Colóquio

Relato do Colóquio de Verão do Projeto Pensar a Educação Pensar o Brasil

Mariângela Dias Santos Lobo

Durante os dias 16, 17 e 18 de fevereiro de 2017 foi realizado na cidade de Lavras Novas, MG, o Colóquio de Verão do projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil, no qual tivemos a oportunidade de conhecer os trabalhos de duas professoras. No dia 16 a professora Cláudia Mayorga (UFMG) debateu o tema “Questões Raciais e Questões Feministas: perspectivas do Sul”, falando sobre os movimentos de gênero e desigualdade. Sua palestra mostrou a importância das dinâmicas sociais e políticas frente à luta sobre a compreensão dos termos gêneros e desigualdades, sobre a ótica do eixo econômico, e de modo especial explicou a intervenção dos movimentos sociais e as dinâmicas psicossociais de resistência. As perguntas principais de sua palestra foram: o que muda quando sujeitos negros ou índios da periferia constroem a ciência? Como a universidade vê a ciência construída pela visão desses sujeitos? Sua palestra defendeu a construção da ciência a partir de trabalhos concretos, para isso trouxe a citação de Hamilton Borges, o qual diz que não era para reivindicar e se criar uma lógica de alta gestão dentro dos movimentos feministas. A discussão sobre o movimento negro no Brasil permitiu compreender o tipo de conexão e equivalência sobre esse movimento, observando de que forma compartilhamos historicamente as performances destes movimentos. Claudia trouxe o exemplo da Revolução Francesa para falar sobre o movimento feminista, bem como o exemplo do livro Emílio, de Rousseau, mostrando como as mulheres foram e continuam excluídas, distinguindo como são vistos os termos “mulher pública e homem público”. Para falar sobre gênero e classe exemplificou a dica de assistir ao filme “As sufragistas”, informando como se organizam os grupos para mobilizar uma estratégia de ação para a legitimação de uma luta de classe ou de uma luta de gênero, como representado pelo filme citado anteriormente. Para falar sobre os direitos sociais e as desigualdades com as mulheres utilizou-se dos textos de Beth Frida, bem como de outros teóricos para elencar exemplificações sobre o racismo presente no próprio movimento feminista. Essas discussões mostram os tipos de práticas de preconceito dentro de um processo opressivo que opera sobre uma ação política perante as mulheres. As outras dentro do próprio movimento são as negras, as bissexuais e as lésbicas.

Nos dias 17 e 18 de fevereiro tivemos a oportunidade de conhecer a professora Ângela Alonso, no qual falou sobre a sua participação no CEBRAP e também da construção de seu livro “Flores, Votos e Balas: o movimento abolicionista brasileiro de 1868 a 1888”. Este recebeu o prêmio Jabuti, com uma abordagem atual sobre o conceito de repertório, apropriado dos textos de Charles Tilly. Ângela Alonso explicou a construção de seu livro, a abordagem metodológica definida, o encontro com as fontes, e de que forma utilizou-se delas para falar que o movimento abolicionista não aconteceu de forma tão tranquila como a História da Educação vem ressaltando durante esses longos anos. Em seu texto apresentou alguns sujeitos considerados importantes para a consolidação do movimento abolicionista: José do Patrocínio, André Rebouças, Castro Alves, Abílio César Borges e Paulino José Soares de Souza. Estes sujeitos estiveram envolvidos numa rede de sociabilidades para a consolidação desse movimento no Brasil. Contudo, a construção de seu texto não se prendeu apenas a falar desse movimento no Brasil, como também informar o repertório utilizado por estes sujeitos para a legitimação do movimento. Apresentou como esses sujeitos se envolveram em estratégias de oportunidades para firmar a consolidação do movimento e para libertar os escravos. Esse movimento foi constituído a partir de flores, pois, após finalizar as apresentações teatrais, os abolicionistas libertavam escravos no palco e entregavam flores. Votos porque estes sujeitos assumiam cargos políticos que permitiram organizar o movimento abolicionista e balas porque esse movimento não foi tão tranquilo, sendo formado por revoltas, tensões, conexões e conflitos, como foi ressaltado em texto de Alonso, Repertório conflituoso. Ela trouxe também conceitos de estratégias de oportunidade, estratégias de conflito bem como as performances que foram constituídas para a legitimação desse movimento.

Considero, enquanto estudante do doutorado em educação na Universidade Tiradentes, esse encontro muito pertinente para a consolidação de nossos textos e de nossas pesquisas, visto que fui privilegiada por estar trabalhando com conceito de repertório em minha tese, intitulada “Migração de ideias: o método intuitivo em Sergipe 1905-1930”. A partir desse encontro foi possível delimitar como seria esquematizada minha tese, selecionando o aporte teórico utilizado pela professora Ângela para compreender como os professores da Escola Normal de Sergipe construíram seu repertório cultural para a difusão do método intuitivo em Sergipe. Por esse motivo foi de grande relevância a minha participação neste Colóquio, e como integrante do projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil, contribuiu para meu amadurecimento teórico e intelectual.

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