A internacionalização que nos interessa – exclusivo

Luciano Mendes de Faria Filho

 

O assunto é importante, porque a internacionalização é um dos principais vetores das políticas contemporâneas de C&TI desenvolvidas no Brasil nas últimas décadas. Apesar de não ser uma experiência nova para os pesquisadores brasileiros, a intensidade e o enquadramento propostos para a internacionalização nas atuais políticas não conhecem antecedentes em nossa história acadêmico-científica.

A minha intenção é problematizar os programas de internacionalização em curso no país e apontar alguns elementos da internacionalização que pode favorecer o fortalecimento acadêmico-científico das Humanidades ou, mais especificamente, da Educação e aumentar seu impacto na produção e divulgação do conhecimento na área.

A perspectiva internacional ou global é, na maioria das vezes, a perspectiva local dos que dominam. O local é sempre polissêmico. O local é aqui onde eu me encontro; é lá onde o outro se encontra; é acolá, onde nos encontramos.O local é o espaço do encontro, mesmo que este seja um grande desencontro.

É da política que se fala quando dizemos da internacionalização que não nos interessa. Nós não queremos uma internacionalização em que nós sejamos o local dos outros enquanto o internacional é o local do colonizador (de ontem ou de hoje). Não queremos uma internacionalização quando o referente do outro nos torna eternos aprendizes e, ele, o nosso educador.Não queremos uma internacionalização em que as humanidades não têm lugar e que esqueça que o que mais interessa ao estrangeiro é o encontro e nãoo re-conhecimento matemático, físico, químico ou médico. Por isso, não queremos uma internacionalização que re-conheça um único conhecimento e uma única forma de conhecer. A internacionalização não pode ser mais uma forma de ocidentalização do mundo e de seus modos de ex-posição. Do mesmo modo, não queremos uma internacionalização que nos aliene do nosso local, nem do local do outro. Por isso, a internacionalização não pode ser um comércio.

Queremos uma internacionalização em que o encontro com o outro, no e com o local do outro, seja oportunidade de revisão do nosso local. Que seja possibilidade de estranhamento e reconhecimento, pois, como dirá Chico Buarque, “quem jamais esquece não pode reconhecer”. Mas que seja também possibilidade reconhecer o outro do nosso local. Sim, queremos uma internacionalização que seja multicêntrica ou, se preferirmos, multilocal. Nossa internacionalização tem que aspirar fortalecer os saberes e as epistemologias locais (e não a sua destruição). Uma internacionalização assim será inovadora, mas virá de mãos dadas com a tradição. O viajante aprende com o outro, aprende do outro, apreende o outro. Mas também desloca os sentidos, costura e sutura para produzir outros sentidos. Inova, renova.

A tradição que queremos, atualiza o melhor da tradição crítica das ciências humanas e sociais. E o que funda as humanidades é o encontro (e os desencontros) com o outro. Por isso, a vocação internacionalista está no coração das humanidades. O encontro com o outro local ou com o local do outro é parte fundamental da política fundada no espaço público e na alteridade, mas também das políticas públicas de reconhecimento de direitos, de invenção de direitos e, logo, da própria alteridade e do espaço público.

Por isso, sem as humanidades, não há política de internacionalização que se sustente, a não ser aquela que queira nos alienar no e do local do outro. Mas, o desejo que nos empurra nessa direção não é o mesmo que nos mobiliza para nos alienar dos outros de nosso próprio local tornando a internacionalização uma perigosa ferramenta de estreito nacionalismo e da xenofobia?

Publicar, expor o nosso local no local do outro, pode ser tanto uma forma de alienação como de crítica. Enquanto nossos parceiros não se reconhecerem como local e desejarem a internacionalização como encontros de locais, a nossa internacionalização será pouco mais do que alienação de nossos conhecimentos e epistemologias locais. Tanto mais se essa alienação for financeira também.

Em termos mais operacionais, nossa internacionalização somente será sustentável e efetiva a médio e longo prazos se for baseada na internacionalização da pesquisa e da formação e não apenas da publicação (ou da divulgação, se preferirem). Também é fundamental, a esse respeito, que nossa internacionalização se dirija a todos os locais do mundo, não ficando restrita, pela língua ou por conveniência, a alguns poucos países. Levando em conta os critérios acadêmicos, sabemos que em muitas áreas é muito melhor internacionalizar-se com a América Latina e, certamente, com países Árabes e Asiáticos do que com os EUA e Europa. Nesse sentido, urge que aárea, se possível numa conjunção de esforços entre a CAPES, o CNPq e as FAPs, estabeleça um Plano Estratégico de Internacionalização da Pesquisa em Educação.

Em tal Plano deveria figurar, com destaque, as estratégias a serem desenvolvidas para a atração de alunos e pesquisadores para trabalharem conosco no Brasil. Mas isso implica, também, a construção, em nossos programas e faculdades de educação, de estruturas que favoreçam a internacionalização da pesquisa. Tal como é hoje, a internacionalização implica num conjunto de custos pessoais para os professores que faz com que poucos estejam dispostos ou disponíveis para tal atividade.

Finalmente, no que se refere especificamente à avaliação, esta deveria incidir muito mais sobre os esforços e os processos de internacionalização da pesquisa e da formação dos alunos e dos professores dos Programas do que sobre os produtos dessa internacionalização, sobretudo no que se refere aos artigos e livros publicados fora do país. Do mesmo modo, tal avaliação deveria levar em conta as desigualdades de acesso às oportunidades de internacionalização considerando, por exemplo, a atuação das agências nacionais e estaduais de fomento.

Se queremos que a internacionalização de nossa pesquisa seja, de fato, sustentável, e que a avaliação contribua para alavancá-la e não apenas para constatar o “estado da questão” em cada Programa, é preciso, hoje, apontar horizontes alargados de ação nesse sentido. Esse é, me parece, o nosso principal desafio atualmente.

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