Krol Macius (1)

Tio, queria ganhar uma bicicleta

Alcione Nawroski*

Em 11 de novembro de 2018, a Polônia comemorou 100 anos de Independência, decretada pelo Tratado de Versalhes que findou a I Guerra Mundial. Uma data que todos os anos é marcada por várias manifestações de cunho patriota e nacionalista e que marca o início da segunda república ou a volta da independência apóso Estado estar desaparecido do mapa por 123 anos. Durante este tempo, o país foi dividido em três territórios ocupados pelos Impérios Russo, Prussiano e Austro-húngaro. Marechal Józef Piłsudski foi uma figura proeminente deste período de reconstrução do Estado com auxílio do pianista e compositor Ignacy Paderewski que realizou as negociações com a base de apoio à independência instalada em Paris.

Sob os destroços da guerra, a Polônia começava a se recompor de um longo atraso. Os tempos eram de grande miséria, de pouco ou nenhum dinheiro e um elevado índice de analfabetismo. Eram tempos difíceis para os poloneses, mas também para os judeus que nessa altura já estavam bastante assimilados a cultura local. Famílias como as de Rosa Luxemburgo ou Janusz Korczak já não faziam questão da língua hebraica ou ídiche, mas falavam a língua polonesa, também como um elemento de adensamento e fortalecimento cultural para a reconquista do território da Polônia. Após a reconquista do Estado, a construção de escolas foi uma das prioridades e os judeus, mesmo tendo suas escolas particulares, preferiam mandar seus filhos para as escolas publicas polonesas, tendo em vista o pouco dinheiro nos tempos pós-guerra. Contudo, diferentemente dos poloneses, os judeus não aspiravam pelo ingresso nas universidades, mas preferiam por escolas de formação rápida para negócios comerciais que também não eram favorecidos pela economia polonesa naquele momento e, portanto, levou muitas famílias a imigrarem para a Palestina ou América.

Nesse contexto de pobreza, se destaca o trabalho do médico e educador Janusz Korczak. Filho de uma família judia, Korczak estava bastante assimilado à cultura polonesa e atuou como médico no exército e como defensor deste Estado até o final da Primeira Guerra e, posteriormente, nos anos 1919 e 1920 contra os bolcheviques.

Ativista pelo direito das crianças terem direito, Korczak criou em outubro de 1926 uma revista chamada Mały Przegląd, que publicava cartas e correspondências escritas por crianças e adolescentes. Na verdade, era um jornal semanal assinado pelos pequenos colaboradores de Varsóvia e outras cidades polonesas e, mais tarde ,também daquelas crianças cujas famílias imigraram para a Palestina, México, Brasil e Uruguai. Janusz recebia as correspondências e procurava manter a grafia das crianças que abordavam diversos assuntos. Para o educador, os erros ortográficos não eram um problema, mas o analfabetismo poderia ser, e assim acreditava que mantendo a originalidade das cartas estava desmistificando o poder de manipulação da mídia e oportunizando aos pequenos a escrever sobre os seus interesses, seus sonhos, suas vontades e seus desejos.

Após três anos de funcionamento, o jornal contava com 3200 crianças judias-polonesas colaboradoras que expressavam por meio de sua linguagemas suas principais questões, como as dificuldades encontradas na escola, o egoísmo e a falta de amigos, o pouco dinheiro dos pais e a vontade de ganhar uma bicicleta. Se para os adultos isso poderia representar uma questão banal, para Korczak era uma forma importante de dar voz as crianças e fazer seus direitos valerem.

Precursor do direito das crianças, Korczak publicou a história do Rei Macius Primeiro, um romance com traços autobiográficosonde um menino de aproximadamente dez anos foi coroado rei após a morte do seu pai. No seu governo, Macius tenta atender as reivindicações das crianças, que são muitas:

“Eu quero segurar pombos, gritou um. Eu quero um cachorro. Que todas as crianças tenham relógio. Que as crianças possam telefonar. Que não fiquem nos dando beijos. Para que nos contem mais histórias. Salame. Salceson. Que tenhamos liberdade de ir dormir tarde. Para que cada um tenha a sua bicicleta. Mais bolsos, meu pai tem 13 bolsos e eu só dois que são pequenos e quando perco o lenço do nariz, ele xinga”.

A partir das cartas e artigos que os pequenos escreviam, Janusz proferia por uma sociedade sem distinção de classes e tratavaem seus escritos de temas levantados pelas crianças como liberdade, democracia, política, corrupção, tirania e manipulação. A última edição do jornal Mały Przegląd foi publicada em setembro de 1939 e, a partir de então, não foi mais possível imaginar sobre o paradeiro de todos seus colaboradores. Durante a II Guerra, Korczak permaneceu na direção do Orfanato que foi transferido pela Gestapo para o Gueto de Varsóvia até 22 de julho de 1942, quando definitivamente foi invadido pelos nazistas. Em 5 de agosto de 1942, ao receber a informação de que seriam enviados ao Campo de Treblinka, Janusz Korczak pediu para que as crianças e adolescentes fizessem as malas e vestissem sua melhor roupa. Neste dia, encabeçou a fila de mãos dadas com as crianças e seguiram silenciosamente para embarcar no trem pela última vez. Possivelmente no dia seguinte todos foram assassinados.

Referências

IwonaChmielewska. Jakciężkobyćkrólem. JanuszKorczak. Wolno, 2018.

JanuszKorczak. JanuszKorczak w getcie. Noweźródła. Warszawa, Latona, 1992.

Museu da história dos judeus poloneses. Disponível em: https://www.polin.pl/en. Acessado em 01 de dezembro de 2018.

*Alcione Nawroski realiza pós-doc na Universidade de Varsóvia/PL.

Contato: alcione.nawroski@ufsc.br

           

 

Imagem de destaque: Ilustração de Iwona Chmielewska- Exposição temporária no Museu da História dos Judeus Poloneses, 2018.

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