Independência e Educação

grito-dos-excluidos

[Editorial do Pensar a Educação em Pauta n. 135]

Quando, em 2006, organizamos o projeto Pensar a Educação Pensar o Brasil – 1822-2022, e o associamos explicitamente ao bicentenário da independência do Brasil, o fizemos justamente para chamar a atenção para o lugar simbólico ocupado pela educação nos projetos de independência do país e, ao mesmo tempo, para demarcar a educação como um importante lugar a partir do qual o Brasil poderia e deveria ser pensado.

Trata-se, portanto, de uma postura que reconhece que a educação, notadamente a escolar, sintetiza boa parte das esperanças e frustrações societárias sobre a possibilidade de construirmos uma Nação independente.  Por isso mesmo, trata-se de pensar a Nação de forma articulada com o resto do mundo ou, dito de outro modo, de pensarmos as peculiares formas de participação do Brasil nas diversas vagas de globalização e, portanto, de interdependência entre países que marcam a história planetária nos últimos dois séculos.

Essa perspectiva que entende a educação como um lugar de síntese da história do país se relevou bastante profícua para pensarmos os últimos 200 anos de nossa história. Não menos importante e eficaz é, também, para pensarmos os tempos atuais. Justo no momento em que nos preparamos para discutir e comemorar o bicentenário da independência, nossa história é, novamente, manchada por um golpe. Tal movimento pretende criar as condições para que as mesmas elites que desde sempre se apossaram do Estado e dos fundos públicos para garantirem seus interesses privados, retomem seu lugar de conforto na direção dos “negócios públicos”.

Agora, tal como há 200 anos, o objetivo das forças reacionárias e conservadoras, com franco apoio da maioria dos chamados liberais, querem garantir que não haja mudanças, estruturais ou não, que coloquem em risco suas pretensões de acumulação de riqueza, sempre às custas dos interesses da maioria da população. Lá, foi a manutenção da escravidão e da constituição do único Império nos trópicos que sintetizaram os arranjos pelo alto; aqui é a entrega do patrimônio público e a destruição do Estado que fundamenta e justifica o golpe que destituiu a Presidenta eleita por mais de 54 milhões de voto.

Lá como cá, a educação é vista sob o prisma da liberdade, ainda que essa implique, sobretudo, numa integração da maioria às regras draconianas estabelecidas por uma minoria que, para fazer cumpri-las, não hesita em recorrer à violência simbólica das instituições as mais diversas, incluindo a escola, ou à violência física, quando aquela não obtém o resultado pretendido.

No momento atual, podemos verificar que o investimento dos grupos que patrocinaram e/ou realizaram o golpe se dá claramente nas duas direções. De um lado, uma grande integração dos grandes grupos midiáticos na produção de verdades que, mesmo não tendo referência nos fatos, buscam produzir como inimigos da pátria aqueles que lutam pelo Estado de Direito e pela manutenção de políticas públicas dirigidas à maioria da população. Do mesmo modo, no campo da educação escolar, investem numa ideia de escola sem partido, obscurecendo o fato de que, sob o manto do argumento, se esconde, na verdade, a defesa “partidária” da manutenção dos privilégios de uma minoria contra os direitos da maioria.

Mas hoje, como outrora, não basta a violência simbólica, pois vários são os movimentos e as estratégias que põem em dúvida a sua eficácia. A mobilização da “força pública” contra a população demonstra, de forma cabal, as práticas e os horizontes antidemocráticos e autoritários daqueles que usurparam o poder.  Não sendo prerrogativa do governo golpista, infelizmente, a ação violenta da política militar contra as manifestações em vários estados brasileiros, remete-nos aos momentos mais cruentos de nossa história de país independente.

Nesse contexto, assim como não é por acaso que uma proposta como a da escola sem partido ganha visibilidade, também a educação pública mantida com os recursos da população está prestes a ser entregue de bandeja para as grandes empresas nacionais e estrangeiras ávidas por lucros fáceis. Entregar a educação escolar, sobretudo a básica, nas mãos de grupos empresariais estrangeiros, além de uma violência contra a nossa precária soberania, é também uma alienação dos projetos de formação das novas gerações aos interesses do capital internacional.  Uma vez entregue a educação a grupos transnacionais, querer que os mesmos atendam aos interesses do Brasil e não aos das nações e grupos econômicos que os orientam será uma vã filosofia.

Por isso, nessa semana em que comemoramos(?) a festa da independência nacional, reafirmamos a ideia de que  Pensar a Educação é uma ótima forma de Pensar o Brasil! Tanto quanto a política e a economia, suas histórias e suas atualidades, a educação, em sua história e por meio das grandes questões atuais que sintetiza, nos revelam um país fragmentado e tão desigual quanto diverso. Ao mesmo tempo, a educação, como outras dimensões da vida nacional, nos mostra um país em que as pessoas, muitas pessoas, lutam por direitos, pela recuperação do Estado de Direito e da Democracia. Esse país nos faz acreditar, nem que seja por alguns momentos, que nas comemorações do bicentenário da Independência poderemos ter um Brasil melhor. E será, se a maioria da população assim o quiser!

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