A edição das Obras Completas de Rui Barbosa, uma história

Tânia Maria Teixeira Nakamura

 

O livro Edição e sociabilidades intelectuais – A publicação das obras completas de Rui Barbosa (1930-1949), de autoria de Luciano Mendes de Faria Filho, (Autêntica Editora: Editora UFMG – 2017), se propõe a apresentar a história da edição das obras completas de Rui Barbosa e da articulação dos laços da rede de relacionamentos que construiu e sustentou este projeto político-cultural, relacionamentos estes intelectuais, políticos, correligionários e familiares. De casa para museu, depois museu-biblioteca e editora, num processo de décadas que atravessaram mudanças de regime político, guerras e crises. Aponta também sua grande relevância para a história da educação brasileira, pelo diálogo com as grandes discussões pedagógicas da época, onde Rui Barbosa é colocado como precursor, referência ou legitimador para as propostas de reforma educacional.

A narrativa mostra um pesquisador metódico, que revela uma pesquisa cuidadosa sobre cada argumento exposto, num estilo fluente que nos permite visualizar a dinâmica de pessoas, instituições e textos na constituição do “monumento” que foi a publicação das obras completas. Assim tanto o livro como seu objeto são resultados de “engenho e arte”, revelando tanto o rigor da pesquisa documental, como o aspecto multifacetado do desenrolar dos eventos descritos.

O livro se divide em quatro capítulos. O primeiro, “De casa museu a casa editora” sobre a instituição, de residência de Rui Barbosa a museu-biblioteca (1924-1928), subordinada ao ministério da Educação e Saúde Pública em 1930, a proposta de publicação de suas “Obras Completas” até o ano de 1949 (comemoração do centenário de nascimento de Rui Barbosa e usado como data de referência para os projetos da Casa de Rui Barbosa) e os “percursos e percalços” deste projeto politico-editorial: as dificuldades de localização de documentos para uma “obra completa”, atrasos dos colaboradores, mudanças políticas tanto de pessoas como da política nacional e internacional, pois até a carência de papel de qualidade durante a Segunda Guerra foi fator que influenciou a produção, assim como a natureza do sistema de produção de livros no Brasil, seja pelos trâmites da imprensa oficial, seja pelos editores comerciais.

O segundo capitulo, “Fios, tramas e dramas da edição”, trata das pessoas, dos vários administradores da Casa, dos intelectuais mobilizados para o projeto apoiado pelo Estado Novo, convidados para analisarem e prefaciarem por assunto os volumes a serem publicados e justificando o título do livro: era uma rede de sociabilidades intelectuais construída e mobilizada em torno do projeto, relacionamentos, negociações e tensão, por serem intelectuais de formação heterogênea, atravessando o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial e a instituição da república de 1945. Trata principalmente da atuação de Américo Jacobina Lacombe, diretor da Casa de Rui Barbosa de 1933 até sua morte, em 1993. Indicado por Gustavo Capanema, constituiu um grupo principal de colaboradores com alguns colegas oriundos da Ação Integralista, mas acolhendo vários especialistas de acordo com a competência, disponibilidade e relacionamentos com os administradores para cada volume temático a ser publicado. Assim, o projeto de publicação insere-se nas políticas de história e memória nacionais do governo varguista, para a criação de um legado oficial idealizado, de um “herói nacional e tipo exemplar do cidadão-intelectual brasileiro” (p. 264).

No capítulo “Os prefácios, histórico, política e mediação cultural”, discute-se que “prefácio” vem a constituir peça-chave na produção das Obras Completas, pelo seu aspecto de “tradução” por parte do especialista de orientar o leitor para a compreensão do texto para o momento presente, assim como legitimar o autor para o campo descrito no tomo. Note-se que o prefaciador também editava, selecionava, revisava e adequava os textos originais para os padrões contemporâneos, portanto, de certo modo, recriava o texto, ao mediar a relação deste com o leitor, pela seleção e apresentação dos mesmos, orientando sua interpretação.

O quarto capítulo, “A construção de Rui Barbosa como pedagogista brasileiro”, trata da interpretação dos volumes publicados sobre os assuntos educacionais com os pensadores, que, por aproximação ou afastamento, ressignificação e negação, o envolveram na rede de discursos, das polêmicas sobre reforma da educação na época, da proposta da Escola Nova e seus opositores e criação da imagem de “Rui Barbosa educador”, a despeito da produção relativamente pequena em volume e tempo “(…) a reforma social se faria pela reforma educacional ou não seria realizada. O Rui Barbosa pedagogista fundia-se com ao Rui Barbosa reformador social e, desse modo, estava pronto para ser apropriado, nos anos vindouros, por várias gerações de professores e pesquisadores da educação” (p.261).

Nas “Conclusões” discute-se um aparente paradoxo, pois as “Obras Completas” não eram nem completas e nem todos os volumes foram lançados na data pretendida, de 1949, sendo a maioria dos volumes publicada próxima à data limite, num esforço final de tentar recuperar o tempo perdido, assim como a notável heterogeneidade dos colaboradores, numa reunião ideologicamente improvável para um projeto comum, de origem autoritária para a exaltação de um herói reconhecidamente liberal, o que indicaria características da produção cultural brasileira.

Assim como os organizadores se esforçaram para “traduzir” Rui Barbosa aos leitores da década de 1940, Luciano Mendes de Faria Filho se empenhou em mostrar a trama da construção social do “monumento” Rui Barbosa, de como este foi lido, interpretado e apropriado pelos pensadores e estudiosos da educação para as questões da época da publicação. Sua pesquisa e metodologia abrem caminhos para vários outros trabalhos afins e permitem mesmo conjecturar que para seu centenário de falecimento no ano 2023 teremos outro esforço de “tradução” de Rui Barbosa aos leitores do século XXI, uma vez que muitas ideias do grande pensador do século XIX ainda são relevantes, como a questão da governança, da justiça, dos direitos civis, as críticas ao sistema educacional e sua defesa do liberalismo político, sendo tanto descaracterizado pelos que hoje se afirmam liberais como pelos críticos ao liberalismo, sendo que ambos estão distantes do que Rui Barbosa definiria e defenderia como “ser liberal”.


FARIA FILHO. Luciano Mendes de – Edição e sociabilidades intelectuais: a publicação das obras completas de Rui Barbosa (1930-1949) / Luciano Mendes de Faria Filho. Belo Horizonte: Autêntica Editora: Editora UFMG. 2017.

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