A montanha que devemos conquistar, de Istvan Mészáros

Samille Schmid Lopes*

Aos colegas pesquisadores, indico hoje um livro que acredito ser de extrema relevância para o momento em que estamos inseridos. Diante de um governo com severas imposições que impactarão de maneira significativa principalmente a vida daqueles que já são desfavorecidos – como por exemplo as reformas Trabalhista e da Terceirização, do Ensino Médio e a prometida reforma da Previdência para 2018, dentre outras medidas provisórias – e ainda a repressão experimentada por vários setores (inclusive a Universidade), considero apropriada a leitura de “A montanha que devemos conquistar”, de Istvan Mészaros.

O autor, conforme nota escrita por John Bellany Foster no próprio livro, “é um dos maiores filósofos que a tradição materialista já produziu. Seu trabalho hoje resiste praticamente só na profundidade de sua análise da Teoria da Alienação de Marx, da crise estrutural do capital, do fim das sociedades pós-revolucionárias de cunho soviético e das condições necessárias da transição para o socialismo”.

A proposta da leitura está na superação do sistema capitalista que impera em nossa sociedade, estabelecendo grandes desigualdades diante dos privilégios de uma minoria. Inegável é o papel do Estado nessa relação, segundo Mészáros (2015), “a Lei se impõe ao decretar categoricamente a viabilidade constitucional de si mesma em sua simbiose com a relação estabelecida de forças, e continua a fornecer sua legitimação pelo Estado com a mesma afirmação categórica enraizada na força, até que haja uma grande mudança na relação das próprias forças”.

Sendo assim, prevalece a “lei do mais forte”, que, conforme o autor, “não pode continuar para sempre”. Acredito que esse posicionamento tem grande relação com nossa realidade, uma vez que, em virtude do “poder dos poderosos” existente com base no capital, vemos o Estado e grandes empresas prevalecerem em suas determinações sobre toda a população, mas não, isso não pode continuar para sempre!

A proposta não é de derrubada do Estado ou de tudo que compõe o sistema capitalista, a saber: capital, trabalho e Estado. Para Mészáros (2015), “as variedades particulares do Estado capitalista podem ser derrubadas, mas não o Estado enquanto tal. Os tipos particulares das personificações historicamente dadas do capital e do trabalho assalariado podem ser juridicamente abolidos, e restaurados, mas não o trabalho e o capital como tais”.

Então, a sugestão de reflexão traz como montanha a “totalidade combinada de relações estruturais do capital que deve ser conquistada em todas as suas dimensões profundamente integradas”. Vemos, então, que o que se pensa vai muito além da ideia simplista de se acabar com a lei ou com o Estado, visto que em nenhum momento é esse o objetivo da leitura, mas sim uma mudança estrutural em tudo aquilo que nos afasta de uma vida justa e igualitária.

De maneira geral e resumida, é este o convite que os faço à leitura! Mais do que ler, convido a refletir, ponderar, exercer sua capacidade de juízo crítico diante do que se tem apresentado a nós como brasileiros, pesquisadores, interessados e dedicados à temática deste jornal de “Pensar a Educação, Pensar o Brasil”.

Vivemos em um sistema que vai além das fronteiras de nosso país, já que obviamente é uma situação global e isso potencializa tudo que nos ocorre e também dificulta a mudança estrutural que precisa ocorrer. Porém, não podemos por isso perder a capacidade de compreender nossa realidade e o que a perpassa, a história que nos trouxe até aqui e os mecanismos que a perpetuam para que não continuemos presos a esse ciclo de desigualdades e falta de oportunidades.

Deixo aos colegas esta recomendação, que acredito ser coerente a nos ajudar ainda a ponderar sobre fatos atuais. É uma obra pequena se comparada às outras do autor, mas também de grande profundidade! Aconselho, além disso, uma leitura atenta, aprofundada e disposta a questionar tanto o conteúdo quanto nossa realidade, onde nos encontramos naquilo que está escrito e como nos posicionaremos diante desses fatos.

No mais, aproveitem a leitura, dependendo de sua linha de estudos podem haver novidades, então sejam pacientes e releiam para melhor assimilar o que está sendo dito e, se necessário, recorram a outros pensadores dessa mesma temática (de qualquer maneira, para novos ou velhos conhecidos da teoria, é uma excelente maneira de se estudar). Façam bom uso do livro, colegas pensadores!

*Samille Lopes é mestranda em Educação e Formação Humana pela Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG. Email: schmid.samille@gmail.com

Referências

MÉSZÁROS, István. A montanha que devemos conquistar: reflexões acerca do Estado. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2015.

http://www.uff.br/trabalhonecessario/index.php/instrucao-aos-autores

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