História de um professor: 40 anos de luta

Nelson Pretto

Carteira de trabalho de Nelson Pretto

No último dia 19 de abril, completei 40 anos como professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Minha carteira profissional foi assinada no dia 19 de abril de 1978, mas desde o começo de março daquele ano eu já estava no Instituto de Física como professor colaborador (esse era o nome dos professores temporários; hoje, os substitutos).

Como aluno de graduação, entrei na UFBA em 1974 para fazer Física e desde aquele ano comecei a ensinar essa matéria no Ensino Médio em diversas escolas de Salvador (Escola Nossa Senhora de Lourdes, o conhecido Lourdinha, Instituto Social da Bahia, Escola Nobre, Colégio Maristas, os cursinhos de vestibular UCA e Universitário). Em Feira de Santana, a 100 km de Salvador, fui professor do Colégio Capuchinhos, num terceiro ano preparatório para o vestibular. Era uma animação só. Nesse último caso, saía de Salvador no meu fuscão em torno do meio dia, voava pela BR-324 e, lá chegando, comia num restaurante italiano bem em frente ao colégio. Depois, aula, aula até às 19 horas quando a turma, animada, já me chamava para a farra da noite. Dormia num apartamento no próprio Colégio e, às 6 da manhã, os primeiros alunos – os que não tinham ido à noite, claro! – já começam a gritar para eu acordar, pois às 7 horas começávamos mais uma maratona de aula de Física até umas onze da manhã. De lá, voava no fuscão de volta para Salvador. Eita saúde!

O período do Ensino Médio foi muito rico, trabalhando com uma disciplina considerada o terror para a meninada, a Física, creio que fazíamos um trabalho bacana pois, acredito, a turma gostava. Tão logo me formei, em 1978, fui convidado pelo colega Cláudio Guedes, professor do Instituto de Física, para dar aulas de Física Geral e Experimental I. Aceitei no ato e lá fui eu enfrentar um novo desafio. Mal sabia que esse seria aquele o lugar por onde me estabeleceria para sempre. Ou quase isso.

Gostava muito do ensino médio e deixá-lo me entristecia um pouco, mas comecei a ver na Universidade a possibilidade de atuar também na pesquisa. E foi o que aconteceu.

Antes, importante registrar que todo esse período de Ensino Médio – que se chamava de 2º grau – foi com uma forte atuação no Sindicato dos Professores do Estado da Bahia, o nosso SINPRO-Bahia, uma história de muita luta e, claro, muita folia também.

Assembleia de greve no Colégio Dois de Julho

Uma das memoráveis ações daquele grupo de lutadores que retomou o Sindicado da mão dos pelegos em 1979 foi a aquisição de uma sede própria, no bairro dos Barris, em Salvador, pois a anterior era uma verdadeira cafua que não viabilizava nenhuma atividade dos professores que envolvesse mais de meia dúzia. E nós vivíamos em bando! Um bando de lutadores e lutadoras poderosos. Aglutinávamos muita gente, nas reuniões de Diretoria, nas Assembleias e também nas atividades mais gerais que passamos a fazer na nova sede.

Inauguração da nova sede do SINPRO

Localizo também, em meus baús e nuvens, algumas imagens daquele período e delas tenho boas lembranças. Começo logo com uma, anterior à minha entrada na UFBA, quando sai em folia com a minha turma de alunos do Ensino Médio do Instituto Social da Bahia (ISBA) para um belo dia de passeio na Ilha de Itaparica. Imagino que isso seja por volta de 1976 ou 1977. Fazíamos muito isso, pois tive sempre uma intensa relação com todos os meus alunos.

Passeio dos alunos do ISBA na Ilha de Itaparica

Voltemos à entrada na UFBA. Estamos no final do anos 1970, um tempo no qual ainda podíamos ser contratados para o magistério superior sem Mestrado ou Doutorado, coisa impensável nos dias de hoje. Assim, entrei por um mero convite e fui abrigado no Instituto de Física com muito carinho e não sou eu louco de tentar nominar a todos e todas que me receberam e sempre me apoiaram. Foram muitos, de colegas professores a servidores técnico-administrativos. Esse apoio continuou, pois dali pude alçar voos sensacionais, passando pelo Ensino de Ciências, pela Divulgação Científica, pela Educação no sentido mais geral, pela Comunicação, terminando, sem contudo nada acabar, aqui na Faculdade de Educação onde, inclusive já fui até Diretor, na companhia muito boa da querida colega professora Mary Arapiraca.

Essa é outra interessante história, mas que aqui não dará para contar. Fica, então, apenas o registro do Programa de Gestão que elaboramos com o, na minha modesta opinião, sugestivo nome de Construindo uma escola sem rumo. Também aqui o meu discurso de posse como diretor.

Esses primeiros anos de UFBA foram muito ricos pois estava eu no Instituto de Física, o centro das mobilizações em defesa da universidade púbica, bandeira que sustentamos cotidianamente até os dias de hoje e, quem sabe, até mais necessária do que ontem. Pois foi ali que refundamos o nosso Sindicato, a APUB – Associação dos Professores Universitários da Bahia.

Greve nacional – Campo Grande

Também o IF foi o centro da mobilização para umas das nossas maiores graves, creio que em 1981 ou 1982, uma greve nacional, espetacular em termos de mobilização. Ocupamos a mídia, a cidade e a praça central de Salvador, o Campo Grande. Queria ter tempo e espaço para escrever sobre esse rico período de mobilização. Algumas imagens dizem um pouco do que foi aquele momento.

Essa é uma pequena parte. Provocado aqui pelo Pensar Educação, Pensar o Brasil rabisquei essas linhas. Um pouco mais escrevi em meu livro Um dobra no tempo – um memorial (quase) acadêmico, publicado pela Editus, da Universidade Estadual de Santa Cruz/Bahia, disponível em Acesso Aberto no site da Editora.

Greve nacional – Campo Grande

Quem sabe nas próximas semanas ou meses não escrevo mais um pouco e, com isso, estimulo a mais colegas a colocarem suas memórias na rede, construindo, assim, modestamente e de grão em grão, a história da educação, dos educadores e educadoras do nosso país.

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