Vocacional –

VOCACIONAL: a escola que incomodou o regime civil-militar

Luiz Carlos Castello Branco Rena

Já se passaram mais de 70 anos da histórica proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos – DUDH. No decorrer dessas sete décadas o mundo viveu transformações profundas em todas as dimensões. Escolhas sócio-políticas e econômicas impactaram definitivamente a história e as condições de vida de populações inteiras nos cinco continentes. O mundo de 2019 é um outro mundo e algumas questões se impõe: Seria a DUDH um documento ultrapassado condenado aos arquivos da história? Como seria o mundo e a vida em sociedade se essa Declaração não existisse? Certamente, haverá muitas divergências nas respostas à essas indagações, mobilizando um debate necessário sobre a eficácia das pactuações de abrangência mundial num mundo caracterizado pela pluralidade cultural e diversidade de costumes. Mas, podemos arriscar uma afirmação: Mais do que nunca, um parcela majoritária da humanidade, em sua maioria vivendo na parte sul do mundo, precisam dessa Declaração como instrumento de defesa de sua dignidade.

A Escola e outras organizações que envolvem as pessoas em práticas educativas ocupam um lugar privilegiado no movimento de disseminação da DHDU, bem como da promoção de atitudes alinhadas com o cumprimento dos Direitos Humanos e na defesa de pessoas violadas ou ameaçadas nos seu direitos. Havendo vontade política, os projetos político-pedagógicos e os currículos podem e devem dialogar com a DUDH, permitindo o acesso ao conteúdo da DUDH e também a sua vivência prática.

A experiência de uma Escola comprometida com a promoção e defesa da dignidade humana está relatada no emocionante trabalho do cineasta Toni Ventura. “Vocacional: uma aventura humana” (Brasil, 2011) resgata em documentário a história dos seis Ginásios Vocacionais que integraram um projeto piloto do Governo do Estado de São Paulo nos anos 60: experiência de radicalização do pensamento escola novista. Nas imagens e nos depoimentos os ex-alunos nos oferecem uma visão do que significa viver a escola como experiência de liberdade, onde estudantes, professores, direção e familiares compartilham do protagonismo de produzir uma educação libertária e libertadora num contexto de aprofundamento do Estado de Exceção e desrespeito aos Direitos Humanos.

O discurso e a prática dos gestores da educação pública no Brasil atual deixa claro que estamos reeditando o passado com outros personagens e de forma mais sofisticada. A truculência que alcança a comunidade escolar não chega de coturno e fuzil, mas vem pela redução drástica do financiamento, pelas suspensão de serviços básicos importantes no dia-a-dia da escola e pela interferência direta nos processos internos de decisão da escola.

O documentário de Ventura nos permite acessar uma página importante da História de Educação e nos obriga a relativizar os eventos da história recente que preocupam quem preza pela liberdade e se esforça para construir uma escola democrática e plural. O Movimento Escola sem Partido que reivindica a volta ao passado muito anterior ao tempo dos Ginásios Vocacionais é um sintoma do nosso tempo. Não é porta-voz de um pensamento hegemônico e não é definitivo.

Convido a todos e todas para assistir “Vocacional: uma aventura humana”, evitando o saudosismo, e extraindo daquela experiência a esperança necessária para seguir na luta e na certeza de que é possível inovar, sonhar com uma escola em que o Direitos Humanos se traduzem em gestos e posturas no cotidiano da sala de aula e do país.


Imagem de destaque: Turma do Ginásio Estadual Vocacional de Americana. Reprodução/Livro: Revolucionou e acabou?

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