O que podemos pensar sobre a vida e a morte de LGBTs no Brasil com o atentado em Orlando? – exclusivo

Anna Paula Vencato

Na madrugada do dia 11 para o dia 12 de junho de 2016 um atirador entrou em um clube de entretenimento para LGBTs em Orlando, Flórida, EUA. Era uma festa de temática latina. 49 pessoas morreram e outras 53 saíram feridas. O episódio tem sido descrito como o massacre de Orlando e causou imediata comoção internacional. O presidente dos EUA, Barack Obama, classificou o atentado como um “ato de terrorismo e ódio“, fruto de um “extremismo doméstico“. O que ocorreu naquela noite merece luto, indignação, reflexão. É algo violento, estúpido e cruel. Algo que não pode nem deve ser minimizado. Mas, ao mesmo tempo, provoca uma reflexão sobre o caso brasileiro.

De acordo com dados fornecidos pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2014, levantou-se 326 mortes de gays LGBTs no Brasil, incluindo 9 suicídios. Um aumento de 4,1 % em relação ao ano de 2013. Em 2015, 318 LGBT foram assassinados no país. Isso implica em uma violência letal contra LGBTs a cada 27 horas. Dessas pessoas, 52% se identificavam como gays, 37% como travestis ou transexuais, 16% como lésbicas, 10% como bissexuais. Ainda, foram assassinatos deste número 7% de heterossexuais confundidos com gays e 1% de amantes de travestis. De acordo com a ONG Transgender Europe, 50% dos assassinatos de pessoas trans no mundo são cometidos no Brasil, mesmo que este também seja o país em que mais se procura por pornografia “trans” no RedTube. Os dados não abarcam toda a realidade do Brasil, uma vez que dependem de ser noticiados na mídia ou reportados ao GGB por conhecidos/as da vítima.

Ainda, há de se considerar, as outras violências não letais que são constantemente perpetradas contra LGBTs, que vão das piadas às agressões físicas. A ideia aqui não é hierarquizar vidas ou sofrimentos, mas pensar sobre como as mortes de LGBTs tem se feito presentes no cotidiano brasileiro. É aproveitar um momento de comoção com algo que ocorreu em outro país para falar também sobre as nossas vítimas do preconceito e das discriminações que atingem especificamente LGBTs no Brasil. É importante que a gente se solidarize também com as vítimas do alto índice de assassinatos de LGBTs que temos por aqui: cerca de seis Orlandos apenas em 2015.

O pastor de uma igreja cristã estadunidense comemorou em um culto osassassinatos. No Brasil, diversos comentários de internet fizeram o mesmo. Precisamos pensar sobre isso. E também pensar sobre essas religiosidades e moralidades que permitem através de discurso de ódio que alguém mate alguém que é diferente de si. Cada pessoa que comentou na internet absurdosincentiva uma agressão ou assassinato. No Brasil, discursos de líderes religiosos, de parlamentares e de pessoas por todo lado enfatizam e dão suporte a essas violências. Como exemplos atuais, podemos apresentar aos debates como os que proíbem que professores e professoras discutam gênero e sexualidades nas salas de aula ou escolas, que retiram estes temas das políticas públicas de educação e currículos escolares, ou projetos como o Escola sem Partido – que defende que a escola deve ensinar conteúdos que coadunem à moral dos pais, e que pressupõe, nesse contexto, que a moralidade e as vivências de distintas famílias são idênticas.

O que o massacre de Orlando nos propicia é um momento bom para pensar sobre nossos próprios preconceitos e sobre as vítimas, letais ou não, deles: o que nossas palavras, piadas, atitudes, falta de atitudes ou risadinhas informam? Em que incentivam a esta violência que agride e assassina tanta gente mundo afora e, em especial, no Brasil? Não se trata de falar em politicamente correto aqui, mas em refletir qual o papel de cada um/a de nós, independente de gênero ou sexualidade, na existência e perpetuação de preconceitos, discriminações, agressões, assassinatos ou quaisquer tipos de violências que existam contra LGBTs. Nos termos de Luis Antonio Baptista, a questão é pensarmos em que medida, mesmo que não sejamos nós quem desfere a facada em um assassinato, se fazermos em nossa vida cotidiana o papel daqueles que são os “amoladores de facas” utilizadas no ato de aniquilação do outro, diferente de nós.

Anna Paula Vencato – Antropóloga. Professora DECAE – FaE – UFMG

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