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Universidade na Praça

Wojciech Andrzej Kulesza

Em João Pessoa, a greve nacional da educação contou entre suas principais atividades com a demonstração do que é feito na Universidade. Realizada no tradicional “ponto de cem réis”, uma referência ao preço do bonde na década de 1920 que conduzia ao centro da cidade, a mostra mobilizou dezenas de alunos, professores e funcionários da UFPB e do IFPB. Localizado na parte alta da capital paraibana, o ponto, que ostenta oficialmente hoje o nome de Praça Vidal de Negreiros (herói paraibano na guerra de restauração da monarquia portuguesa no século XVII devido à sua atuação na expulsão dos holandeses do Brasil), é de circulação obrigatória para quem se dirige para a urbe. Ali se esperava encontrar com o povo em toda sua diversidade para exibir um pouco do que se faz na universidade. A razão era clara: atacadas pelo governo, as instituições, assim procedendo, procuravam desfazer as falsidades propaladas pelo MEC que insistiam na sua improdutividade, em seu caráter perdulário, enfim, em sua inutilidade social.

Por isso, a maior parte do material exposto dizia respeito às necessidades básicas da população: sua saúde, sua educação, seus alimentos, seus lazeres, pedagogicamente esclarecendo como se estão equacionando os problemas para propor soluções. Muitos pôsteres apresentados em congressos ao serem expostos na praça assumiram seu papel de divulgação científica suscitando diálogos insuspeitáveis com a população. As pesquisas como que se ressignificavam, remetendo seus autores à sua motivação inicial e ampliando o seu contexto de aplicação. Naturalmente, aqui e ali havia glosas bem humoradas às alocuções do atual governo, tais como, “ mexeu com a educação, mexeu com todos”, “conheça nossa balbúrdia”, “educação abaixo de tudo, ignorância acima de todos”, “a educação destrói mitos”, convivendo com palavras de ordem dirigidas diretamente contra o presidente e o Ministro da Educação. Todavia, no semblante dos manifestantes/expositores, contrastando com os discursos indignados das lideranças, transparecia a tranquilidade própria de quem havia cumprido com seu dever e estava orgulhoso de tê-lo feito.

Como toda aula bem dada, as atividades na rua mexeram com as cabeças tanto de educandos como de educadores fazendo com que doravante nem a universidade e nem a sociedade sejam as mesmas, objetivo implícito da greve da educação. Quanto ao governo, principal responsável pelo protesto, espera-se que tenha aprendido a lição e recue de suas maldades, mesmo porque é no campo da educação que surgem primeiramente os instrumentos para divisar o futuro da sociedade e de suas instituições.


Imagem de destaque: Acervo do autor

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