Editorial 253 A Escola Educa

A Escola Educa!

Editorial Nº 253, 20 de setembro de 2019

Bolsonaristas de diversos matizes vêm a público, continuamente, para defender que à escola cabe instruir e que à família e, normalmente, à igreja, cabe educar. Essa postura reacionária que nos leva ao final do século XVIII e início do XIX quando, a partir da conjunção de vários fatores, a escola começou a se expandir no mundo ocidental.

Tratava-se, naquele momento, de defender as prerrogativas das instituições tradicionais – igreja e família, notadamente – contra a entrada da escola, uma nova instituição, num terreno que até então havia sido prerrogativa quase que exclusiva delas: a formação das novas gerações, sobretudo das camadas mais pobres da sociedade.

O que se queria evitar é que a escola – pensada e projetada como uma instituição pública moderna, que se propunha a formar os sujeitos para a vida pública, e também para o trabalho e para as próprias relações familiares em rápidas mudanças – desestabilizasse os preceitos e as estruturas autoritárias e machistas umbilicalmente ligadas às igrejas, notadamente a Católica, e a uma educação familiar nitidamente comprometida com a predominância dos valores privados sobre os valores públicos.

Nesta situação, uma discussão que vai marcar a época é justamente sobre as funções sociais, culturais, políticas e econômicas da escola: a esta instituição cabe educar, no sentido amplo do termo, ou simplesmente instruir, eu seja, ensinar os conhecimentos rudimentares necessários a uma integração tranquila das novas gerações na ordem social vigente. No Brasil, a Igreja Católica foi, durante todo o século XIX e boa parte do século XX,  uma intransigente defensora desta última posição, ou seja, a de que cabe a escola pública  instruir, já que às escolas católicas sempre foi reconhecida a competência de educar e instruir.

Na verdade, esta ideia de educar ou instruir é uma falsa dicotomia. Mesmo que considerássemos possível uma situação utópica – ou distópica – em que todos os sujeitos escolares – alunas e alunos, professoras e professores e demais profissionais da escola – simplesmente se ocupassem dos “conteúdos escolares”, como querem alguns, ainda assim a carga educativa seria imensa: com os conteúdos se aprende muito mais do que conhecimentos, mas visões de mundo, epistemologias, valores, modos de classificação social, etc, etc.

Na verdade, uma escola de qualidade socialmente referenciada educa muito mais do que instrui. Mesmo os sujeitos que delas saem “sem nada aprender”, o que é impossível mas que está na boca de muitos dos críticos da escola pública, nela aprendem muitas coisas: preconceitos e a força das diversidades,  modos de violência e modos de acolhimento, os modos de ocupação social e cultural dos espaços e tempos, etc, etc.

Apenas na visão tacanha de muitos bolsonaristas, ou na ausência de uma reflexão mais ampla da parte de muitas pessoas de boa vontade, pode-se supor uma escola que não educa. A escola educa e é essa força educadora da escola e dos movimentos sociais que transforma o mundo social em que vivemos.


Imagem de destaque: Santi Vedrí / Unsplash