Coloquio

Relatos de uma “promobista”

Quando escrevo, repito o que já vivi antes.

 E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente […].

Guimarães Rosa, 1957

Laísa Dias Santos

 

O poeta mineiro tinha razão! Ao pensar como escrever as experiências vivenciadas a partir do Programa de Estímulo à Mobilidade e ao Aumento da Cooperação Acadêmica da Pós-Graduação – PROMOB, me vi em meio a um emaranhado de imagens, sons, cores, cheiros e sabores. Não consegui me desvencilhar do que vi/ouvi/senti/aprendi/(des)construi e vivi desde a chegada em Minas Gerais no dia 02 de março de 2016 para participar da missão de estudos realizada pelo projeto “Pensar a Educação, Pensar o Brasil”. Vários léxicos não seriam capazes de descrever tamanho deleite! Por isso recorri a Guimarães Rosa, a fim de encontrar ajuda para narrar a “[…] montanha, o espaço erguido, a constante emergência, a verticalidade esconsa, o esforço estático; […]Aguarda-nos amparada, dada em neblinas, coroada de frimas […]. O quanto que envaidece e intranquiliza, entidade tão vasta, feita de celebridade e lucidez, de cordilheira e História. De que jeito dizê-la? Minas: patriazinha. Minas — a gente olha, se lembra, sente, pensa […]”.

A partir do PROMOB participei nos anos de 2016 e 2017 de dois Colóquios de Verão realizados pelo Projeto “Pensar a Educação, Pensar o Brasil”, este que está atrelado ao Projeto Moderno, Modernidade e Modernização – PMMM. Ambos realizaram-se na Pousada Palavras Novas, no Distrito de Lavras Novas, município de Ouro Preto-MG, em suas 12º e 13º edições. Tais missões de estudo encantam, motivam, despertam, inquietam e possibilitam amadurecimento intelectivo pelo contexto no qual vem se desenvolvendo há 13 anos seguidos: chão de cimento queimado; fogão à lenha; chaminés ativas e fumaça subindo pelo céu; o feijão tropeiro; o franguinho caipira; o pão de queijo e biscoitos caseiros; o “jeitin” mineiro de falar;  o acervo arquitetônico e artístico do período colonial brasileiro; o vento frio amenizado pelo calor das discussões e acolhida dos colegas; o entrosamento, a seriedade e compromisso com a pesquisa em educação; a densidade dos estudos e das horas a eles dedicadas, mediatizadas por um clima de respeito, acessibilidade e parceria entre graduandos, mestres e doutores.

No 12º Colóquio de Verão, realizado entre os dias 03 e 05 de março de 2016, foram discutidas temáticas como economia política, direitos humanos e ideologia racial, tendo como conferencista o professor Fausto Reynaldo Alves de Brito (UFMG). Ao tentarmos entender a história do Brasil pelo viés da Educação, alguns posicionamentos trazidos na fala do conferencista, especialmente no texto de sua autoria intitulado “A ruptura dos direitos humanos na filosofia política de Hannah Arendt”, me foram caros.  Isso porque as discussões estiveram atreladas a uma crítica à Teoria Econômica Convencional restrita ao trabalhador como alguém que apenas vende sua força de trabalho no mercado. Em se tratando de venda da força de trabalho, haveria aqueles que só teriam uma alternativa, na maioria das vezes, sujeitos sem estudo, e os que teriam mais de uma alternativa, tendo, dessa forma, possibilidades de escolha entre profissões. Como formas de ascender profissionalmente e pessoalmente haveria caminhos menos árduos o que envolveriam profissões que naturalmente têm status na sociedade, como a medicina e o direito. Como percursos mais árduos estariam as profissões em que o sucesso está em menor esfera, ou seja, se restringe ao meio profissional, como por exemplo a academia. Foram ainda levantadas possibilidades de análise que levassem em consideração a dimensão subjetiva do sujeito, sua autonomia e capacidade de escolha e resistência. Como uma “empresa”, ele poderia se tornar um novo “homo economicus” que assumiria uma nova dimensão: ele seria dotado de capital – capital humano. Haveria desse modo, maneiras de ser “empresário de si mesmo”.

No ano seguinte, entre os dias 16 e 18 de fevereiro, realizou-se o 13º Colóquio de Verão. No primeiro dia fomos convidados pela professora Claudia Andréa Mayorga Borges (UFMG), a pensar a educação a partir do feminismo. A igualdade entre homens e mulheres, como característica do que a professora chamou de “feminismo liberal”, faz parte de uma crítica a modernidade e especialmente aos princípios de liberdade e igualdade. Como fica a ideia de cidadania que exclui mulheres? Qual a maior opressão: a de classe ou a de gênero? Como designar o feminismo dentro da perspectiva de justiça social? Se os outros somos nós, quem é você? Estes foram alguns dos questionamentos que aqueceram as discussões acerca da luta em defesa da igualdade de direitos sexuais. Uma batalha que encontra-se por vezes “interseccionada”  em movimentos sociais que levantam a bandeira do feminismo, mas que se fragmentam entre o feminismo negro, feminismo burguês, feminismo indígena, feminismo pobre, feminismo LGBT, dentre outros. Esta pluralização do sujeito da política acaba, por vezes, diminuindo a força dos Movimentos Sociais que buscam, neste caso específico, uma “mulher universal”. Para tanto, retomo as palavras da professora: “é necessário embranquecer o pensamento!”

Nos dias seguintes fomos chamados pela professora Ângela Maria Alonso (USP) a pensar o país através da “falta e, o indivíduo, em suas relações”. Nesse sentido, ela buscou fornecer uma visão do abolicionismo como primeiro movimento social de massas do país. Este que não foi “obra de escravos”, nem tão pouco como “graça de princesa”, foi para a autora fruto de uma relação entre movimento social, Estado e contra movimento (escravocratas). Nas palavras de Alonso, “as conjunturas políticas são a chave para entender todas as táticas abolicionistas”. Esse jogo de forças foi analisado no seu livro “Flores, Votos e Balas” e apresentado na missão de estudos. O título do livro faz alusão a três fases do movimento abolicionista. A primeira, das flores (1868-18678), representa as ações abolicionistas no espaço público do país. A segunda, dos votos (1878-1885), diz respeito a fase na qual os integrantes do movimento social buscaram aliados fora do Estado-nação para pressionarem o Estado a fazer as reformas demandadas; e a terceira, das balas (1885-1888), quando os abolicionistas incentivaram as fugas em massa dos escravos.

No último dia do encontro Alonso apresentou o funcionamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP, do qual é presidente.  O foco do CEBRAP é “a análise e intervenção na realidade brasileira, com um estilo de trabalho próprio, que enfatiza a comparação, combina especialização e interdisciplinaridade, em diálogo constante entre as diferentes perspectivas teóricas e metodológicas de seus antropólogos, cientistas políticos, demógrafos, economistas, filósofos, historiadores, juristas e sociólogos” (http://cebrap.org.br/nucleos).

Como fruto das participações nestes dois anos de Colóquio viabilizadas pelo PROMOB posso destacar que conheci um estado encantador pela sua culinária, natureza, história e cultura; estabeleci parcerias de pesquisa; estudei e discuti aportes teóricos e metodológicos dos quais ainda não tinha proximidade, como a História dos Intelectuais e encontrei um objeto de estudo para o doutorado em educação, este que buscava pleitear no final do ano de 2016. Foi nesse contexto que elaborei a proposta de compreender o “Lugar da Educação nas Gerações de Intelectuais Luso e Brasileira da década de 1870”.

Por fim, e me valendo ainda da ajuda de Guimarães Rosa, questiono-me de que jeito descrever o ser uma “promobista”. Depois de olhar, lembrar, sentir e pensar, concluo que não se trata de uma participante em um “evento”, mas de um sujeito que esteve envolvido em um encontro intelectual, cultural, gastronômico, arejado e alegre com pessoas comprometidas com o desafio de pensar a educação, pensar o Brasil.

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