Representações e escolarização das mulheres da sociedade mineira

Ana Paula Martins de Melo*

Antes do século XIX, na maioria das sociedades ocidentais, a invisibilidade feminina era algo “natural” e elas não existiam senão pelo seu representante masculino. Estariam confinadas à casa e trariam a “desordem” às cidades caso falassem. Seu corpo amedrontava e deveria estar completamente coberto caso saísse do ambiente doméstico. De forma geral, o pensamento do fim do século XVIII, perpassa o XIX, e a medicina separa biologicamente homens e mulheres. A análise de teses de médicos cientistas do século XIX nos mostra que há uma diferenciação sexual e essa muda as práticas sociais dos homens sobre as mulheres, na qual o corpo é essencial para o entendimento da sociedade civil em que haveria dois sexos onde os papeis de cada um deles se baseiam nessa diferenciação biológica.

Os homens, por não gerarem filhos, teriam uma superioridade intelectual sobre as mulheres, as quais, com um útero, teriam que dividir os fluxos corporais entre o útero e o cérebro, tornando-as menos capazes. Na infância, tanto meninos quanto meninas, teriam as mesmas sensibilidades, mas quando se chegava à puberdade, os sexos se diferenciavam tanto no corpo quanto na mente. A menina canalizaria seus ‘fluidos’ para o útero, mas ela continua frágil e sensível como na infância, enquanto os meninos, seus ‘fluidos’ iriam para o cérebro e ele se tornava mais forte e mais viril, assim como seu caráter e ele seria o sexo que iria proteger a mulher. Sendo assim, a ela não cabia o ambiente público, que seria muito agressivo para um ser sensível e vulnerável. Muito menos a formação política e intelectual, que demandaria muito gasto intelectual, ou cerebral, e ela deveria guardar os seus fluidos para a maternidade.

Essas teses cientificistas, absorvidas pelas sociedades brasileiras, inclusive a mineira, são fundamentais para se entender a ordem social e cultural do século XIX.

A mulher seria incapaz de assumir responsabilidades cívicas que exigissem grandes esforços intelectuais e vida em sociedade fora do ambiente doméstico, como a instrução escolar. A escola poderia ser um ambiente perturbador para a mulher, “prejudicando todos os esforços que a natureza fazia no sentido de garantir o bom desenvolvimento da capacidade reprodutiva feminina” (ROHDEN, 2003, p. 210). Atrelado a esse pensamento, devemos levar em conta a religiosidade na Província. Uma moça de respeito não tinha muita escolha e se esperava que todas seguissem os ideais marianos, de entrega à missão e pudor, caso contrário seriam comparadas às Evas, a mulher que traz problemas à sociedade, que inquieta os homens e trazem sua ruína.

No entanto, na segunda metade do século, mesmo que muitas dessas ideias de inferioridade ainda estivessem presentes, também podemos observar uma prática intelectual em crescimento. Elas começam a frequentar mais as escolas, escrevem alguns artigos para jornais com temáticas voltadas para elas, principalmente ética e educação. Isso nos permite entender que não haveria uma única representação, mas múltiplas representações da mulher nesse tempo e espaço. Muitas vezes, até marcada por dicotomias, avanços e retrocessos.

E nesse sentido, essa sociedade, ao mesmo tempo que a torna submissa, contida, domesticada e exalta a condição masculina, na veiculação dessas representações, circulam os modos aceitáveis de se ser mulher que vão sendo incorporados às práticas cotidianas e naturalizados pela sociedade patriarcal mineira.

Assim, a partir da segunda metade do XIX, período em que há uma preocupação maior com a compreensão da infância e o pensamento iluminista de que elas seriam mais carinhosas, zelosas, capazes de criar bons filhos para a pátria, começa-se a se discutir a importância das mulheres¹ para o ensino primário. Não por acaso, na prática, as mulheres passam a dominar, os cursos normais em fins do século XIX. Segundo Louro (2017, p. 454), “as escolas normais se enchem de moças. A princípio são algumas, depois, muitas; por fim, os cursos normais tornam-se escolas de mulheres”.

A mulher pode ser entendida então, no fim do século XIX, também como aquela que luta pelo ideal de preparação dos filhos, logo cidadãos civilizados e se ela tem essa sagrada missão, que tem seu principal teórico o iluminista J. J. Rousseau², mas também passa-se a pensar que ela também pode educar os que não fossem seus filhos. Nesse sentido, mesmo colocando a mulher no lugar de geradora de filhos para a nação, ela ascende a um lugar de destaque, importante, com uma função fundamental para a sociedade, diferentemente da mulher excluída, silenciada e reclusa do século anterior e que se faz importante destacar que a educação escolar, é papel fundamental na transformação das representações das mulheres durante todo o século XIX e fator imprescindível para a luta de igualdade de gêneros que se segue até os dias atuais.

¹ Mas não qualquer mulher. Apenas as educadas, que seguissem os comportamentos sociais da moral cristã e das regras sociais para a domesticação dos corpos.

² Jean-Jacques Rousseau foi um filósofo iluminista nascido em Genebra que se destacou dos demais por certa aproximação com as camadas mais populares. Ficou conhecido por sua obra “Do contrato social” (1762), onde os homens são regidos por regras sociais que os privaria de sua liberdade natural. Mas necessárias para se viver em sociedade (SOUZA, 2002).

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*Mestre em História da Educação Pela Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG. Este artigo é parte da dissertação de mestrado Instrução Pública feminina na segunda metade do século XIX em Minas Gerais


Imagem de destaque: Uma Aula de Desenho e Arquitetura. Ilustração da Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte. Fonte: Arquivo Nacional

 

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