Vola às Aulas Na Escola Estadual Tiradentes. Curitiba, 10/06/2015. Foto: Pedro Ribas/ANPr

A complexa relação entre educação, pobreza e desigualdade social: o debate com professores da rede pública de ensino

Renata Simões

Hadassa Bremenkamp*

No dia 10 de Maio de 2018, deu-se início ao curso de extensão “A prática pedagógica e o currículo na discussão da pobreza nos anos finais do ensino fundamental”, ofertado aos profissionais de educação de Cariacica, município de Vitória/ES, objetivando ampliar as discussões sobre a pobreza e a desigualdade social e pensar práticas pedagógicas que utilizem o currículo de forma crítica, de modo a refletir sobre a complexidade e contradições da sociedade atual.

O curso constitui-se como importante desafio estabelecido por um trabalho dissertativo elaborado no Programa de Pós Graduação de Mestrado Profissional em Educação (PPGMPE), implantado em 2017, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que traz a proposta de proporcionar formação continuada a profissionais da educação, tendo em vista o lugar essencial que esses profissionais ocupam nos sistemas educacionais, e, portanto, a capacidade que possuem para contribuir no alcance do preceito constitucional relativo ao direito à educação para toda a população brasileira.

O contexto de realização desse Mestrado tem criado condições para que profissionais da educação possam pensar e atuar de modo a construir conhecimentos que ajudem a enfrentar questões que afetam a educação de crianças, adolescentes, jovens e adultos, tanto da escola básica como do ensino superior, e questões relativas à gestão que conduzam à melhoria dos sistemas e dos processos educacionais. É no âmbito desse Mestrado, e com base nas contribuições da pesquisa desenvolvida na Especialização em Educação, Pobreza e Desigualdade Social, ocorrida de 2015 a 2017, na Ufes, que a ação formativa ofertada aos profissionais de Cariacica vem buscando ampliar o debate sobre as questões históricas e sociais da pobreza, visando à articulação do currículo com a prática pedagógica.

Entendendo a pobreza como produto das relações desiguais constituídas historicamente em nossa sociedade, é necessário que essa discussão adentre a escola e que o debate seja realizado por professores, equipe gestora, família e demais sujeitos escolares. Nesse sentido, os profissionais da educação também precisam estar atentos ao modo como a temática é abordada nas práticas pedagógicas cotidianas, no currículo, problematizando ausências e propiciando debates que possibilitem a conscientização dos alunos da escola pública sobre a condição de pobreza que vivenciam.

A desigualdade social tem sido cada vez mais intensa na sociedade e nas relações que a constituem, sendo necessário que a visão moralizante que constitui a pobreza seja superada, pois os pobres não são assim constituídos por escolha. Pelo contrário, o que mais lhes faltam são oportunidades que permitirão escolher e traçar caminhos.

Diante da compreensão dessa realidade, entende-se que a pobreza está presente na vida da maioria das pessoas, das famílias que matriculam seus filhos nas escolas públicas, dos alunos que frequentam aulas no ensino regular. Por isso, acredita-se que a escola, por meio dos currículos e da prática docente, precisa discutir essa temática, afinal, trata-se de um produto que é resultado da estrutura da sociedade. Nesse sentido, a escola pode proporcionar uma análise crítica da realidade, mostrando as condições históricas e sociais que resultaram na desigualdade social em que se vive.

Contudo, a pobreza tem sido vista pelos currículos como carência, sendo a carência material resultado das carências de conhecimento, de competências, carências de valores, hábitos e moralidades (ARROYO, 2013). E, assim, a escola não tem assumido o seu papel de proporcionar o pleno conhecimento da realidade, inclusive, da condição social dos seus alunos.

No âmbito escolar, o professor exerce papel fundamental no processo de conscientização dos sujeitos sobre a real situação de suas existências, pois ele é responsável pela condução do ensino, objetivando a aprendizagem do aluno. É necessário, então, que a prática pedagógica esteja carregada com essas questões que perpassam a vida dos alunos para proporcionar o diálogo e o ensino de forma crítica e que contribua para a emancipação social dos sujeitos de aprendizagem. Afinal, o professor, como mediador do conhecimento, possui importante papel no desenvolvimento do currículo e, portanto, precisa enfatizar as questões que perpassam, de forma direta, a vida dos alunos, possibilitando a compreensão da condição desses sujeitos como resultado de processos históricos e sociais, não aceitando e não legitimando os discursos naturalizantes da pobreza que têm sido hegemônicos.

Todavia, para que isso seja possível, é necessário que o professor desenvolva essa consciência, superando os discursos presentes nos contextos sociais de ampla desigualdade. Para que a prática pedagógica esteja voltada para ações que superem os discursos oficiais da pobreza, o professor precisa se apropriar desse debate para poder proporcioná-lo de forma crítica.

É nesse sentido que o curso vem pensando a pobreza junto aos profissionais de Cariacica/ES. Foram realizados, até o momento, dois encontros, dentre outros seis que serão desenvolvidos, visando ao debate sobre a temática em sua acepção macroestrutural, superando as visões naturalizantes e culpabilizadoras dos sujeitos de tal condição social. Espera-se que esses professores possam estender o entendimento acerca da questão em tela para que práticas pedagógicas comprometidas com a emancipação social se consolidem e, ainda, que o Mestrado Profissional, como processo de formação de pesquisadores comprometidos com a realidade social e educacional, contribua para a aproximação entre universidade e escola e para a elaboração de propostas de avanços educacionais sensíveis às problemáticas da rede básica pública de ensino.

 

Referência

ARROYO, M. G. Os coletivos empobrecidos repolitizam os currículos. In: SACRISTAN, J. G. (Org.). Saberes e incertezas sobre o currículo. Porto Alegre: Penso, 2013.

 

* Aluna no Programa de Pós Graduação de Mestrado Profissional em Educação (PPGMPE/Ufes)

Imagem de destaque: Pedro Ribas/ ANPr

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