Obras Raras

A Biblioteca da UFMG: Obras Raras e Livro de Artista

Gabriela Albanás Couto

Tatiane Modesti

No dia 14 de julho de 2017 a Biblioteca Central da UFMG recebeu a visita dos intercambistas do PROMOB. A atividade aconteceu dentro da programação do Intercâmbio do programa, organizado pelos representantes do mesmo na UFMG. Experiência enriquecedora e com certeza um dos pontos altos de todo o intercâmbio, nesta visita pudemos conhecer as coleções Obras Raras e Livro de Artista. Essa foi uma das mais inesquecíveis experiências que tivemos, principalmente em se tratando de pesquisadores em história da educação.

Fomos recebidos pela bibliotecária Diná Marques Pereira Araújo, que demonstrou e nos contagiou com sua postura de cuidado, dedicação e respeito pelo trabalho de restauração e de preservação de obras de grande significado histórico.

Por ser uma biblioteca muito antiga, completará 90 anos com a universidade, seu acervo é composto por obras que datam o início do século XX. Mas não somente essas, a biblioteca recebeu inúmeras doações de acervos particulares ou de relevância histórica em sua fundação e ao longo do tempo, de forma que encontramos obras e documentos que chegam a datar do século XV. Estas publicações compõem a Coleção Obras Raras, material tratado com excelência técnica por Diná, e cuja visitação pode ser agendada. Um exemplo do que vimos é o testamento original de Martim Afonso de Sousa, feito ao deixar Portugal em expedição ao Brasil no século XVI, doado à biblioteca por Assis Chateubriand. Encontramos também  exemplares da Encyclopédie, do final do século XVIII, e parte da coleção do inventário descritivo do Egito, elaborado por ilustradores de Napoleão Bonaparte. Ainda, uma obra de Aristóteles que data de 1575, um livro original de Galileu Galilei, de 1655, e uma obra de Erasmo de Roterdã (sem data).

Diná nos explicou com cuidado cada detalhe dessas obras, seja no formato, na impressão, na gramatura e tipos de papel e nas encadernações. A bibliotecária destacou a importância do trabalho de higienização e preservação do formato original, evitando-se uma encadernação que modifique, esconda ou que destrua os vestígios do tempo, pois eles também dizem muito cada sobre cada edição.

Finalizada a visita ao setor de Obras Raras, ainda extasiados, chegamos à Coleção Livro de Artista. Segundo Diná, esta é a maior e mais diversa coleção deste segmento no Brasil. A Biblioteca trabalha em parceria com o professor Amir Brito Cadôr, da Escola de Belas Artes da UFMG, pesquisador do tema e principal curador da coleção. Sendo a primeira coleção de Livro de Artista em biblioteca pública do Brasil, são 600 obras catalogadas e mais 500 em fase de catalogação. Diná nos explicou o desafio de trabalhar com a catalogação destes livros, que são um misto de literatura com obra de arte. Muito interessantes e inusitados, estes livros conseguem provocar uma discussão sobre o que é um livro e faz repensarmos a nossa relação com o espaço da página e com o suporte livro como um todo. O que é um livro? O que é um texto? O que é uma obra de arte? Quais são os limites? Eles existem?

O surgimento dos livros de artista data da década de 1960, período de rupturas nas artes visuais em que se provocou uma quebra de barreiras entre as diferentes formas de arte. Data desta época também o termo cunhado por Dick Higgins, “intermídia”, correntemente utilizado nos dias de hoje. O livro de artista é um exemplo de intermídia por excelência. Além das rupturas estéticas, o livro de artista também promove uma discussão em torno da noção de autor e de novas formas de pensar autoria, apropriação e plágio. Tal discussão nos remete a obras como A morte do autor, de Roland Barthes, e O que é um autor?, de Michel Foucault. É do holandês Ulisses Carrión a obra A nova arte de fazer livros, que tem servido de referência às pesquisas do professor Cadôr em relação ao livro de artista.

Duas problemáticas que surgem em torno desta coleção: a aquisição dos livros e o empréstimo. A aquisição dos livros para a composição do acervo da biblioteca tem sido um problema uma vez que são obras de tiragem limitada e que circulam no circuito artístico e não no comercial. Em relação ao empréstimo, também surgem complicações à medida que cada exemplar é único e considerado uma obra de arte. Assim, eles ficam disponíveis apenas para consulta local mediante agendamento com o setor responsável.

Depois de uma aula de história – do livro, da literatura e da arte – impossível não sentir-se entusiasmada(o) com o tema da produção do conhecimento, de suas formas de registro e de divulgação ao longo do tempo, desde os primórdios da prensa aos dias de hoje, dos escritos de Ovídeo e de Galileu aos inusitados e inovadores livros de artista. Para nós que vivenciamos estes momentos durante o intercâmbio foi uma oportunidade muito importante de ampliação de capital cultural, que dificilmente teríamos não fosse essa possibilidade de estar em uma instituição tradicional, bem estruturada e historicamente consolidada como a UFMG.

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