Dalvit Greiner – SENHOR PAI E OU RESPONSÁVEL

Senhor pai e/ou responsável

Dalvit Greiner

Assim começam os bilhetes da Escola convocando os adultos responsáveis pela criança ou o adolescente que não cumpriu aquilo que estava determinado no Regimento Escolar. O ritual inclui o bilhete, a ciência do responsável, o comparecimento e, por fim, a instalação do julgamento. De um lado o professor, o coordenador e, dependendo da gravidade, o diretor. Do outro lado o pai ou a mãe, o responsável legal. No meio, uma vida…

Quando são crianças, em geral a convocação aos pais está preocupada em entender os níveis de agressividade; quando adolescentes, os níveis de apatia. A meninada pequena parece que tem sangue nos olhos tamanha a avidez com que olham a vida. Não são violentos: encaram a vida com muita energia e, às vezes, o coleguinha sofre. Querem tudo, são agitados, os olhos e os dedos e as pernas e os braços correm por todos os lados, mexem em tudo e com todos. São difíceis de conter: o que não se contém, não se conduz. Acusam a criança de hiperativa. Na minha infância diziam-nos “levados” ou “arteiros”. Sinto hoje que, na verdade, éramos muito criativos. E a meninada de hoje também é. Isso é parte da natureza. Nossas crianças, quando agindo naturalmente, são felizes. O problema é que nós, professores, raramente conseguimos fugir do planejado.

Já os adolescentes estão naquela fase da apatia. Sim, sei, é o tédio natural da adolescência. Não querem nada que não esteja no “zapzap”. Em muitos falta um vigor e uma iniciativa que não faço ideia de onde foi parar. Olho para minhas turmas e fico imaginando onde foi parar aquela alegria da descoberta que ainda há pouco existia. (Na minha escola vejo isso no andar de cima onde fica a meninada pequena.) A curiosidade os move muito pouco. Quando move é naquela velocidade paquidérmica. Até o futebol na escola anda ficando sem graça. Campeonato? Talvez. É difícil formar um time na sala. Fazer alguma coisa? Nem pensar.

E por esses motivos – ou desmotivos – chama-se o Senhor Pai e/ou Repsonsável. Queria conhecer alguns, responsáveis por meus novos alunos do oitavo ano. Os do nono ano, já os conheço e sei até onde e em quem é possível investir. O perfil do estudante não muda muito, mas fica a esperança de, ao conhecer os adultos que os criam, entender um pouco dos processos pelos quais passaram e passam.

E aí vem a minha constatação. Poucas crianças e adolescentes são amadas. Acredito que o amor conduz a algum lugar. Porém, é o que venho presenciando. Uma desesperança e um desespero da parte dos pais (Já não sei o que fazer com esse menino!). Uma falta absoluta de autoridade (Não adianta mandar porque ele não faz nada). Um descontrole sobre a vida do filho ou da filha (Só fica no computador ou no telefone). E o descontrole maior se reflete na famosa frase: são os coleguinhas, professor, já falei para largar esses coleguinhas.

Os sonhos não sonhados pelos pais vão se projetando na falta de sonhos da geração seguinte. Sinto que, como houve uma negação do direito à escola aos pais, eles não sonham uma escola para seus filhos. Simplesmente os mandam para a escola e, perversamente, podemos fazer qualquer coisa com eles que os pais ficam agradecidos. Agradecidos por dar um mínimo de disciplina ao seu filho; agradecidos por, no mínimo, dar-lhe e cobrar-lhe uma tarefa; agradecidos por salvá-los (como se isso fosse possível) das coisas ruins do mundo.

Ainda bem que não são todos, Mas um, apenas um deles, qualquer um deles me preocupa muito. É uma vida sem rumo, sem sonho, onde a escola é, talvez a única referência. E nosso tempo escolar é muito pouco.

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