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Psicanálise e Educação Inclusiva: Conversação com professores da classe regular e do Atendimento Educacional Especializado – AEE

Rosilene de Brito Vasconcellos*
Sarah Caroline Guedes Cardoso**

 

A Educação Inclusiva é uma ação política, cultural, social e pedagógica, que tem como objetivo garantir o direito de todos os alunos ao acesso à escola regular e à aprendizagem, incluindo aqueles que constituem o público alvo da Educação Especial (PAEE) – sujeitos com deficiência(s), sujeitos com Transtornos Globais do Desenvolvimento/TEA (Transtorno de Espectro Autista) e sujeitos com Altas Habilidades/Superdotação. Estes, de acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva (MEC/ SECADI, 2008), contam também com o direito ao Atendimento Educacional Especializado (AEE), oferecido no contraturno escolar, nas Salas de Recursos Multifuncionais. Cabe aos profissionais da escola – professores da sala regular e professores especializados do AEE – desenvolver um Trabalho Colaborativo de modo a se estruturar um atendimento capaz de beneficiar, de fato, os alunos em questão.

O presente relato refere-se a uma pesquisa, em andamento, que objetiva investigar um dos desafios da referida Política: a constatada dificuldade em se realizar um Trabalho Colaborativo entre os professores da sala de aula regular e os do AEE. Orientada a partir da teoria psicanalítica, a pesquisa tem como foco as dificuldades que estão para além das questões objetivas; ou seja, aquilo que diz respeito à constituição da subjetividade dos sujeitos professores, e que contribui para alguns impasses – na interlocução entre os mesmos no espaço escolar; na capacidade de transmissão; e, consequentemente, na escolarização dos alunos PAEE, os quais, não raro, se veem excluídos do acesso à aprendizagem.

Para tal, levantou-se escolas da rede pública municipal da Grande BH, as quais contam com uma infraestrutura considerada adequada: salas de AEE devidamente equipadas e localizadas dentro do próprio prédio da escola, profissionais capacitados para o atendimento especializado, além de tempos e espaços suficientes para a sistematização de reuniões e encontros entre os professores responsáveis por pelo menos um mesmo aluno – na sala regular e sala de AEE. Desse modo, buscando-se minimizar o levantamento de dificuldades justificadas na estrutura do sistema educacional. Após contato com tais escolas, elegeu-se 3 entre aquelas que aceitaram a oferta da pesquisa e que reconheceram suas dificuldades na efetivação do Trabalho Colaborativo.

Com base nas mais recentes contribuições da Psicanálise à educação,a investigação se estrutura como pesquisa-intervenção, apoiando-se na metodologia da Conversação de Orientação Psicanalítica. Trata-se de um dispositivo clínico elaborado por Jacques Allain Miller, nos anos 1990, e que se apresenta como uma condição de oferta da palavra. O instrumento, que toma como partida aquilo que não vai bem, busca pela fala “que escapa” ao sentido, e ao provocar surpresa no próprio locutor, aparece desregrada pelas limitações éticas, sociais e culturais, convidando-o a organizar suas próprias experiências, questionar os discursos já pré-concebidos e identificar os sintomas – termo aqui referido como problemas. Neste sentido, a Conversação, quando utilizada para além de sua vertente puramente clínica, oportuniza a construção de novos sentidos e modifica as dinâmicas existentes no contexto escolar, demonstrando-se assim passível de aplicação em investigações no campo educacional.

A pesquisa se efetiva, portanto, a partir de um conjunto de três Conversações consecutivas, conduzidas pelas pesquisadoras, uma vez por semana, com grupos de professores nas três escolas eleitas. Cada Conversação é gravada e transcrita, de modo que se possa recolher os elementos centrais das falas dos participantes, os quais são retomados como ponto de partida para o encontro seguinte.

A primeira escola, que revelou ter se beneficiado do espaço proporcionado pela investigação, demonstrou a presença de uma recusa ao Trabalho Colaborativo como sintoma, ou seja, como uma solução para se evitar o contato com a angústia da tarefa “não toda” da educação, explicitada na “falta” evidenciada pela deficiência. Ao se abordar as possíveis causas da constatada dificuldade nesse coensino. os profissionais reconheceram a dificuldade em lidar com o real do corpo faltoso, revelando um ponto impossível de se lidar; bem como a dificuldade em articular seu desejo a algo que consideram excluído de suas escolhas pela docência – a pessoa com deficiência. Desse modo, os resultados colhidos na 1ª escola permitem construir a hipótese de que a dificuldade em realizar um Trabalho Colaborativo, previsto pela Política, diz respeito, também, ao desejo dos professores confrontado com a angústia produzida no trabalho focado na inclusão.

Verificou-se que a partir da oferta da palavra a estes sujeitos, foi possível que os mesmos localizassem os pontos de mal-estar, convergindo para possibilidades de se construir novas saídas. Ao final das Conversações com este grupo, os professores se implicaram no problema e construíram propostas de melhorias nas relações interpessoais, reivindicando momentos onde possam trocar ideias diante dos desafios da inclusão.Esses elementos apontam para a necessidade de um espaço em que se discuta a escolha docente, tal como as responsabilidades pulsantes nesse âmbito, as falhas conscientes e inconscientes (im)previstas nos processos educativos.

Com os resultados finais desta pesquisa, que aborda temática ainda pouco explorada nas investigações em educação, pretende-se chamar a atenção para aquilo que escapa ao projeto das políticas públicas: a subjetividade daqueles que a efetivam; bem como destacar a necessidade de se proporcionar espaço para tais aspectos na escola, no currículo dos cursos de licenciaturas e nos cursos de formação continuada de professores.


*Pesquisa desenvolvida a partir de recursos do Programa institucional de auxílio à pesquisa de docentes recém-contratados ou recém-doutorados da UFMF. EDITAL PRPq – 05/2016.

**Rosilene de Brito Vasconcellos e Sarah Caroline Guedes Cardoso são bolsistas de Iniciação Científica na Faculdade de Educação (FaE) / UFMG.

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