Renata Duarte Simões – O Combate Ao Machismo E à Violência Nas Redes Sociais– Mulheres Na Luta

O combate ao machismo e à violência nas redes sociais: mulheres na luta

Renata Duarte Simões

 

A menos de um mês das eleições para presidente da República, governadores dos estados, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais e mulheres se mobilizam nas redes sociais, contra o discurso machista e misógino de alguns candidatos.

O principal alvo da campanha é o deputado federal pelo Partido Progressista (PP-RJ) e candidato à presidência que, em seus pronunciamentos, demonstra-se autoritário e preconceituoso comas minorias e que evidencia compactuar com a visão da mulher submissa e inferior, ainda defendida por uma parcela conservadora da sociedade. Em 2014, o parlamentar subiu à tribuna da Câmara dos Deputados e ofendeu a também deputada Maria do Rosário, afirmando que ela não merecia ser estuprada porque a considera “muito feia” e porque ela não faz o “tipo” dele. Tal declaração ocasionou revolta entre as feministas, que criticaram o menosprezo à dignidade da mulher, quando se faz referência a uma violência brutal,no caso o estupro, como se fosse um benefício a ser concedido por mérito de beleza.  Por essa declaração, o deputado tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal (STF).

Dentre as inúmeras declarações polêmicas do parlamentar, a que se tornou ponto nevrálgico diz respeito à defesa de salário inferior para as mulheres, sob a justificativa de que elas engravidam, precisando se afastar do trabalho, e que se aposentam mais cedo, trazendo prejuízos para a empresa. Os argumentos utilizados parecem não ter convencido as mulheres, que se manifestaram nas redes sociais em defesa de seus direitos e por igualdade de gênero no mercado de trabalho. Há um amplo descontentamento, entre elas, em relação à diferença de salários para o exercício das mesmas funções desempenhadas por homens e mulheres, situação que ainda é bastante evidente na sociedade atual, em que os homens ganham aproximadamente 30% a mais do que as mulheres com mesmo nível de instrução e idade.

Outra questão que vem causando repúdio entre as mulheres refere-se à declaração do parlamentar sobre os próprios filhos. Em palestra realizada no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, em 3 de abril de 2017, o deputado referiu-se ao nascimento de sua filha, com seis anos à época, como uma “fraquejada”, depois de ter tido quatro filhos homens. No mesmo discurso, em meio a risos, o deputado fez referências racistas e preconceituosas às comunidades quilombolas e afirmou que, se eleito, acabará com todas as reservas indígenas. Os grupos LGBTs também já foram alvo de ataques do parlamentar, que evidenciou sua posição homofóbica em entrevistas nas quais atribuiu a “escolha afetiva” de alguns grupos ao consumo de drogas, afirmou jamais ter lhe passado pela cabeça ter um filho “gay”, porque seus filhos tiveram uma boa educação, e destacou que ter vizinhos “gays” desvalorizaria o seu imóvel.

A liberação de uso de armas para a população também tem sido alvo de intensas críticas entre as mulheres nas redes sociais, que veem essa ação como potencializadora da violência na sociedade, temendo pela vida de seus filhos. Compreendendo que um presidente preocupado com o futuro do país investe em educação, essas mulheres têm defendido a criação de escolas e o uso de livros como instrumento para construção de uma nação mais digna e justa. Repudiam comentários que incitam violência e posicionam-se claramente opostas à liberação de qualquer armamento, recorrendo à já conhecida premissa de que “violência só gera mais violência”.

Com os lemas “não nascemos de uma fraquejada!”,“juntas somos mais fortes!”,“não seremos silenciadas!”, “nenhuma mulher merece ser estuprada!”,entre alguns outros, e utilizando a hashtag #elenão, a mobilização contra o referido parlamentar já agregou mais de dois milhões e quinhentas mil mulheres e vários segmentos sociais também aderiram ao movimento, dentre os quais: professores, comunidades quilombolas, indígenas, comunidades LGBT, comunidades religiosas de matriz africana, e também alguns homens, que dizem ter aderido à mobilização em apoio e respeito às mães, irmãs, avós, tias, noivas, cunhadas e demais familiares mulheres.

Não é de hoje que as mulheres demonstram a sua força em movimentos políticos e sociais de extrema importância para a sociedade, definindo diferentes rumos para o país. Fizeram-se presentes na luta por direito à educação da mulher, direito a melhores condições de trabalho nas fábricas, direito de igualdade salarial, direito ao voto, direito à participação política, direito ao divórcio, além da conquista de participação na criação de vários órgãos em defesa dos direitos das mulheres e de elaboração de uma lei específica para coibir a violência doméstica e familiar (Lei Maria da Penha, n. 11340/06).

Todavia, o que vemos é uma tentativa de desmoralização dessas conquistas e dos movimentos feministas que lutaram por melhores condições de vida para as mulheres. A imagem da mulher militante vem sendo vinculada à promiscuidade e ao desprovimento de beleza, no sentido de inferiorizar as mulheres em luta. O eleitorado do referido parlamentar utiliza-se do mesmo discurso de ódio, proferido na Câmara em ataque à Maria do Rosário, para inferiorizar e agredir as mulheres que aderiam ao grupo de resistência ao candidato.

Não se pode negligenciar que alguns temas permanecem na pauta dos movimentos feministas, como o acesso a métodos contraceptivos, saúde preventiva, igualdade entre homens e mulheres, proteção à mulher contra a violência doméstica, equiparação salarial, apoio em casos de assédio, entre tantos outros pertinentes à condição da mulher. Contudo, essas questões, algumas delas antigas e ainda não superadas,constituem as lutas das mulheres na sociedade atual e em nada desmerecem as inúmeras conquistas já alcançadas por igualdade de gênero e direitos sociais.

Apesar dos ataques cibernéticos que vem sofrendo o grupo, no sentido de desmobilizá-las, as mulheres em luta nas redes sociais não estão dispostas e retroceder e já agendam atos, estaduais e nacionais, para o fortalecimento da resistência. Que o gesto dessas mulheres sensibilize os demais brasileiros para o risco que ameaça a democracia do país e que brilhem essas bravas guerreiras na batalha por uma sociedade mais justa e igualitária, com menos violência e autoritarismo.

This Post Has 3 Comments
  1. Parabéns professora Renata, artigo muito bem escrito e em um momento bem oportuno. Devido a onda neo-conservadora na qual o país vive, questões sobre machismo e homofobia estão voltando à tona.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *