Como nasce um professor de Ecleide Curnico Funaletto

João Victor da Fonseca Oliveira*

 

 

Ecleide Cunico Furlanetto alcança, com delicadeza e altivez, uma reflexão sobre o processo de individuação (crescimento psíquico) e formação dos professores. Muito importa, em seu trabalho, descobrir como aprendem os adultos e por quais caminhos tornam-se possíveis essas aprendizagens.

Esse livro me chegou às mãos de forma despretensiosa, e como poderia ser diferente, tratei de possuí-lo. Não pelo tato, antes, pelo diálogo, sempre novo, que se abre pelo acordo entre aquele quem lê e aquele que narra, e torna possível que se realize.

Nas páginas desse pequeno livro (pouco mais de 70 páginas), a autora leva-nos a compreensão de que o ato de aprender permite que reiventemos os sentidos e que nos recriemos nesse processo. A profissão docente, tornada condição, abriga ambivalências e contradições íntimas que nos dizem daquilo que alcança “ser professor”.

Ao longo do livro, vamos percebendo que os lugares de formação são muitos e quanto mais diversos, mais fieis à sua própria característica. A autora se atenta à circunstância que acomete a muitos profissionais da área, que faz borrar a compreensão de que a formação de professores acontece somente nos espaços destinados a esse fim.

A descentralização do sujeito moderno compõe uma percepção de identidade que de fixa e contínua cede espaço para uma nova concepção de sujeito com uma identidade inacabada, fragmentada, aberta e contraditória.

Implica saber, como nasce um professor?

Certamente é o cotidiano de sua prática que lhe forma ao mesmo tempo em que demanda novas sensibilidades.  Afetar-se é a condição primeira de sua possibilidade maior.

Para a autora, é no encontro de matrizes pedagógicas, pela mobilização de caminhos simbólicos, e pela travessia dos sonhos (mobilizados no livro, para a apreensão das características pessoais dos sujeitos no processo de aprendizagem), tendo o sujeito tomado em si, dentro de sua trajetória, que se inquieta, e se insere na busca. O professor é sempre um ser de passagem, e que faz passar.

Ao professor-sujeito é inadiável que faça escolhas e que tenha consciência delas. É na dança das polaridades por meio da preocupação com as diferenças e alteridades que torna faz da reflexão e do ato de refletir: “um exercício não linear, que envolve além da razão a nossa emoção; que articula conteúdos inconscientes – criativos e defensivos – que ora nos possibilitam, ora nos dificultam os movimentos de ampliação da consciência”.

É dessa profissão impossível (como Freud denominada a profissão docente) que nasce a criança, tornada professor, prenhe de vida, capaz de se desdobrar em múltiplas possibilidades, nas quais é possível encontrar-se, perder-se, inventar-se, criar-se e recriar-se continuamente, já que aprender nos toca visceralmente.

Aprender é tornar novo aquilo que outrora desconhecido ilumina nossa própria condição. Aprender marca sempre um nascimento. Como rio que flui, não sem as dificuldades das pedras, aprender é sempre colocar-se a caminho, e é nas trilhas do jagunço Riobaldo que podemos nos encontrar: “Um menino nasceu. O mundo tornou a começar”.


Ecleide Curnico Funaletto possui graduação em Pedagogia (1982), mestrado em Educação (Psicologia da Educação) e doutorado em Educação (Currículo) pela PUC-SP (1997). Atualmente é professora e coordenadora do Programa de Mestrado em Educação da Universidade Cidade de São Paulo – UNICID. Atua na área de Educação, com ênfase em Formação de Professores, desenvolve pesquisas e projetos a respeito de formação de professores, matrizes pedagógicas e aprendizagem de adultos.

(*) joaoprates2009@hotmail.com

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