pessoas podem ir a óbito nas matas, após sofrer com a metabolização dos alimentos industriais em seus organismos. Além disso, animais que acham facilmente comida, devido à ação humana, acabam acostumando-se à suposta facilidade e abandonando seus instintos naturais de caça e procura de alimentos dentro dos ecossistemas. Assim, a predação natural necessária à regulação de populações se vê comprometida. É preciso conscientizar as pessoas sobre esta questão ambiental, quase sempre desapercebida. O amor pelos animais sejam eles domésticos ou selvagens nos une. E a educação precisa articular esta percepção juntos aos alunos inaugurando novas perspectivas.

Fotografia: Nirza Coelho de Andrade (2015)

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