Universidade e obscurantismo – exclusivo

Alexandre Fernandez Vaz

Quando ingressei no curso Psicologia na UFSC, há trinta anos, o peso das questões da sociedade e da cultura era muito grande do debate interno. Em tempos de forte politização, a Psicologia Social tinha uma presença acadêmica e mesmo moral que contrastava muito com outras abordagens, especialmente aquelas vinculadas à pesquisa em laboratório, a Psicologia Experimental e a Etologia, em especial. A posição política se mesclava com a epistemológica, para muitos de nós tratava-se do mesmo enfrentamento. Tínhamos e não tínhamos razão, já que o pensar sempre é interessado e posicionado, mas as relações entre política e epistemologia são complexas e muitas vezes dissonantes e inesperadas.

Naquele ambiente de crítica às bases da Psicologia como saber, uma referência nos era fundamental: a PUC de São Paulo. Acompanhávamos os trabalhos em comunidade lá realizados, a abordagem marxista, as indagações sobre a construção social do sujeito; admirávamos a proximidade da Psicologia com a Sociologia e a Filosofia e procurávamos nosso caminho inspirados naquele movimento. Os livros que líamos eram frequentemente de gente da PUC, universidade que abrigara muitos professores cassados pela ditadura civil-militar que aos poucos findava. Despontava a figura do Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, Grão-Chanceler da PUC. Defensor das liberdades democráticas, Dom Paulo organizara com o Pastor Jaime Wright  e o Rabino Henry Sobelo o importantíssimo livro Brasil: nunca mais, resultado de pesquisa extensa feita por um grupo que sabia de que lado estava. Em 1975, o Cardeal havia comandado o culto em honra de Vladimir Herzog, desafiando uma vez mais as forças de repressão que, por sua vez, avançando sobre as costumeiras ameaças, invadiram a PUC dois anos depois.

Dom Paulo já não está na ativa e a PUC tampouco é a mesma de anos atrás. Lamento que a grande universidade combativa tenha perdido tanto da sua força, em especial quando penso em sua recente recusa em instituir uma Cátedra em honra a Michel Foucault. O tema é conhecido e foi debatido nas últimas semanas, mas a questão, cheia de significados e implicações, está longe de esgotar-se. A PUC promoveria a cátedra vinculada ao acolhimento de importante material de cursos ministrados pelo filósofo francês. Não há dúvidas sobre os ganhos materiais e simbólicos que a própria instituição e as Humanidades, no Brasil, teriam com a concretização da cátedra. Entretanto, arguindo sua condição de universidade católica, a PUC recusou a homenagem a um dos grandes pensadores do século vinte.

A história do ocidente é, em boa medida, a do cristianismo, no interior do qual despontam os católicos. O imaginário popular tem na figura do Papa um imperador supranacional. Religiosos foram responsáveis pela manutenção, interpretação e produção de conhecimento, especialmente do medievo para cá, processo que nunca deixou de ser interessado e que também atuou censurando e eclipsando saberes. Neste contexto, uma universidade católica não chega a ser um contrassenso, mas expressão das relações de força que compõem o presente – seja ele o nosso ou o de nossos antecessores.

Mas a PUC é uma universidade e isso teria que valer antes de sua adjetivação. Como tal, haveria que estar submetida aos grandes compromissos da tradição universitária, aqueles que dizem respeito à autonomia e à universalidade, valorização do contraditório e do debate, pensamento livre e rigoroso. Não é isso que a PUC sinaliza ao recusar a Cátedra Foucault. Não foi isso que fez a Universidade Católica de Lovaina, Bélgica, onde Foucault ministrou, em abril e maio de 1981, o curso Mal faire, vrai dire (algo como Agir mal, dizer a verdade).

Chama a atenção que os protestos contra a posição da PUC não tenham encontrado guarida e que rapidamente tenhamos passado à outra pauta. Parece que se trata apenas de mais uma linha na agenda que, página virada, já com ela não há mais o que fazer. Mas não é pequeno o problema e ele se coloca nos termos de um desfalque no espírito republicano. Cada instituição, obviamente, tem o direito à crítica, assim como deve acontecer com qualquer pessoa. Muito diferente, no entanto, é fazer a sociedade e a vida pública reféns do obscurantismo e, ainda por cima, evocando a liberdade de opinião. Além de cinismo, é prática antipolítica.

La Plata, República Argentina, junho de 2015.

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