Universidade e formação II (um breve testemunho sobre a Iniciação Científica)

Alexandre Fernandez Vaz

As universidades brasileiras estão em período de inscrição para bolsas dos Programas Institucionais de Iniciação Científica, sob o comando geral do CNPq e operacionalização das próprias instituições de nível superior. Estas devem oferecer uma contrapartida na forma de mais bolsas, variando, em cada universidade, a quota apresentada. Aquelas com pós-graduação mais vasta e consolidada tendem a receber mais bolsas, já que as coisas em ciência e tecnologia costumam acontecer em cascata: os programas de pós mais bem pontuados têm geralmente pesquisadores com currículo mais vasto, que por sua têm preferências nas bolsas etc. O sistema alimenta a si mesmo.

Envolvo-me com a iniciação científica há muitos anos, desde um pouco antes de defender a tese de doutorado e pouco depois de ingressar como professor da UFSC. Na época, a candidatura dispensava o título de Doutor, embora lhe desse preferência, situação que logo avançou para a exclusividade. De lá para cá sempre tive orientandos, participei de quase todas as comissões de avaliação do Centro de Educação, coordenei-a por anos seguidos. Atuei ainda na avaliação de programas de diversas universidades, como representante do CNPq para a área de Humanidades. Esta será a primeira vez, em quinze anos, que não solicitarei quota de bolsa, uma vez que o regulamento veda-me a possibilidade porque estou afastado em estágio pós-doutoral. Em meu registro pessoal, penso que não é ruim este interregno, uma pausa na máquina pode fazer pensar um pouco.

A orientação de alunos da graduação sempre obedeceu, para mim, a dinâmicas intensas, mas um tanto diversas, tanto porque cada um é cada um, quanto porque aqueles com os quais trabalhei vieram de diferentes radicações: Filosofia, Letras, História, Educação Física, Pedagogia, Ciências Sociais. Todos estiveram envolvidos, de diferentes maneiras, senão em projetos amplos e coletivos, pelo menos em linhas de interesse mais ou menos constantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea, que coordeno há uma década e meia. Não vejo outra maneira de inserir um estudante na pesquisa, senão em um esforço de investigação consistente e continuado, do qual ele possa fazer parte. Neste sentido, considero que a orientação de um aluno de graduação deve mesmo ser preferencialmente feita por pesquisador experimentado – concedendo-lhe, inclusive, mais de uma bolsa por ano –, destinando-se quotas para jovens e promissores doutores. Entretanto, como já escrevi há um ano, entendo que isso não significa que um aluno de iniciação científica deva trabalhar para o grupo de pesquisa, mas, ao contrário, ele deve formar-se em seu interior.

Embora os critérios de concessão de bolsa e de avaliação de resultados variem em cada área de conhecimento, há uma visão geral segundo a qual o relatório de pesquisa sintetiza o percurso realizado nos doze meses. Considero isso apenas em parte verdadeiro. O processo deveria ser mais valorizado que o resultado, observando que neste nem sempre aquele se deixa ver com clareza. Desenvolver processos de avaliação do processo é desafio grande, mas que tem que ser enfrentado.

Dos vários orientandos de iniciação científica que tive, não foram poucos os que chegaram à pós-graduação e alguns deles, mesmo sem a bolsa específica, são hoje professores de universidades federais. Apesar do relativo êxito, penso que há algo que não termina de se concretizar no que tenho feito. Embora sempre tenha considerado a experiência de pesquisa com alunos da graduação um momento essencialmente de formação intelectual, suponho que deveria ter radicalizado ainda mais esse processo. Exemplifico. Durante algum tempo realizamos uma atividade que me pareceu das mais interessantes com bolsistas de iniciação científica. Para além das tarefas individuais que deveriam realizar, participavam de uma reunião por semana em que eram discutidos temas, textos ou metodologias que não tinham relação direta com os próprios projetos. Perda de tempo? Nos termos colocados pela produtividade a qualquer custo, sim, mas não se pensarmos na formação mais geral e de longo prazo. Penso que deveria ter investido mais neste tipo de atividade, que poderia ter incluído pós-graduandos, também em momento de formação e carentes de um horizonte intelectual menos estreito. É melhor uma dissertação mais simples, mas uma formação mais ampla, do que o contrário. Testar novas formas de abordagem de um fenômeno, familiarizar-se com distintas tradições de pesquisa e perspectivas teóricas, aprender de fato uma língua estrangeira, são possibilidades que também poderiam ser mais bem incentivadas e promovidas na iniciação científica.

Lembro-me de uma querida professora que tive no mestrado que, quando já éramos colegas na pós-graduação, argumentava contra o acirramento do prazo para conclusão do curso. Dizia que com o ensino médio e a graduação de que então dispúnhamos (não tão diferentes agora), dois anos eram pouco para formar um aluno e chegar à dissertação. Ela tinha razão. Hoje os alunos chegam na pós, pelo menos uma boa parte deles, mais treinados, alguns oriundos da iniciação científica ou de programas correlatos, mas não necessariamente mais formados. Quando concluem a pós estão em situação diferente? Seria bom pensarmos um pouco nisso.

Berlim-Kreuzberg, abril de 2016.

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