Professores

Experiências de intercâmbio: a disciplina “História da Educação, Temas e Problemas”

Elaine A. Teixeira Pereira

A aula como autoria, como processo criador, pode parecer, num primeiro momento, algo comum de se pensar. Algo rotineiro, especialmente entre professores. Ou, entre docentes e discentes da graduação (nas diversas licenciaturas) e da pós-graduação (em educação e áreas afins). Mas arriscaria dizer que não é. A aula como autoria tem a ver com formação, algo que não parece ser a principal preocupação em grande parte desses espaços.

Para ser autor de uma aula é preciso conhecer tecnicamente o assunto, ter um certo repertório no que se refere às habilidades e competências relacionadas à atividade docente, conhecer o público ao qual a aula de destina, ou melhor, junto ao qual a aula se tornará uma realidade e será reinventada. Enfim, são necessários variados “saberes docentes”, nos termos de Maurice Tardif.

Essa breve reflexão sobre “aula” tem bastante relação com a experiência que me proponho a relatar neste escrito, qual seja, a participação na disciplina interinstitucional “História da Educação: temas e problemas” – uma das atividades do intercâmbio realizado no âmbito do Programa de Estímulo à Mobilidade e ao Aumento da Cooperação Acadêmica da Pós-Graduação em Sergipe (PROMOB).

Na verdade, a disciplina em pauta, pela sua natureza e pela interessante iniciativa, mereceria um registro independentemente do intercâmbio realizado. É desenvolvida em parceria por quatro programas de Pós-graduação em Educação de Minas Gerais e ministrada por quatro docentes, cada um representando um desses Programas: Dr. Irlen Antônio Gonçalves, do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET/MG); Dr. Luciano Mendes de Faria Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Dra. Rosana Areal de Carvalho, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP); Dra. Vera Lúcia Nogueira, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).

Em tempos de produtividade e de competição na academia, com foco nas atividades de pesquisa e na publicação de produtos a elas relacionados, reunir Programas e docentes em torno de uma disciplina é, no mínimo, digno de nota. Na iniciativa em tela, diversos são os temas das aulas e os locais que as sediam, pois, cada um dos quatro encontros concentrados (são quatro aulas ao longo do semestre, que acontecem nas sextas-feiras durante o dia e aos sábados pela manhã) é realizado em uma das instituições responsáveis pela disciplina.

Bastante plural é seu público, formado por alunos regulares dos Programas envolvidos, além de outros, que se candidatam a cursar a disciplina na modalidade “isolada”. Esses “alunos especiais” são, em grande medida, professores e professoras da Educação Básica – mais um aspecto que merece menção, tendo em vista a sempre conturbada relação, ou, o hiato, entre universidade e escola básica. Assim, a pluralidade do público, somada aos diferentes temas tratados e aos variados “estilos” de aula, faz a experiência ser muito enriquecedora.

O primeiro dos quatro encontros se deu no CEFET/MG e teve como responsável a professora Vera. Na ocasião, tivemos as duas primeiras unidades da disciplina. Em “História da Educação: ensino e pesquisa”, como o próprio título sugere, foi situada a constituição da história da educação como campo de ensino e de pesquisa no Brasil. Já em “História da Educação de Adultos”, segunda unidade, a professora nos conduziu por parte do que vem estudando e produzindo em suas pesquisas, que tratam especialmente sobre educação de jovens e adultos e escola primária noturna, em Minas Gerais, no século XIX.

O segundo encontro ocorreu na Faculdade de Educação da UFMG e foi conduzido pela professora Rosana, que tratou do tema “História das instituições escolares (ou educativas) em três tempos”. A partir das memórias dos integrantes da turma, em interlocução com a bibliografia de apoio, foram trabalhados aspectos da história das instituições escolares, especialmente as escolas primárias. Na ocasião foi possível rememorarmos nosso processo de escolarização, além de refletirmos sobre as diversas formas e abordagens para o estudo das instituições educativas em perspectiva histórica.

A terceira aula foi realizada na UEMG e ministrada pelo professor Luciano. Para o estudo e discussão do tema “História dos Intelectuais e Educação”, contamos com uma convidada, a professora Leziany Silveira Daniel, docente da UFPR em estágio pós-doutoral na UFMG, que num dos períodos tratou de suas pesquisas acerca da temática. Luciano, por sua vez, falou sobre o conceito de intelectual, a opção política de se trabalhar com a história dos intelectuais, assim como as possíveis abordagens teórico-metodológicas no estudo desses sujeitos (em interlocução com aquilo que produzem e seu contexto sociocultural), especialmente a partir dos trabalhos que vem realizando.

O último encontro aconteceu em Mariana/MG, nas dependências da UFOP. O tema tratado foi “História da Educação Profissional no Brasil”, sob a condução do professor Irlen. Aí pudemos ter uma dimensão das pesquisas que vêm sendo desenvolvidas em torno desta temática, não apenas por Irlen e seu grupo, mas também por outros sujeitos e instituições. Além de conhecer um pouco mais sobre a educação profissional no Brasil, fizemos também uma interessante reflexão sobre o tema “aula”, sobre a docência, inclusive a partir da avaliação da disciplina pelos discentes e docentes presentes. A ideia da aula como autoria, já explicitada por professor Luciano, foi então retomada e materializada. Tais reflexões alimentaram a escrita dos primeiros parágrafos do presente relato de experiências.

Cada conjunto de aulas foi ministrado de uma forma, num processo de reinvenção constante. Os outros professores presentes, além do/a responsável pela condução, enriqueceram os encontros com suas considerações, num diálogo entre docentes e discentes. A relação de proximidade e leveza, acrescida da forte parceria entre os quatro professores, fez com que as aulas seguissem num clima agradável. Isso sem contar com o privilégio de ter quatro docentes e pesquisadores experientes e reconhecidos em uma mesma sala!

Um aspecto que se poderia considerar é que a disciplina, de certa forma, não aprofunda as discussões realizadas, mas isso seria cobrar algo a que não se propõe, e que nem poderia se propor. A forma como está organizada e os objetivos aos quais atende estão relacionados à horizontalidade: contato com algumas temáticas no âmbito da história da educação e as pesquisas que em torno delas vem sendo desenvolvidas. Uma disciplina, portanto, introdutória, ou de ampliação de horizontes. Nos dois casos, altamente relevante.

Talvez aqui seja pertinente retomar a reflexão sobre aula, sobre formação. Ou, sobre diálogo e formação na pós-graduação. O processo de formação acadêmica é algo bastante complexo e não pode se encerrar na verticalização e na especialização. Tem a ver com a ampliação dos horizontes. Não se forma bem alguém pelo acesso apenas ao “conteúdo”, à área restrita que se deseja conhecer, seja ela qual for. É formação, inclusive, se for mais ampla, se ultrapassar a especialização (sem deixar de conter alguns de seus elementos). O desafio de se especializar, mas, ao mesmo tempo se formar: equilíbrio necessário a ser buscado na pós-graduação stricto sensu.

Encerro este texto agradecendo aos professores e colegas da disciplina “História da Educação, temas e problemas” pela convivência, pelas aprendizagens, enfim, pela significativa experiência de formação.

Ilha de Santa Catarina, primavera/2017

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