Adorno E Horkheimer(1)

Dialética do esclarecimento: 70 anos

Alexandre Fernandez Vaz

 

Há setenta anos, um breve livro foi publicado em alemão por uma pequena editora de Amsterdã, depois de haver sido escrito nos Estados Unidos da América, mais precisamente na bela Califórnia. Seus autores se haviam transferido para lá depois de viverem em Nova York, para serem vizinhos de uma legião de centro-europeus exilados da barbárie nazista.

Muitos deles estavam empregados na indústria cinematográfica de Hollywood. Não era o caso de Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, os autores de Dialética do esclarecimento, obra de estrutura incomum: três capítulos, dois excursos ao primeiro deles, um conjunto de anotações na forma de ideias a serem desenvolvidas, ao final. Horkheimer e Adorno compunham o Instituto de Investigação Social, o primeiro o dirigia, e foi no interior de seus seminários que o grosso do Livro da dialética, como era chamado o projeto, foi gestado, entre 1939 e 1944. Nesse mesmo ano circulou entre poucos em cópia mimeografada com o título de Fragmentos filosóficos, depois tornado subtítulo da versão definitiva. Faltavam as notas finais e o capítulo sobre antissemitismo e dominação política, incorporados na versão final, publicada em 1947.

A fortuna demorou para ser das melhores. Supõe-se que os porões da editora holandesa Querido guardaram muitos volumes durante um bom número de anos, e apenas na década de 1960 o livro ganharia notoriedade. Estudantes alemães faziam cópias piratas e as vendiam a preços muito baixos, multiplicando a leitura tornada obrigatória entre os progressistas. Uma nova edição surgiria apenas em 1969, vencida a resistência de Max Horkheimer, cuja posição era contrária à publicação. Aceitou-a mediante a incorporação de um prefácio em que se adverte o teor algo datado da obra.

No Brasil, o livro teve sua única edição (mas com muitas reimpressões) em 1985, pela editora Jorge Zahar, em tradução de Guido Antônio de Almeida. O primeiro capítulo fora antes publicado no volume referente à Escola de Frankfurt, da coleção Os Pensadores, assim como o capítulo sobre a indústria cultural aparecera na coletânea Teoria da cultura de massa (Civilização Brasileira), organizada por Luiz Costa Lima em 1969.

Marx com Freud, Kant com Nietzsche, Homero e o Marquês de Sade. Cinema, líderes carismáticos, magia que com a troca sacrificial antecipa o intercâmbio mercantil. Livro exigente cuja perspectiva é a de reconstrução do percurso da razão como processo imemorial de dominação da natureza. Não seria este um processo unívoco, daí a dialética de algo que liberta, mas também aprisiona, uma vez sem ponto fixo e seguro de onde se pudesse garantir a correta enunciação da crítica.

Mito e esclarecimento se entrelaçam, escrevem os alemães, segundo os quais o primeiro já é antecipação do segundo porque tem pretensões de controlar e interferir na natureza e em sua dinâmica. A tese se desdobra conceitualmente no primeiro capítulo e encontra os destinos do sujeito e logo da moral nos dois excursos a ele. Indústria cultural – conceito crítico e irônico – e os limites do esclarecimento demarcados no antissemitismo são faces da mesma moeda: dominação dos sentidos pela cultura como mera repetição compulsiva e promoção de esquemas regressivos, por um lado, dominação dos sentidos pela proibição de pensar encadeada pelo medo e pelos mecanismos de identificação com o agressor. Compulsão e paranoia que impedem a razão de ser razoável, ainda que ela mantenha o potencial para tal.

Esse livro-laboratório é como que uma síntese do que o Instituto até então pesquisara e, em parte, o que ainda viria a investigar. Está lá a inspiração dos estudos sobre a personalidade autoritária a alimentar o capítulo sobre antissemitismo, os sobre rádio dizendo algo para o conceito de indústria cultural. Mas ainda tem atualidade a analítica que os frankfurtianos fizeram?  Sim, sem dúvida. Dialética do esclarecimento é um modelo para pensar um mundo em transformação, de forma que vale muito mais o aporte metodológico do que propriamente a letra do texto. Este, no entanto, não deixa a desejar: a crítica à razão em sua dimensão instrumental é mais atual que nunca em uma sociedade totalmente dominada tecnologicamente, a política esfumaçou-se e a cultura só cumpre mesmo a função de entreter. Basta abrir a internet.

Ao final do capítulo sobre indústria cultural, na versão primeira de 1944, havia uma anotação. Seguir, escreviam os autores. É isso a que o livro nos convida: persistir na análise crítica do presente. Desafio dos grandes, mas que precisa ser enfrentado. Convite que permanece.

Porto Alegre, setembro de 2017.

Foto destaque: http://homoliteratus.com/e-por-que-nao-ler-a-nossa/

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