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Ilustração Currículos – Coffee Bean   Pixabay

Variações sobre o Lattes – II

Alexandre Fernandez Vaz

Agradeço a Bruna Avila Silva pelo intercâmbio de ideias sobre temas que aparecem neste e no texto que lhe foi anterior. Sem responsabilidade.

Agradeço a Bruna Avila Silva pelo intercâmbio de ideias sobre temas que aparecem neste e no texto que lhe foi anterior. Sem responsabilidade.

A semana passada nos brindou com, finalmente, um novo Ministro de Estado da Educação. Depois que Abraham Weintraub deixou o país ainda na função, para logo ser exonerado em data retroativa, a cadeira vinha sendo ocupada de forma interina. Um candidato a ela foi demitido sem tomar posse, outro (que dedicou um livro à existência do dinheiro, mas diz hoje arrepender-se disso) recusou o convite, um terceiro aguardou o aval de seguidores de Olavo de Carvalho para a efetivação que não aconteceu. Aliás, que este senhor ainda seja referência de orientação para membros e apoiadores do governo, ano e meio depois do início do mandato de Jair Bolsonaro, é mostra (não que precisássemos de mais uma) do atoleiro em que estamos metidos. Diz-se que o ex-professor de astrologia é um intelectual conservador. Falso. É um anti-intelectual reacionário. Como escreveu o saudoso Ruy Fausto, o rigor de Olavo só se encontra nos palavrões que pronuncia.

O recém-indicado Ministro é Pastor Presbiteriano. Fôssemos um país de efetivo republicanismo, não haveria qualquer problema nisso, a liberdade de crença é ponto inegociável numa democracia. Mas, dada a regressiva relação entre Estado e Religião, podemos supor a incorporação de novos tópicos na agenda de disparates com a qual já nos acostumamos. Posições sobre o caráter positivo dos castigos corporais na educação, ou a respeito da suposta libertinagem sexual ensinada em universidades, professadas em anos recentes por Milton Ribeiro, não nos dão muita esperança.

A absurda pauta que o governo e seus seguidores nos colocam – armadilha em que com frequência caímos – exige esforço para pensar em questões que seguem importantes, mesmo estando fora do que supomos ser a demanda do dia. Aproveito a demissão de Carlos Alberto Dacotelli, assunto já velho a essas alturas, para um comentário sobre as expectativas que temos sobre a etapa de formação que hoje habilita para a pesquisa e a educação superior de melhor qualidade, o doutorado.

Já houve tempo e lugar em que o doutoramento se resumia à pesquisa, redação e defesa de tese, considerando que se tratar de processo que mostraria, por parte do autor, autonomia intelectual. O sistema de créditos expressa certa escolarização que se mantém na Universidade, como se um grau tivesse que corrigir os défices dos anteriores, como se a frequência e aprovação em mais seminários e disciplinas necessariamente redundasse em formação mais extensa e profunda. Sim, pode haver vantagens nos cursos, mas, tomá-los de forma programática no doutorado só prolonga a condição de estudante, procrastinando o momento de tornar-se intelectualmente adulto. Sei que a coisa não é assim tão esquemática, mas a direção é essa.

É uma estrutura que puxa para a mediocridade, e o fato de Dacotelli ter arguido a legitimidade da conclusão dos créditos como atributo para dizer-se doutor só torna mais nítido esse rebaixamento. É tal contexto que faz com que se dê excessivo peso ao estágio de pós-doutorado, considerando sua conclusão como a obtenção de um título – coisa que não é, ninguém é pós-doutor –, ou seja, mais um de grau distintivo para ver se as lacunas dos anteriores podem ser preenchidas. Sempre há défices na formação, e buscar o aprimoramento do próprio pensamento é cuidado de si, exercício de liberdade. Essa procura nem sempre coincide com os rituais da Universidade,mas isso não significa que eles não sejam importantes. A defesa de tese de doutorado é um deles, um exame a que um candidato à carreira universitária se submete. Não é mais que isso, embora não seja pouco.

Como o doutorado não é garantia de formação apurada, há casos de grandes intelectuais que não obtiveram o título. Olavo de Carvalho é um contraexemplo, já que seu problema não é a falta de um título universitário, mas ser incompetente e declarar-se filósofo quando é apenas oportunista e despreparado. Observe-se que o grande historiador Evaldo Cabral de Mello, de magnífica prosa e elaborada análise, tampouco detém um certificado de conclusão de curso de nível superior. Em 1992 a Universidade de São Paulo outorgou-lhe, no entanto, o reconhecimento de Notório Saber em História. Nada mais justo. Quanto a Dacotelli, só mesmo em um ambiente em que o doutorado é parte não da formação, mas da escolarização, é que seria possível ocorrer-lhe explicar o mal preenchimento do Lattes pela razão de haver cumprido os créditos, mas sem apresentar a tese. Embora se possa ter muitas dúvidas hoje a respeito do que é uma tese de doutorado (já não dá para esperá-la, na maioria dos casos, como algo de fato original, inédito, com contribuição decisiva para uma área de conhecimento), ela segue sendo o que importa.

Isso tudo conduz a um problema que me parece nevrálgico, o de orientar o ofício não exatamente pelo Lattes, que é apenas uma plataforma, mas por aquilo que ele representa para nós. Representa segundo certa interpretação corrente, já que a ênfase na valorização de publicações e orientações de trabalhos de conclusão é uma forma de seu uso, não a única possível. Os dados que podemos encontrar no currículo de cada um são muitos, não apenas aos que hoje creditamos mais pontos na maratona acadêmica.

É preciso que informações no Lattes sem correspondência com a realidade sejam corrigidas, que haja controle pelos pares e pelos órgãos de pesquisa, pelas comissões de concurso etc. Melhor ou pior, isso acaba acontecendo pelos mecanismos que citei no texto da semana passada e pela necessidade de apresentação de certificados em situações decisivas. Isso não deve ser confundido com uma dificuldade de outra natureza, que é tomar a plataforma – não exatamente ela, repito, mas nossa representação sobre ela – como orientação para as atividades de pesquisa.Por exemplo, currículos vistos como muito coerentes podem mostrar apenas uma espécie de compulsão ao sempre-igual.

Melhor seria desativarmos o dispositivo que, aliás, foi fabricado por nós mesmos. Longa vida ao Lattes, mas, antes de tudo, à liberdade de pensar e pesquisar.


Imagem de destaque: Coffee Bean / Pixabay

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