SBPC

Um resumo da 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

Gabriela Albanás Couto[1]

Gustavo Santos[2]

Tatiane Modesti[3]

 

Um dos momentos iniciais de nossa missão de estudos foi a participação na 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ocorrida na UFMG entre 16 e 22 de julho de 2017. Logo nos primeiros dias em terras mineiras já nos deparamos com um evento grandioso e extremamente importante, que nos mostraria o quão intensa seria nossa experiência aqui.

A SBPC é um fórum de discussão e divulgação da pesquisa científica, mas o diferencial do evento é que ele ultrapassa os “muros” da universidade, sendo pensado para além da academia. As palestras e conferências abordaram temas atuais e de interesse coletivo, nas mais diversas áreas, trazendo para dentro da universidade um público não acadêmico ou profissional das mais diversas áreas ligadas à ciência e à tecnologia.

Como intercambistas, nos sentimos privilegiados em participar de um evento tão rico, no qual pudemos nos atualizar sobre temas e discussões mais recentes de nossa área de atuação, a educação, e conhecer ainda o que as demais áreas do conhecimento vêm construindo, quais são seus enfrentamentos e avanços.

Das atividades que participamos destacamos a conferência de Marcos Cezar de Freitas (UNIFESP), intitulada “A educação nos novos intérpretes de Brasil”. O professor iniciou a fala a partir da compreensão de uma intelectualidade intérprete do Brasil que se configurou no final do século XIX, até as décadas de 1940 e 1950 do século XX. A intenção era demonstrar o lugar ocupado pela educação nas clássicas interpretações que, quando muito, aparece em relação à “educabilidade” do povo. A educação não era uma preocupação e aparece “descolada” de outras matrizes interpretativas. Claro, é preciso considerar as obras A Cultura Brasileira, de Fernando Azevedo ou intelectuais como Anísio Teixeira e Paulo Freire. O que o professor Marcos expôs, no entanto, foi a ausência da educação como um problema de Brasil fora do meio educacional.

Para o professor Marcos, hoje novos intelectuais se propõem a interpretar novamente o Brasil, mas alguns trabalhos insistem ainda em omitir a educação. O professor fez uma crítica às formas midiáticas de degradação da escola pública no Brasil, que, de certa forma, contribuem para o seu sucateamento e falta de investimento.

Continuando nossa passagem pela SBPC, priorizando as atividades referentes à educação, destacamos também a conferência da Professora Ione Ribeiro Valle (UFSC), intitulada “(In)justiça escolar no Brasil”. Em sua fala, a professora apresentou uma perspectiva histórica do conceito de justiça, suas modificações ao longo do tempo, para, a partir daí, buscar compreender os sentimentos de injustiça. Valle problematiza a questão do acesso à escola no Brasil, quando afirma que a expansão do sistema de ensino não reflete, necessariamente, na sua democratização, sendo nosso processo de democratização paradoxal neste sentido. Conclui afirmando, com bases em suas pesquisas, uma grande desigualdade distributiva das oportunidades de acesso à educação básica e, especialmente, à universidade, o que acaba por vezes sendo naturalizado na sociedade devido à meritocracia escolar, visto que “os bons” seguem adiante.

A terceira conferência que destacamos é a do Professor Luiz Antônio C. R. da Cunha (UFRJ), intitulada “Desafios do Estado laico na contemporaneidade”. A Conferência partiu de pesquisa feita pelo professor Cunha em 18 países, com vistas a realizar um panorama mundial a respeito da laicidade na atualidade. De acordo com Cunha, são características de um Estado Laico:

– O Estado laico é imparcial em matéria de religião. Aquele que respeita, mas não favorece, nem dificulta ou financia qualquer religião, e não persegue os contrários;

– O Estado laico não pode admitir que instituições religiosas imponham que leis sejam aprovadas ou vetadas com base nos seus valores particulares, nem que políticas públicas sejam mudadas por causa deles;

– Os religiosos têm o direito de influenciar e defender seus preceitos, mas não podem transformar isso em lei para impor a todos;

O professor apresentou como desafios do Estado Laico na contemporaneidade a fusão do campo religioso com o político, a normatização discriminatória do campo religioso (positiva e/ou negativa), o protagonismo religioso sectário dos atores políticos, a manipulação das demandas religiosas para a conquista ou a consolidação do poder político, a atuação ineficaz de instâncias supranacionais e ambiguidade da legislação e suas concepções.

Cunha apresentou, para desafio explicitado, exemplos de países que vivem tais processos, e destacou que o Brasil possui todos estes desafios. O professor também mostrou países em transição bem sucedida – Cuba e Bolívia – e ainda frisou que a laicidade é um processo, que avança e recua.

A SBPC, desta e de muitas outras formas, promoveu muitas discussões na área de educação, tão importantes quanto as relatadas acima. O evento debateu também saúde, tecnologia, política, sociedade. Discutiu a ciência e sua função social. Mostrou para os jovens como se pensa e como se faz ciência no cotidiano. Apresentou os avanços nas áreas científicas e tecnológicas do Brasil. Manifestou seu repúdio ao contingenciamento de recursos e aos ataques aos centros de pesquisa universitários, alertando-nos sobre a atual situação do país. Inaugurou o “Tesourômetro”, uma espécie de calculadora permanente que contabiliza os cortes de verbas que o Governo Federal vem fazendo nas áreas de ciência e tecnologia.

A SBPC em suas várias frentes de trabalho – Jovem, Afro-indígena, ExpoT&C e Educação – foi um evento muito mais que cultural, foi uma amostra de diversidade, com apresentações artísticas, música e arte que encantaram e ensinaram não apenas a comunidade acadêmica participante, mas, também, as diversas escolas públicas de educação básica que observamos  participando intensamente das exposições existentes no evento.Foi realmente muito bonito de ver o rosto de alegria, curiosidade e encantamento das crianças ao passar pelos estantes. Sem dúvida, participar da SBPC foi uma oportunidade muito cara e de grande peso para nosso intercâmbio e nossa formação científica e cultural.

[1] Doutoranda em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

[2] Doutorando em Educação na Universidade Tiradentes (UNIT).

[3] Doutoranda em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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