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“Você não sabia que eu estava a sua espera”?

Um convite à leitura de A origem dos outros, de Toni Morrison

Alexandra Lima da Silva

Pertencimento. Eu passei o último ano a procura de pertencimento, pois vivi num país estrangeiro durante todo o ano de 2019. Senti toda a intensidade de ser uma outra. Fui aleatória por 1 ano.  Na constante busca por pertencer a algum lugar, me encontrei no Harlem, pois foi lá que me senti acolhida nesta experiência de viver longe de casa. Mas mesmo no Harlem, eu ainda era uma estrangeira. Ler A origem dos outros me reconectou novamente com essa minha experiência recente, a de viver por 1 ano nos Estados Unidos, país em que construir muros tornou-se política de estado.

Nos Estados Unidos, houve um longo processo histórico de transformar a população negra em o outro. E não é fácil ser o outro nos Estados Unidos. Também não é fácil sentir-se o outro no seu próprio país e é assim que me sinto algumas vezes também no Brasil.

Logo após concluir a leitura de A origem dos outros, foi noticiado que o novo coronavírus mata mais a população negra nos Estados Unidos, o que pode ser explicado pela maior vulnerabilidade social que historicamente atinge a população afrodescendente naquele país.

Em A origem dos outros, Toni Morrison procura realizar algumas “conversas sobre raça”, a partir da reunião de seis ensaios sobre racismo e literatura para o ciclo de palestras que a premiada escritora ministrou em Harvard no ano de 2016. A primeira edição foi publicada nos Estados Unidos em 2017 e no Brasil, em 2019, alguns meses depois da morte de Toni Morrison.

Nascida no estado de Ohio no ano de 1931, Toni Morrison nos brinda com textos produzidos a partir de refinada experiência autoral, pois além de analisar obras literárias de autoria de terceiros, ela explora com muita elegância sua própria produção, em livros como o Olho mais azul e Amada. A respeito de experiências violentas como a escravidão, Toni Morrison defende que que há uma “necessidade de confirmar a própria humanidade” quando são cometidos atos desumanos. O processo de criação da outremização trazia conforto moral para o escravizador, pois “a necessidade de transformar o escravizado numa espécie estrangeira parece ser uma tentativa desesperada de confirmar a si mesmo como normal”. Ainda segundo a autora, “o risco de sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro. Perder o próprio status racializado é perder a própria diferença, valorizada e idealizada”. Mas Toni Morrison não fala apenas da escravidão. Ela fala também da violência policial em relação a população negra nos Estados Unidos, do processo de encarceramento de massas, a xenofobia em relação a latinos e asiáticos. Morrison fala dessa necessidade constante de se controlar o outro. A autora também fala da existência de um letramento nos códigos do racismo, pois “já que ninguém nasce racista, e tampouco existe qualquer predisposição fetal ao sexismo, aprende-se a Outremização não por meio do discurso ou da instrução, mas pelo exemplo”. Há uma ilusão de poder no longo processo de invenção do Outro.

Num tempo de intenso movimento de pessoas pelo mundo, “por que deveríamos querer conhecer um estrangeiro quando é mais fácil nos isolarmos uns dos outros? Por que deveríamos querer diminuir a distância quando podemos fechar o portão?”. Em tempos de indiferença à vida, é preciso preservar nossa humanidade. Permanecer humano é também, impedir a desumanização e a exclusão de outros. É chegada a hora de abraçarmos afetuosamente a todos os outros que nos esperam.


Referência:

MORRISON, Toni. A origem dos outros. Seis ensaios sobre racismo e literatura. São Paulo: Cia das Letras, 2019.

Imagem de destaque: Cia das Letras/Reprodução

This Post Has 2 Comments
  1. Estou maravilhada e triste ao mesmo tempo… digo maravilhada,pois através deste texto pude sentir o quanto a obra de Toni Morrison, intitulada “A origem dos outros”é importante nesse momento que vivemos. Justamente, por abordar temas como, as experiências violentas durante a escravidão, o velho e conhecido processo de outremização, a xenofobia, o sexismo, enfim. Percebo que somos convidados/as a pensar na possibilidade de se conceber uma educação engajada, que promova,sobretudo, discussões acerca dessas temáticas,sendo que no sentido de se construir pontes, caminhos ou meios de abolir, mesmo que a passos lentos toda essa enfermidade contida nas sociedades contemporâneas.De certa forma, também me sinto triste, pois o psiquiatra e filósofo Frantz Fanon, já denunciava tudo isso e muito mais, através da obra Pele Negra Máscaras Brancas. O filósofo que morreu de pneumonia em 06 de Dezembro de 196, tinha uma certa preocupação em relação marcas e cicatrizes deixadas nas mentalidades e nas estruturas sociais, as quais experimentaram o terrível sistema de colonização. É com certo ressentimento que constato que no século XIX estes problemas permeavam diferentes esferas sociais e reverberam até hoje nos âmbitos educacionais, da saúde e principalmente nas relações humanas.

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